ARBO 1100 X 350 - HOME FLUTUANTE
Aracaju (SE), 10 de abril de 2026
POR: Gabriel Damásio
Fonte: Asscom Unit
Em: 10/04/2026 às 11:19
Pub.: 10 de abril de 2026

Arte, memória e resistência: exposição dá voz à cultura Xocó em Aracaju

Exposição resgata trajetória de Zé do Chalé, que aos 92 anos, talhou esculturas de madeira inspiradas na ancestralidade do povo indígena sergipano; mostra também apresenta acervo histórico e fotográfico

Arte, memória e resistência: exposição dá voz à cultura Xocó em Aracaju - Foto: Divulgação

O Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa promoverá a exposição “Xocó: Práticas e Saberes de Resistência”, que apresentará as obras do artesão e escultor José Cândido dos Santos, o “Zé do Chalé” (1903-2008), cuja obra é ligada à cultura e às tradições do povo indígena Xocó, o principal de Sergipe. A exposição será oficialmente aberta na próxima sexta-feira, 17, às 10h, em evento que marca a comemoração pelo Dia dos Povos Indígenas (19 de abril). 

A mostra é promovida pelo Memorial de Sergipe e pelo Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), com patrocínio da Universidade Tiradentes (Unit), do Banco do Nordeste e da Lei de Incentivo à Cultura, além do apoio do Ministério da Cultura e do Arquivo Público do Estado de Sergipe (Apes).

A exposição conta com esculturas de madeira talhadas por Zé do Chalé e por seu filho, Zacarias dos Santos, que também seguiu a carreira de escultor e deu seguimento ao trabalho artístico iniciado pelo pai. Ela também terá fotografias do também artista Nailson Moura, objetos etnográficos e outras peças.

Além disso, a exposição terá documentos históricos relacionados ao processo de retomada pelo povo Xocó das terras da Ilha de São Pedro, em Porto da Folha, e sua posterior demarcação como terra indígena pela Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), entre 1979 e 1991.

“A reunião dessas obras propõe ao espectador uma experiência de aproximação com os saberes, a estética e a espiritualidade do povo Xocó. Não será só observar objetos, o público será convidado a refletir sobre formas de existência, resistência e produção de conhecimento que muitas vezes foram invisibilizadas.

A exposição convida o público a reconhecer a riqueza e a complexidade das culturas indígenas, tendo como base o conceito de descolonização em museus”, destacou a museóloga Sayonara Viana, diretora do Memorial e curadora da exposição.

Parte desse acervo pertence ao Memorial de Sergipe, integrando a coleção do escritor, colecionador e museólogo José Augusto Garcez (1918-1992). As outras peças foram complementadas com o acervo cedido pelos próprios artistas e pela família de Zé do Chalé. E os documentos foram cedidos temporariamente pelo Arquivo Público. 

Quem foi Zé do Chalé

Nascido em 1903 no povoado Saúde, em Neópolis, José Cândido era descendente direto dos indígenas, e foi criado nas terras na Ilha de São Pedro, às margens do Rio São Francisco. Ali, ficou conhecido como “Zé do Chalé” por causa da habilidade que adquiriu como carpinteiro e construtor de barcos e casas.

Em meados do século passado, os xocós foram expulsos das terras, o que forçou Cândido a morar em outras cidades da região, até se fixar em Aracaju, e trabalhar na construção civil, como mestre-de-obras, a partir de 1958. 

Ao se aposentar da construção civil, em 1995, quando tinha 92 anos, Zé do Chalé começou a talhar em madeiras como mulungu, cedro, umburana, pinho, maçaranduba, jaqueira, ingaporca e paraíba. Surgiram esculturas marcadas por formas verticais, geométricas e, por vezes, abstratas, representando elementos simbólicos e figuras indígenas hieráticas, associadas à identidade Xocó, bem como pássaros, folhas, cruzes, estrelas, luas e estruturas que remetem a igrejas, casas ou construções.

O trabalho chamou a atenção da cena artística e fez com que, em 2005, Zé do Chalé fosse incluído no livro “Pequeno Dicionário da Arte do Povo Brasileiro”, da historiadora e crítica de arte Lélia Coelho Frota (1983-2010). 

O marco definitivo de sua carreira foi a exposição “Zé do Chalé: o antigo dono da flecha”, que foi realizada entre novembro de 2007 e janeiro de 2008 no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP), no Rio de Janeiro (RJ).

A Universidade Tiradentes foi uma das apoiadoras da realização da mostra, financiando o traslado das obras para o Rio. Sayonara Viana fez a pesquisa e a produção do catálogo da exposição, além de assinar o texto de apresentação, intitulado “Zé do Chalé: um século em busca do que é seu”. 

“Imagine um homem com 104 anos começar a mostrar o seu trabalho, que só começou mesmo aos 92. Inclusive, na abertura da exposição no Rio, ele não pode ir por questões de saúde, pois já estava um pouco frágil. Foi o filho Zacarias que representou ele lá na abertura, e eu também estava presente.

Mas foi muito importante que esse reconhecimento a ele e a sua obra tenha sido dado em vida. O museu de lá foi bastante acolhedor e a exposição foi um sucesso, muito bem frequentada”, lembra ela, ressaltando que a ideia da exposição atual, no Memorial de Sergipe, surgiu a partir do desejo de homenagear o artista e de dar prosseguimento ao apoio dado pela Unit em 2007. 

O legado de Zacarias

Com a morte de Zé do Chalé, em meados de 2008, aos 105 anos, o legado de sua obra artística foi levado adiante pelos filhos, em especial por Zacarias, que aprendeu a trabalhar com madeira dentro do ambiente familiar. A princípio, ele auxiliava na produção das peças, especialmente na fase de acabamento.

Seu trabalho também é feito em madeira, com características mais livres e abstratas, incorporando elementos diversos como animais, astros e referências culturais variadas. 

Sayonara acrescenta que Zacarias foi criando aos poucos sua própria linguagem artística e ampliando o repertório do pai em suas obras, explorando formas mais abstratas e incorporando representações da fauna, do cosmos e de referências culturais diversas, mas mantendo o vínculo com a tradição familiar e com a madeira como suporte principal.

“Zé do Chalé e Zacarias dos Santos representam marcos importantes para as artes plásticas em Sergipe, especialmente no que diz respeito à visibilidade da produção indígena. Essas obras apresentam elementos da cultura Xocó e se sobressaem pela expressividade, pela riqueza simbólica e pela forte relação com a ancestralidade e o território”, diz a diretora, considerando que os trabalhos da exposição reflexões sobre o respeito que deve ser dado ao povo Xocó e aos indígenas em geral.

 “O Memorial de Sergipe também busca ampliar o diálogo com o povo Xocó, reconhecendo sua relevância histórica e cultural”, concluiu.

Serviço 

A exposição “Xocó: Práticas e Saberes de Resistência” permanecerá em cartaz até junho. O Memorial de Sergipe Prof. Jouberto Uchôa fica na Orla da Atalaia, ao lado da Praça de Eventos (Av. Santos Dumont, 100, Coroa do Meio, Aracaju). Ele funciona de terça a sábado, das 10h às 16h. 

Os ingressos podem ser comprados diretamente na recepção ou pelo site https://www.memorialdesergipe.com.br/, que também traz outras informações. Grupos acima de 20 pessoas e instituições devem realizar o agendamento da visita através do Whatsapp (79) 98108-1866 ou do e-mail atendimento@memorialdesergipe.com.br.


Notícias Indicadas

WhatsApp

Entre e receba as notícias do dia

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação