Idosos conectados: uso de smartphones cresce, mas exige atenção à saúde física
Pesquisa aponta aumento do uso de celulares entre pessoas com mais de 60 anos, enquanto especialistas alertam para efeitos na mobilidade, postura e sedentarismo
O uso de smartphones entre a população idosa tem crescido de forma acelerada no Brasil. De acordo com a pesquisa TIC Domicílios 2025, 81% das pessoas entre 60 e 69 anos possuem celular. Na faixa de 70 a 79 anos, o índice chega a 66%, enquanto entre os idosos com mais de 80 anos, o percentual é de 35%. Esse acesso também varia conforme a renda: nas classes AB, os números são ainda mais elevados, atingindo 96%, 87% e 43%, respectivamente.
Esse panorama evidencia uma terceira idade cada vez mais inserida no ambiente digital, com maior facilidade de acesso à informação, comunicação e serviços. No entanto, o aumento do tempo diante das telas também acende um alerta sobre possíveis impactos na saúde física e nos níveis de atividade corporal.
O professor e coordenador do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH) da Universidade Tiradentes (Unit), Estélio Dantas, explica que o avanço tecnológico historicamente está associado à diminuição do esforço físico cotidiano, algo que também se reflete no uso do celular.
“O smartphone, assim como outras tecnologias, facilita a vida, mas também reduz a necessidade de movimento no dia a dia. Quando tudo é resolvido pelo aparelho, há uma tendência de menor deslocamento, o que favorece o sedentarismo, especialmente entre idosos, que precisam manter o corpo ativo para preservar saúde e autonomia”, elenca.
Coordenação
Apesar desses efeitos, o uso do celular também pode trazer benefícios quando analisado sob o aspecto motor e cognitivo. Segundo o professor, a interação com o dispositivo exige precisão e atenção, estimulando funções importantes do organismo. “O uso do celular exige coordenação motora fina e integração entre visão e movimento das mãos. Isso ativa áreas cerebrais responsáveis pelo controle motor e pode contribuir para a manutenção dessas habilidades ao longo do tempo”, explica.
Por outro lado, o uso excessivo e sem orientação pode intensificar problemas comuns na velhice, especialmente os relacionados à postura. “O idoso já apresenta tendência à perda de força muscular e alterações na coluna. Permanecer muito tempo no celular, geralmente com a cabeça inclinada para frente, agrava esse quadro e pode provocar dores frequentes”, alerta.
Quando utilizado de forma planejada, o smartphone pode se tornar um aliado importante para a saúde. Estélio destaca o papel de aplicativos e dispositivos que incentivam a prática de atividades físicas. “Hoje, o celular pode funcionar como um estímulo.
aplicativos e relógios inteligentes, o idoso pode monitorar passos, frequência cardíaca, gasto calórico e metas diárias, o que ajuda a tornar a prática de exercícios mais organizada e até mais motivadora”, orienta.
O nível de inclusão digital também impacta diretamente o comportamento físico. Segundo o especialista, idosos mais conectados tendem a se manter mais ativos. “Quem utiliza mais a tecnologia tem acesso a vídeos de exercícios, aplicativos de saúde e até grupos virtuais que incentivam a atividade física. Isso contribui para que se movimentem mais. Já aqueles que não têm esse acesso tendem a permanecer mais sedentários”, destaca.
Uso equilibrado
O principal problema, de acordo com o professor, está no uso excessivo e sem finalidade do aparelho. “O risco não está no celular em si, mas no uso prolongado e passivo. Ficar muito tempo parado, apenas consumindo conteúdo, aumenta o sedentarismo e pode agravar problemas posturais.
O ideal é usar o celular como uma ferramenta de cuidado: monitorar a saúde, praticar exercícios e lembrar de se movimentar. Ele não deve substituir a atividade física, mas contribuir para incorporá-la à rotina”, explica.
Na avaliação final, o smartphone pode ser um recurso positivo no processo de envelhecimento, desde que utilizado com equilíbrio. “O celular é mais um aliado do que um inimigo. Ele facilita o acesso à informação e pode orientar hábitos mais saudáveis. No entanto, tudo depende da forma como é utilizado no dia a dia”, conclui.