Dissertação de mestrado desenvolve guia prático para uso de IA por professores
Criada no mestrado em Educação da Unit, “Roda da PedagogIA” já é aplicada em escolas e amplia o uso crítico e criativo da inteligência artificial, com bons impactos na formação e capacitação dos docentes
Como os professores podem assimilar as ferramentas e tecnologias educacionais que eles têm à sua disposição, podendo usá-las a seu favor em sala de aula? Uma resposta neste sentido pode estar em uma novo recurso digital educacional, desenvolvida a partir de uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED), da Universidade Tiradentes (Unit).
A chamada “Roda da PedagogIA” foi elaborada pelo professor e jornalista José Amorim da Silva Filho, que concluiu o mestrado na Unit ao final do ano passado e hoje coordena o Núcleo Técnico-Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação de Barra do Choça (BA).
A Roda reúne e sugere aplicativos disponíveis que trabalhem objetos educacionais em dispositivos móveis, e foi elaborada como um recurso conceitual e visual, em formato de “guia prático”, a partir de uma adaptação e atualização da Roda da Pedagogia original, chamada “Padagogy Wheel”, criada pelo australiano Allan Carrington.
O intuito de José Amorim e de seu orientador no mestrado, o professor Ronaldo Linhares, foi integrar as inteligências artificiais educacionais às dimensões cognitivas da Taxonomia de Bloom, que classifica e organiza a complexidade do aprendizado nos domínios cognitivo, afetivo e psicomotor; e ao modelo SAMR (Substituição, Aumento, Modificação e Redefinição), que mensura o nível de integração da tecnologia com o aprendizado em sala de aula.
“Em essência, a Roda da PedagogIA ajuda o professor a pensar em como usar as diversas Inteligências Artificiais de forma estratégica, partindo dos objetivos pedagógicos e não da tecnologia em si. Ela sugere tecnologias e abordagens para cada nível da Taxonomia de Bloom, desde o conhecimento básico até a criação e avaliação, sempre com o suporte da IA.
É um mapa para o professor inovar na sala de aula com a IA, de forma intencional e eficaz”, afirma o autor, destacando que o recurso digital é voltado à qualificação e ao desenvolvimento de competências para professores do Ensino Fundamental quanto ao uso pedagógico das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDICs).
A dissertação que embasou a elaboração da Roda da PedagogIA nasceu de um levantamento sobre as competências digitais de 111 professores dos anos finais do Ensino Fundamental nas escolas da rede municipal de Barra do Choça, cidade do sudoeste baiano que fica a 30 quilômetros de Vitória da Conquista.
Com base no DigiCompEdu (quadro europeu de competências digitais para educadores), ele detectou que cerca de 87,4% dos pesquisados apresentavam competências digitais nos níveis mais básicos (A1/A2). Ou seja: a maioria dos professores apresentava um baixo nível de proficiência digital e o uso das TDICs era predominantemente instrumental.
“Havia uma clara necessidade de um framework que os ajudasse a transitar para um uso mais pedagógico, autoral e inovador das tecnologias. A Roda da PedagogIA surge como essa resposta, oferecendo um caminho estruturado para que os professores possam integrar as inteligências artificiais de modo a promover a aprendizagem ativa e a personalização do ensino.
Além disso, contribui para o desenvolvimento de competências digitais mais avançadas, superando o uso básico e fragmentado que foi diagnosticado”, lembrou Amorim.
Sobre os principais desafios que os professores já enfrentam nesse processo de adaptação às novas tecnologias, incluindo a IA, o professor baiano considera que eles possuem muitas nuances, a começar pelo acesso ainda limitado a equipamentos e internet de qualidade em muitas escolas, e pela necessidade de uma formação continuada cada vez mais robusta, prática e alinhada às reais demandas dos docentes.
“Há também o desafio da gestão do tempo, pois a incorporação de novas tecnologias exige planejamento e experimentação. E, com a IA, surge a necessidade de desenvolver uma alfabetização em IA, ou seja, entender como essas tecnologias funcionam, como utilizá-las de forma ética e crítica, e como adaptá-las para personalizar o ensino, sem perder o foco na pedagogia. O risco é que a tecnologia seja vista como um substituto do professor, e não como uma aliada poderosa”, considera.
Formação contínua
Juntamente com a Roda da PedagogIA, foi elaborado um processo de formação continuada sobre o uso das TDICs, o que, segundo o autor da dissertação, serviu como motivação e mostrou a lacuna existente na formação dos professores locais em relação às competências digitais.
“Essa vivência prática reafirmou a necessidade de uma proposta sistemática de formação continuada em tecnologias digitais. O estudo em si e seus resultados culminaram na estruturação de uma proposta de formação continuada em tecnologias digitais. Foi um mergulho profundo na realidade da sala de aula, buscando entender como a tecnologia está sendo incorporada – ou não – no dia a dia pedagógico”, diz.
Esta formação começou a ser adotada neste ano pela Secretaria de Educação de Barra do Choça, com oficinas ministradas pelo próprio José Amorim Filho.
“Temos observado um aumento significativo no engajamento dos professores com as ferramentas de IA, uma maior segurança em experimentar novas abordagens pedagógicas e, o mais importante, uma mudança na percepção da IA: de uma ameaça ou algo distante, para um recurso poderoso de apoio ao ensino e à aprendizagem.
Os professores começam a criar atividades mais personalizadas, a desenvolver materiais didáticos inovadores e a estimular o pensamento crítico dos alunos em relação à tecnologia. É um processo contínuo, mas os feedbacks têm sido muito positivos, indicando que o dispositivo realmente ajuda a desmistificar a IA e a integrá-la de forma eficaz no planejamento pedagógico”, assegura ele.
Além da aplicação prática em Barra do Choça, a Roda da PedagogIA está sendo divulgada através de palestras, oficinas e formações ministradas por Amorim em diversas instituições e redes de ensino, principalmente em Sergipe e na Bahia.
O material pode ser acessado e baixado em PDF de alta resolução, através deste link. Em breve, serão disponibilizados materiais de apoio, guias e até uma plataforma online que facilite ainda mais o acesso e a aplicação do novo recurso digital.
“A ideia é torná-lo amplamente acessível, democratizar o acesso a essa abordagem e formar cada vez mais educadores para o uso estratégico da IA na educação”, conclui o professor.
Professores e redes de ensino interessados em pedir formações ou obter mais informações sobre a Roda da PedagogIA podem entrar em contato com o próprio autor, através do e-mail, do telefone (77) 99974-3867 ou de sua página pessoal no Instagram.