Aracaju (SE), 20 de janeiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 20/01/2026
Pub.: 20 de janeiro de 2026

Onde Iremos Parar? :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*
José Lima Santana - Foto:  Arquivo Pessoal
O clima está mesmo maluco. Mas, há quem ainda duvide disso. E há quem desdenhe. O aquecimento global, que vem sendo denunciado há algumas décadas, tem merecido a contestação de determinados segmentos da sociedade, em diversas partes do mundo. Todavia, as consequências estão aí, inclusive para colocar por terra os argumentos ridículos e irresponsáveis de autoridades mundiais, a exemplo do presidente Donald Trump dos Estados Unidos, que voltou à presidência muito mais aloprado. 
 
Não quero me alongar em fazer citações e demonstrações de gravíssimos fatos que vêm se sucedendo pelo mundo afora. Vou, porém, deter-me em um único caso, que conheço de perto, no meu município, Nossa Senhora das Dores. 
 
Em 1968, meu pai, um homem simples, marchante, adquiriu um minifúndio com cerca de quinze hectares, a poucos quilômetros da cidade. Naquele tempo, íamos à Caiçara, denominação do terreno adquirido por meu pai, quase à sombra, pois as margens da estrada eram cobertas por vegetação. Vicejavam as candeias brancas, cujas folhas são remédio para doenças do fígado, pirungas, guarirobas, que chamamos de gobirabas, marias-pretas, gameleiras, juremas, muricis, sucupiras etc. 
 
Aos poucos, a vegetação nativa foi cedendo lugar aos capinzais. O machado e o fogo fizeram-se inimigos da flora, cuja destruição, claro, arrastou consigo a fauna. Devastação. Não bastava a destruição das matas ciliares, em torno dos riachos do Engenho Novo e do Gonçalão, que, poucos metros antes da cerca entre papai e ‘seu’ Aroaldo, juntavam-se em um só para formar o riacho Caiçara?
 
Nas margens dos riachos, as ingazeiras foram sendo derrubadas. Além da proteção às margens citadas, os frutos maduros do ingá abriam-se, caiam na água e alimentavam os peixes e os camarões de água doce. Tudo perdido. Ou quase. 
 
Os capinzais passaram a dominar a paisagem: capim sempre-verde, pangola, pangolão, gordura e outras espécies, a depender do gosto dos proprietários. Os bois mugiam cada vez mais em substituição às vozes dos animais silvestres, outrora abundantes. 
 
O assoreamento dos riachos tornou-se gritante. O desmoronamento dos barrancos arrastou consigo goiabeiras e bananeiras, plantadas, originalmente, talvez, há décadas. Centenas de ouricurizeiros deixaram de fornecer o delicioso coquinho, que, aliás, eu tanto aprecio.
 
Embora não seja objeto da minha docência, na Universidade Federal de Sergipe, onde estou desde 1996, o Direito Ambiental tem merecido a minha preocupação e atenção. Divido com o promotor de justiça aposentado Antônio César Leite de Carvalho, conhecido por Toinho Vilanova, a autoria do livro “Direito Ambiental Brasileiro em Perspectiva”, de 2012, publicado pela Editora Juruá de Curitiba. Do mesmo modo, a minha dissertação de mestrado em Direito, na Universidade Federal do Ceará, intitula-se “Prenúncios do Direito Urbanístico e Ambiental em Sergipe – 1835-1889”.
 
O mundo está destrambelhado. Nós, os únicos seres racionais a habitar o planeta Terra, destrambelhamos a nossa casa comum. O saudoso Papa Francisco tinha razão, quando, na Laudato Si’, chamou a atenção do mundo para a grave situação do nosso adoecido planeta, embora até mesmo dentro da Igreja haja vozes estupidamente contrárias às lídimas preocupações de um dos maiores chefes da Igreja. Que pena!
 
Que 2026 possa abrir as nossas vistas, a nossa consciência. Que possamos repensar o nosso modo de vida. Do contrário, onde iremos parar? 
 
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.


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