Veado Ligeiro :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Zé de Bié saiu de casa em direção ao Barro Alto, distante cerca de légua e meia. O cavalo castanho de passo seguro, macio, era a montaria preferida daquele homem do campo, acostumado a varar verões e invernos, a ver a terra esverdeada nos tempos de chuva abundante, ou esturricada, avermelhada, a soltar uma poeira danada, nos tempos brabos de seca. Tempos brabos de seca! Foram muitas as secas que se abateram sobre o sertão do Araticum, desde que Zé de Bié se entendeu como gente. Lavouras perdidas, gado morrendo de sede e de fome, gente arribando do seu chão, alguns para nunca mais voltar, perdendo-se ou encontrando-se nas terras do Sul. Vidas secas... muitas!
No Barro Alto, Zé de Bié encontraria o compadre João de Fulô, negão que mais parecia um Hércules, afortunado no corpo, mas desprovido de tostão. Um dentre muitos homens daquele sertão que vendia dias no alugado, quando achava para quem trabalhar, nos tempos de secura. No inverno, não faltava serviço. Mas, nas secas prolongadas, passava-se a pão e água, ou nem a isto, pois tudo era faltante.
João de Fulô e Zé de Bié iriam botar tocaia num veado mateiro, que andava de correr trecho, desgarrado, do Barro Alto passa as Candeias, nas fazendas de Berto de Sá Joaninha e de Maurício do finado Tonho de Zé de Bela, cada fazenda com terras a perderem-se de vista, tendo partes de mato fechado, virgem de machado, foice e fogo.
Caçadores afamados eles eram, Zé de Bié e João de Fulô. Ainda restavam um ou outro veado mateiro por aquelas bandas. Entre as terras de Berto e Maurício havia uma mata, chamada Mata do Angico, sombreada, de madeira grossa, pés-de-pau fornidos, que diziam ser mal-assombrada. Coisas estranhas eram vistas ou ouvidas por ali. Lorotas do povo que não tinha o que fazer.
Maria de Jacundino de Afonso Perninha, que andejava em pescarias nos riachos que corriam por ali, quando sobrava água, diz ter visto um vulto enorme de boca de fogo sair de uma loca de pedras e arrastar-se em sua direção. A pobre mulher deixou para trás o jereré e a mochila cheia de peixinhos, piaus, jundiás e sarapós. E ela não foi a única a contar tal presepada. Em cada boca, um modo diverso de contar.
Caiporas e sacis-pererês viviam arranjando diversões por ali. Sem falar numa mula sem cabeça que atravessava os caminhos quando um cavaleiro solitário passava por entre a ladeira do riacho Jacoca e a tapera de Severino Doido, um amalucado que por ali se arranchara num casebre de taipa e palha, para mais de cinquenta anos.
Quem quisesse que tirasse da boca do povo todas aquelas crendices. Afinal, o povo não criava, apenas repetia o que a consciência coletiva não conseguia esquecer.
No tempo certo do bom galope, Zé de Bié riscou à porta de João de Fulô, que já o esperava no telheiro, abancado num tronco de jaqueira, que servia de banco. “Jesus Cristo lhe dê bom dia, compadre”, disse o visitante. “Nosso Senhor lhe dê o mesmo”. O sol das sete horas começava a querer pinicar. “Solzão tá vindo por aí”. João de Fulô colocou a palma da mão esquerda sobre os olhos e olhou para o céu azul, azul. “É... Vamos ter um dia bom”.
O perdigueiro de João de Fulô latiu, amarrado. Cão bom farejador. No mato, em busca de desentocar a presa, não fazia barulho, não latia. Sabia portar-se, para, no momento certeiro, lançar-se sobre a presa, desentocando-a e indo ao seu encalço.
A casa de João de Fulô e Mariinha, sua mulher, ficava na curva do Quendera, distante cerca de quarenta braças da entrada da mata do Brejo, que findava na mata entre as fazendas de Berto de Sá Joaninha e Maurício do finado Tonho de Zé de Bela. Ao lado da casa, havia um pequeno capão de mato.
Enquanto os dois compadres caçadores palestravam, um ligeiro rebuliço fez-se ouvir a não mais de vinte braças. Tupi, o cão de João de Fulô ergueu-se, deu um pulo e começou a latir. E eis que os dois, Zé de Bié e João de Fulô, puderam ver, num átimo, o veado mateiro pulando e embrenhando-se na mata. “Solta o cachorro, compadre”! Tupi partiu em desabalada carreira, no rastro e no cheiro do veado mateiro. Era no tempo em que as caçadas não constituíam crime. Naquele dia, Zé de Bié pensou em não comer carne de bode. O veado mateiro daria boa panelada. Caçada mais fácil seria aquela. Todavia, não foi. O veado mateiro sumiu no mundo, dando dribles no cão de João de Fulô. E Zé de Bié voltaria para casa de mãos abanando.
*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.