FLUTUANTE 970 250 ALESE JUNHO
Aracaju (SE), 05 de junho de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 05/06/2026 às 11:46
Pub.: 05 de junho de 2026

A botija :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Marcolino de Zé de Tonho Catraia adquiriu um belo e mimoso sítio lá para as bandas do Córrego dos Afonsos. Terra boa, de bom massapê, ideal para a lavoura. Casa bem construída, quase nova, com vistoso pomar ao derredor, cercas em cinco fios de arame farpado, um poço de água doce com boa vazão. Distava o sítio cerca de meia légua da cidade. Treze contos de réis, como ainda diziam as pessoas dali. De veras, treze mil cruzeiros. 1965. Um ano depois que os militares sedentos de poder botaram o presidente para correr do país. Presidente frouxo, que não fez uma revolução de verdade, enfrentando as tropas insurretas. Não soube fazer-se presidente no contado.

Marcolino era solteiro, cabra bom de conversa, comerciante em começo de carreira, abancado com sortida loja de miudezas, na Rua da Prefeitura. Tinha tino para o comércio, herdado do avô Tonho Catraia, comerciante estabelecido em três cidades, no ramo de tecidos, sapatos e chapéus. 

Carol de Maria Júlia do finado Pedrinho Coça Perna era a namorada de Marcolino. Namoro de seis meses, se muito. Todavia, namoro bem engatado. Uma flor desabrochada no chão jardinoso da família Vieira Pedroso, de homens devotados à lida com gado de leite e corte, e de mulheres prendadas, no lar e na vida igrejeira. O padre Fonsequinha não se cansava de render elogios às mulheres daquela família, que tanto e tanto ajudavam nos afazeres da Matriz de Santa Clara. Carol tinha atirado uma flecha certeira no coração do moço, que não só caiu de quatro, no melhor dos sentidos, como já pensava em casamento. Ele com vinte e cinco anos e ela com dezenove. Constituíam um formoso casal. 

A pretensão de Marcolino era, uma vez casado, morar no sítio adquirido, ali pertinho da cidade. Espaço de sobra para criar a meninada que haveria de vir. Quatro, cinco, seis filhos, o que Deus mandasse. A namorada concordava. Ela gostava da vida afastada do rebuliço da cidade, embora não fosse lá grande coisa o rebuliço. Cidade pequena, que só se agitava na festa da padroeira e no tempo de eleição, com dois partidos políticos muito ferrenhos, que até mortes já se tinham verificado, em remoto passado. 

Marcolino esperava arranjar-se um pouco melhor para noivar e casar. Um ano e meio a dois anos.

A casa do sítio começou a ser mobiliada. Pouca coisa, por enquanto. Era mais para Marcolino ter onde dormir, quando quisesse. Além dos móveis do quarto, não o que seria do casal, mas um quanto menor, encostado à copa, uma mesa com quatro cadeiras e um sofá na sala de visitas. Era só para ter onde dormitar, vez em quando. 

Numa noite invernosa, Marcolino abancou-se no sítio, para dar conta de umas poucas pingueiras, a fim de mandar fazer o devido conserto. Deitou-se antes da meia-noite. O friozinho do inverno entrava com o vento por algumas frestas, que vento é bicho ligeiro para arranjar brechas e meter suas linguetas. O sono não demorou a fechar os olhos do rapaz. 

Na pancada de quase uma hora, madrugadinha dando a cara, Marcolino foi acordado por um sussurro. Mexeu-se na cama, levantou a cabeça, não viu nem ouviu mais nada. Devia ser o vento chamegando. Garrou no sono. Com pouco, novo sussurro. Levantou-se. Acendeu o candeeiro que estava ao pé da cama. Nada. Ainda assim, levantou-se. Abriu a porta, candeeiro à mão, fez ronda por toda a casa. Nada. Teria apenas sonhado? Pela segunda vez? Podia ser. Olhou o relógio. Duas e quinze. Voltou para a cama. Apagou o candeeiro. Novo sussurro. Lembrou do que dizia sua avó, Dona Merenciana: “Se for do outro mundo, diga logo o que quer”.

Ao repetir as palavras da avó, Marcolino arrepiou-se. Um vulto pareceu vir de algum lugar. Era apenas um vulto sem feições, uma sombra, que fez a porta se abrir e o rapaz ouviu um chamado quase silencioso. Destemido, meteu os pés no chão e seguiu a visagem, que se dirigiu ao quarto grande. No canto da parede, encostado à segunda janela, uma voz nítida fez-se ouvir: “Aqui”! Então, o vulto sumiu.

Marcolino não se fez de rogado. Buscou um enxadeco, no quartinho de guardar coisas e começou a cavoucar, arrancando os tijolos do piso. Cavou meio metro, mais ou menos. O enxadeco bateu em algo metálico. Cavou um pouco mais. E eis ali um baú de ferro. Moedas de prata. Muitas. Baú cheio pela boca. Devia valer um dinheirão. Um vento de açoite invadiu o quarto. A casa toda estremeceu com um gemido vindo do chão. O rapaz gritou: “Valei-me Nossa Senhora do Desterro”! Calmaria. 

A casa foi construída pelo finado Totonho de Domitila, um oficial marinheiro que, depois de percorrer os sete mares, viúvo e sem filhos, voltou à terra natal, para passar seus últimos anos de vida. Morreu em 1963, dois anos antes de Marcolino comprar o sítio a um sobrinho do falecido. 

Aquelas moedas de prata apressariam o noivado e o casamento. Bendita botija.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

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