Minha velha professora, com todo o respeito :: Por José Lima Santana
José Lima Santana*
Do primeiro para o segundo ano primário, eu passei com média 5,0. Simplesmente, brinquei. Minha mãe, semianalfabeta, chamou-me e disse: “Filho meu não passa arrastado. Vou lhe mudar de escola e você vai repetir o ano”. Castigo da gota! E assim foi feito. Saí da escola municipal, pertinho de minha casa, regida pela professora Lídia, e fui para a escola particular da professora Glória, na Praça da Matriz, bem em frente à igreja.
A professora Maria da Glória Santos era aposentada da rede estadual. Tinha sido professora de minha mãe. Ela, a professora Joana, que seria minha professora no curso ginasial, e a professora Rosa. Mamãe falava muito bem das três. Bom. A professora Glória ingressou na rede estadual, em 1929, pelas mãos do presidente da Assembleia Legislativa, então no exercício da chefia do Executivo estadual, Francisco de Souza Porto, nascido em Siriri, mas dorense de corpo e alma. Aliás, ela já ensinava como professora particular quando foi admitida, em um caso que causou rumores na vida política sergipana, pois os adversários de Chico Porto contestaram a contratação da mesma, com bate-boca nos jornais. Já registrei isso em livro, publicado em 2020.
Era uma professora aplicadíssima. E de disciplina dura, como ocorria naquele tempo. À escrivaninha, régua e palmatória. Meninos sentados de um lado e meninas do outro. Estas podiam, na precisão, fazer uso da privada da professora, no fundo da casa. Os meninos tinham que sair da sala, tomando o rumo do beco existente nos fundos da escola e de outras casas, atravessando a Praça de “seu” Tota, para ali se aliviarem. Um dia, ela demorou a me dar permissão e eu me aliviei bem em frente à escola. Castigo.
Eu era meio desenrolado no aprendizado. Vacilei no ano anterior, mas sabia tudo, ou quase tudo do primeiro ano. De forma que, para o segundo semestre, a professora mandou que mamãe providenciasse os livros do segundo ano. E no segundo semestre do segundo ano, os livros do terceiro ano. Estudei com ela em 1963 e 1964. No fim desse ano, ela encerrou para sempre as atividades docentes. Uma pena!
Apesar de disciplinadora rígida, alguns alunos não davam sopa. Havia dois irmãos gêmeos, Cosme e Damião, que eram a rapa da peste, o raio da silibrina. Davam trabalho. Tinham algum distúrbio. Eles saíam da escola a qualquer hora, para dar dribles na professora, que ia atrás deles de régua à mão. Nesse meio tempo, a gente se soltava. Hora de soltar aviõezinhos, de perturbar os menores ou dizer gracejos às meninas. De repente, alguém, que ficava de atalaia, gritava: “A velha vem aí”. E tudo voltava à mais perfeita ordem. Ela retornava com os dois rebeldes.
Os alunos mais atrasados em suas lições adoravam quando a professora os mandava para Lindonor, que a gente chamava Donô, tomar as lições. Era a sobrinha da professora, que morava com ela, cuidava da casa e fazia renda na almofada de bilros. Ás vezes, o cheiro bom da comida que Donô preparava inebriava a sala de aula, que era a sala de estar da casa (ou varanda, como, em Dores, a gente chamava tal sala).
Fim de ano, provas. Nós as recebíamos com um cartão de Boas Festas e uma fita verde-amarela agarrada no papel pautado das provas. Quem mais podia, levava um presentinho para a professora: um sabonete, um talco e coisas assim. O ano letivo começava em março e estendia-se até novembro, com as férias de julho no meio. Eram oito meses de aulas. Não tínhamos os 200 dias letivos do calendário atual.
Ah, ia-me esquecendo! As carambolas. Havia no quintal da professora um frondoso pé da carambola. Ela as vendia a Deba, que as revendia na feira semanal. Quando um menino mais taludo saía para se aliviar nos fundos da escola, aguardava outro para dar um impulso, a fim de um deles subir no muro e catar algumas carambolas. Se a professora descobrisse, era punição na certa. Mas, Donô, quando gostava de um aluno ou aluna, permitia que fosse catar uma carambola. Apenas uma. Para quem gostava da fruta, era o bastante.
Encerradas as atividades docentes no fim de 1964, no ano seguinte eu fui estudar o terceiro ano no Educandário Nossa Senhora das Dores, da professora Menininha, ou seja, Maria Menezes Góis, formada na Escola Normal de Aracaju, na turma de 1936. Outra gigante da educação dorense, natural do então povoado Areia Branco, hoje município.
Esquecer da velha professora Maria da Glória Santos? Não tem como. Nem dela, nem de Lídia, nem de Menininha. Dediquei um dos meus livros a elas três. Merecidamente. Diga-se de passagem, as três viraram nomes de escolas municipais.