Bem-vindos à era da "alcoolina": a gasolina sem vergonha :: Por Marcio Rocha
Marcio Rocha*
O brasileiro acordou esta semana com uma novidade histórica. Não, o país não descobriu uma nova fonte de petróleo. Não desenvolveu um combustível revolucionário. Também não encontrou uma tecnologia capaz de aumentar a eficiência dos motores.
A solução encontrada foi muito mais simples. Resolveram colocar ainda mais álcool na gasolina e convencer a população de que isso representa um avanço.
Parabéns, brasileiros! Entramos oficialmente na era da gasolina gourmet, ou gasolol, ou alcoolina, ou etalina, ou gasosa Frankenstein. Tudo isso porque temos apenas agora a gasolina diluída ainda mais, por um mero decreto.
Escolha o nome que preferir, porque gasolina mesmo ela está deixando de ser.
A decisão de elevar a mistura obrigatória para 32% é apresentada como modernização. O discurso é bonito. Sustentabilidade, independência energética, economia para o consumidor. Tudo muito elegante na coletiva de imprensa.
Só existe um pequeno inconveniente: A física.
Ela continua afirmando que o etanol possui menor densidade energética que a gasolina. Traduzindo para quem paga IPVA, seguro e financiamento: o carro roda menos com o mesmo tanque. Ou seja, a conta que Brasília faz termina exatamente onde começa a conta do motorista. O governo comemora alguns centavos de redução no litro. O consumidor percebe que está abastecendo uma vez a mais no mês. E ainda deve considerar o desgaste das peças dos motores à gasolina, que não suportam essa mistura empurrada na tora.
Quem ganhou? O posto, a distribuidora, o agente arrecadador de impostos, as refinarias, as usinas. A matemática é cruel: Se um carro fazia 12 quilômetros por litro e passa a fazer menos, pouco importa o preço estampado na bomba. O custo por quilômetro aumenta, o tempo perdido aumenta, a frequência de abastecimento aumenta. E ainda tem o custo de manutenção que eleva com a depreciação mais rápida dos componentes dos motores.
Mas isso não aparece na propaganda oficial. A verdade é que a gasolina brasileira virou um laboratório permanente de experiências governamentais. Quando o petróleo sobe, aumenta-se o etanol. Quando o dólar aperta, aumenta-se o etanol. Quando é preciso atender interesses do setor sucroenergético, aumenta-se o etanol.
A solução é sempre a mesma: Nunca se pergunta ao consumidor, nunca se pergunta ao engenheiro, nunca se pergunta ao mecânico. Apenas se publica um decreto. E lá vai o motorista descobrir, na prática, se seu carro gostou da novidade. O mais curioso é observar que o governo parece não perceber a ironia da própria política.
Enquanto tenta manter vivo o motor a combustão à força de misturas cada vez maiores, entrega gratuitamente o melhor argumento possível às montadoras de veículos elétricos.
Cada litro de alcoolina vendido ajuda um consumidor a fazer contas. Cada tanque que rende menos aproxima alguém da tomada. Cada abastecimento extra transforma um curioso em potencial comprador de um elétrico. É quase uma campanha institucional involuntária.
Quem já dirige um carro elétrico olha toda essa discussão com um certo espanto. Não precisa saber qual é a mistura da semana, não acompanha o preço do barril, não torce para a gasolina render, não anda tirando o pé e colocando na banguela a cada 200 metros percorridos, não faz contas sobre autonomia perdida porque alguém decidiu alterar a composição do combustível.
Enquanto isso, o motorista da combustão vive refém de uma gasolina que muda de receita como quem muda de slogan de campanha.
Talvez este seja o maior símbolo do atraso da política energética brasileira, por fim. O mundo investe bilhões para abandonar gradualmente os combustíveis fósseis. O Brasil responde... colocando mais álcool na gasolina. Não porque tenha desenvolvido uma tecnologia disruptiva, mas porque diluir o problema parece mais fácil do que resolvê-lo.
No fim, resta uma pergunta que nenhum porta-voz do governo respondeu. Se a gasolina continua sendo um combustível tão extraordinário, por que ela precisa conter cada vez menos gasolina para continuar existindo?
Ou, dito de outra forma:
Se continuar nesse ritmo, em breve será preciso procurar a gasolina... na gasolina.
*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.