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Aracaju (SE), 15 de junho de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 15/06/2026 às 08:15
Pub.: 15 de junho de 2026
Atualizada: 15/06/2026 às 09h10

Pesquisa Eleitoral :: Por José Lima Santana

Por José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Beira do Sino amanheceu em turbulência. Na noite anterior, João Pacheco de Piaba Assada, este, seu pai, um velho pescador de margens de riachos, decidiu candidatar-se a prefeito. 

Vereador em três mandatos, popular nas rodas de cachaça e entre o mulherio da rampa, mas, também, no meio do povinho miúdo dos subúrbios e dos povoados. 

Candidato de oposição a Guilhermino de Sá Toinha de Zé Remela, este duas vezes prefeito, nos anteriormente. Prefeito em mandatos salteados, pois foi no tempo em que não havia a praga da reeleição.

João Pacheco aceitou fazer frente a Guilhermino, fazendeiro e comerciante, que, voz corrente, não passava de um salafrário, que abocanhava parte das verbas municipais e dos ganhos de alguns funcionários comissionados, também cognominado de Rei da Rachadinha. Se bem que, por aquelas bandas, rachada era outra coisa, que nem sempre se podia dizer. 
Guilhermino, duas vezes prefeito, como já dito, era filho de ex-prefeito. Aliás, um dos dois ex-prefeitos de Beira do Sino a comer cadeia. A cada vez que deixou a Prefeitura, seu patrimônio triplicou ou quadruplicou, comprando imóveis caros e pagando em bufunfa viva. 

O povo era besta, ou grande parte. Besta ou aproveitador das migalhas que caiam da mesa farta de Guilhermino e de seu pai? Naquele tempo, a compra de votos era coisa certa. Um corte de pano aqui, um sapato ali, uma perereca acolá, daquelas feitas pelo dentista-prático Filipinho de Maria Tanajura. Dessas tais pererecas, Guilhermino comprava cestos. Era só o precisado chegar, botar uma na boca, sacudir para lá e para cá e, se desse certo, levar. Também notas pequenas eram distribuídas à solta. Os eleitores que vendiam o voto, faziam festa como pintos num monte de cocô. 

Desde que Zé Remela, pai de Guilhermino, foi prefeito, o partido político dele nunca mais perdeu uma eleição. Na sequência, foram Zé Remela, Valdir de Pitoquinha, Zé Remela, Figueiredo dos Angicos, Guilhermino, Joca Pereirinha de Maria Come Fava, de novo Guilhermino e, por fim, aquele a ser agora sucedido, que era Adelmo Perna Curta do finado Calango Verde.  
João Pacheco era popular, mas não tinha a bufunfa que tinha Guilhermino. Enfrentá-lo era uma luta de Davi contra Golias. Porém, ninguém da oposição quis se sujeitar. Zebinha Olho Torto vivi a dizer: “Se der asa a uma cobra, ela voa. João Pacheco é uma cobra”. João Pacheco tinha tudo para enfrentar Guilhermino, para dar com ele no chão, ao abrir as urnas. Só era preciso ter cuidado com a contagem dos votos, pois o Dr. Juiz era primo de um cunhado da mulher de Guilhermino. Não era de confiança. Menos ainda o escrivão Firmino Coceira, que servia no cartório eleitoral. Sujeitinho ladino, bom trocador de votos, nos mapas de apuração!
 
Guilhermino tinha, todavia, um problema: o seu primo Rufino Araripe, por parte de mãe, também queria ser prefeito. A ele foi oferecida a vaga de vice-prefeito. Rejeitou. Era uma pedra no sapato de Guilhermino. Outro fazendeirão, montado no capiléu. 
O partido de João Pacheco, na capital, arranjou um advogado para ajudá-lo nas precisões das papeladas e nas orientações tão necessárias para topar de testa com o poderio de Guilhermino. Jovem apessoado, bem-falante, mas que recebeu a desconfiança de alguns, porque era pretinho da cor da noite. Discriminação.
 
Dr. Roberto Ribeiro, o advogado, em reunião na casa de João Pacheco, numa segunda-feira à tarde, após bater para o bucho uma esplêndida galinha caipira de cabidela, um assado de porco temperado com pimenta rosa, manjericão cheiroso e coentrão de cerca, acompanhados de baião-de-dois, farinha de murici-cachorro e arroz na banha, bolou uma estratégia, que, se desse certo, poderia ajudar João Pacheco.
 
Dias depois, um magote de moças e rapazes, vindos da capital, andejou pelas ruas da cidade e povoados, fazendo uma pesquisa sobre as eleições. Pesquisa forjada. Era a estratégia. O resultado foi divulgado no domingo, folhas e mais folhas distribuídas à saída da missa do padre Chico Lemos. Resultado: Rufino Araripe com 35%, Guilhermino com 31%, João Pacheco com 30%, 2% brancos e nulos, e 2% sem saberem em quem votar.
 
Diante da pesquisa do Instituto Voto Certo, Rufino Araripe empolgou-se e candidatou-se a prefeito, enfraquecendo a candidatura de Guilhermino. Ambos correram para lá e para cá, cada um cantando vitória. Enquanto isso, João Pacheco gastou a sola dos sapatos. Bebeu da branquinha e da amarelinha em tudo que foi bodega de pé de pau. Beijou bochechas de menino de colo e de velhas com cheiro de sarro de cachimbo.
 
Abertas as urnas, João Pacheco obteve 42% dos votos válidos. Guilhermino, 32% e Rufino Araripe, 26%. Bendita pesquisa!

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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