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Aracaju (SE), 25 de maio de 2026
POR: Adriana Meneses dos Santos
Fonte: Adriana Meneses dos Santos
Em: 25/05/2026 às 11:32
Pub.: 25 de maio de 2026

Ansiedade, burnout e pressão: por que a NR-1 pode transformar o ambiente de trabalho :: Por Adriana Meneses dos Santos

*Adriana Meneses dos Santos

Adriana Meneses dos Santos, Psicóloga (CRP 19/4184), Jornalista e Pesquisadora - Foto: Arquivo Pessoal

Durante muitos anos, a saúde e a segurança do trabalhador foram associadas principalmente a acidentes físicos: quedas, máquinas sem proteção, ruídos excessivos ou exposição a agentes químicos. 

Porém, algo mudou silenciosamente dentro das empresas. O sofrimento psicológico, a ansiedade, o estresse crônico, a depressão e a síndrome de burnout passaram a ocupar espaço crescente nas estatísticas e na vida de milhões de trabalhadores brasileiros. 

O que antes era tratado como fragilidade individual ou problema pessoal passou a exigir um olhar institucional. E é justamente nesse cenário que a implementação da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) ganha destaque. A atualização da NR-1 entra em vigor em 26 de maio e amplia a responsabilidade das empresas sobre risco à saúde mental.

A atualização da NR-1 estabelece que as empresas precisam incluir os chamados riscos psicossociais dentro do Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR). Em outras palavras, fatores como excesso de carga de trabalho, assédio moral, pressão excessiva, conflitos interpessoais, jornadas exaustivas e ambientes organizacionais tóxicos passam a ser considerados elementos que podem provocar adoecimento e, portanto, devem ser identificados, avaliados e prevenidos pelas organizações. 

A mudança surge em um momento delicado para o país. Os números mostram que o sofrimento mental relacionado ao trabalho deixou de ser um episódio isolado para se transformar em uma questão de saúde pública. 

Dados do Ministério da Previdência Social mostram que, somente em 2024, aproximadamente 472 mil trabalhadores foram afastados por transtornos mentais, número que representou um crescimento de 68% em relação ao ano anterior. 

A escalada continuou. Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil benefícios concedidos por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Ansiedade e episódios depressivos aparecem entre as principais causas de afastamento.
 
Mas o que está por trás desses números? Psicologicamente, o adoecimento no trabalho raramente acontece de forma abrupta. Ele costuma ser um processo gradual. Um trabalhador submetido constantemente a cobranças excessivas, metas inalcançáveis, falta de reconhecimento ou ambientes hostis tende a entrar em estado contínuo de alerta. 

O organismo passa a operar como se estivesse enfrentando um perigo permanente. A curto prazo, surgem sintomas como irritabilidade, alterações no sono, dificuldade de concentração e cansaço extremo. A longo prazo, o corpo e a mente começam a dar sinais mais severos: crises de ansiedade, depressão, burnout e até manifestações físicas como dores crônicas, hipertensão e problemas gastrointestinais.

É comum ouvir trabalhadores afirmando que "não conseguem desligar a mente" mesmo após o expediente. Outros relatam culpa por descansar ou sensação constante de insuficiência. 

Muitos continuam trabalhando mesmo adoecidos, numa tentativa de demonstrar produtividade ou evitar julgamentos. Esse comportamento, conhecido como presenteísmo, ocorre quando a pessoa está fisicamente presente, mas emocionalmente e cognitivamente exausta.

Embora o impacto sobre o trabalhador seja evidente, o adoecimento mental também atinge diretamente o empregador. Empresas enfrentam aumento de afastamentos, crescimento do absenteísmo, alta rotatividade, queda na produtividade, aumento de custos médicos e perda de talentos. 

Além disso, ambientes organizacionais adoecidos podem gerar processos trabalhistas, danos à imagem institucional e dificuldade para retenção de profissionais qualificados.

Por isso, a NR-1 não surge apenas como uma obrigação burocrática. Ela representa uma tentativa de mudança cultural. A proposta não é transformar empresas em clínicas psicológicas, mas reconhecer que a forma como o trabalho é organizado pode produzir adoecimento.

No entanto, a implementação da norma ainda vem cercada por dúvidas e desinformação. Entre os principais mitos está a ideia de que qualquer trabalhador emocionalmente fragilizado poderá responsabilizar automaticamente a empresa por sua condição psicológica. Isso não é verdade. 

A NR-1 não presume culpa automática do empregador. O que ela exige é a identificação e gestão preventiva de fatores de risco existentes no ambiente de trabalho.
Também existe o mito de que saúde mental é assunto da vida pessoal e não do ambiente corporativo. Essa talvez seja uma das crenças mais perigosas. 

O trabalho ocupa grande parte da vida adulta e influencia diretamente autoestima, relações sociais, identidade e qualidade de vida. Ignorar essa relação significa fechar os olhos para uma realidade já comprovada por dados científicos.

Quanto à fiscalização, a expectativa é que ela aconteça por meio da análise documental e da verificação prática das ações implementadas pelas empresas. O Ministério do Trabalho deverá avaliar se os riscos psicossociais foram incluídos no Programa de Gerenciamento de Riscos, se existem registros das avaliações realizadas e quais medidas preventivas foram adotadas. 

A lógica deixa de ser apenas reativa -agir depois do problema - e passa a exigir ações preventivas e contínuas. Mas talvez a maior transformação proposta pela NR-1 esteja além das multas ou da fiscalização. Ela traz uma mudança simbólica importante: a autorização social para falar sobre saúde mental dentro das empresas.

Por muito tempo, sofrimento psicológico foi tratado como sinônimo de fraqueza, falta de competência ou incapacidade profissional. Muitos trabalhadores aprenderam a esconder sintomas por medo de perder oportunidades, serem julgados ou vistos como menos produtivos. O silêncio se tornou estratégia de sobrevivência.

Talvez a principal contribuição dessa nova discussão seja justamente romper essa lógica. Porque ambientes saudáveis não são aqueles onde ninguém adoece. São aqueles onde as pessoas podem reconhecer limites, buscar apoio e trabalhar sem que sua saúde seja o preço pago pela produtividade.

Os números mostram que o Brasil está adoecendo no trabalho. A NR-1 talvez seja apenas o início de uma conversa que já deveria ter começado há muito tempo. E, neste caso, falar sobre saúde mental deixou de ser apenas uma questão de cuidado. Tornou-se também uma necessidade urgente de gestão, responsabilidade social e humanidade.


*Psicóloga (CRP 19/4184), Jornalista e Pesquisadora

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