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Aracaju (SE), 17 de julho de 2026
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 17/07/2026 às 15:38
Pub.: 17 de julho de 2026

Trump não é bobo, mas age como um :: Por Marcio Rocha

Marcio Rocha*

Marcio Rocha - Foto: Arquivo Pessoal

Donald Trump sempre cultivou a imagem de um negociador implacável. Alguém que resolve problemas impondo força, elevando tarifas e fazendo do confronto uma estratégia permanente. O problema é que a economia não funciona como um programa de televisão. Ela responde a incentivos, mercados e interesses. E, nesse terreno, as últimas decisões do presidente americano parecem menos uma demonstração de inteligência econômica e mais um exercício de voluntarismo.

A cruzada contra o Pix talvez seja o exemplo mais curioso dessa miopia.

O sistema brasileiro de pagamentos, criado pelo Banco Central, revolucionou a economia nacional. Reduziu custos, diminuiu a circulação de dinheiro em espécie, combateu a informalidade, acelerou negócios e, principalmente, bancarizou milhões de brasileiros que antes viviam à margem do sistema financeiro.

O detalhe que aparentemente escapou aos estrategistas da Casa Branca é que bancarizar significa abrir mercado. Cada nova conta bancária representa um novo cliente para produtos financeiros. Grande parte desses brasileiros passou a receber cartões emitidos sob bandeiras americanas, especialmente Visa e Mastercard. Ou seja, enquanto o Pix facilitava pagamentos instantâneos, também ampliava o universo de consumidores que utilizam serviços financeiros ligados a empresas dos próprios Estados Unidos.

Em outras palavras, atacar o Pix é, em boa medida, atacar um processo que ajudou a expandir o mercado das gigantes americanas do setor financeiro. É difícil imaginar uma estratégia mais contraditória.

Mas a lista de equívocos não termina aí.

A imposição de uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros também parece ignorar um princípio elementar da economia: tarifas não são pagas pelo país exportador. Quem paga é quem compra. Será que a inteligência minimalista da equipe econômica do governo de lá não percebe isso?

Quando um importador americano desembolsa mais para adquirir café, carne, suco de laranja, açúcar, celulose ou insumos industriais brasileiros, esse custo inevitavelmente será repassado ao consumidor. Não existe mágica tributária. Existe inflação.

É curioso assistir a um governo que promete defender o bolso do cidadão americano enquanto adota medidas que tendem a encarecer justamente aquilo que chega diariamente à mesa das famílias e abastece sua indústria.

Há ainda outro aspecto pouco considerado.

Durante décadas, acreditou-se que vender aos Estados Unidos era uma necessidade absoluta para qualquer país exportador. Esse mundo ficou para trás. Hoje, o comércio internacional é muito mais diversificado. O Brasil possui relações consolidadas com a China, União Europeia, Oriente Médio, Sudeste Asiático, Índia e dezenas de outros mercados em expansão.

Perder espaço nos Estados Unidos nunca seria desejável. Mas também está longe de representar uma sentença econômica. Mercados se reorganizam. Cadeias produtivas se adaptam. Novos compradores surgem. O comércio internacional não admite espaços vazios por muito tempo.

Enquanto isso, os Estados Unidos continuarão precisando importar alimentos, matérias-primas e insumos que nem sempre conseguem produzir com competitividade suficiente para atender sua própria demanda.

No fim das contas, Trump parece acreditar que o tamanho da economia americana lhe permite ignorar as regras básicas do comércio internacional. Não permite.

A economia global do século XXI é construída sobre interdependência, não sobre intimidação. Países fortes negociam. Países inteligentes criam vantagens competitivas. Países eficientes investem em inovação. Tarifas podem até produzir manchetes. Prosperidade, não.

Há uma ironia difícil de esconder em toda essa história. Na tentativa de atingir o Brasil, Washington corre o risco de reduzir oportunidades para empresas americanas, pressionar a inflação doméstica e acelerar exatamente aquilo que pretende evitar: a diversificação das relações comerciais brasileiras e a busca por alternativas ao mercado norte-americano.

Para quem construiu a própria carreira dizendo entender de negócios, trata-se de uma decisão curiosamente ruim.

Na economia existe uma velha máxima: quando alguém dispara sem olhar para onde aponta a arma, há uma boa chance de descobrir, tarde demais, que o alvo era o próprio pé.

*Jornalista formado pela UNIT, radialista formado pela UFS e economista formado pela Estácio, especialista em jornalismo econômico e empresarial, especialista em Empreendedorismo pela Universitat de Barcelona, MBA em Assessoria Executiva e MBA em Business Intelligence com experiência de 26 anos na comunicação sergipana, em rádio, impresso, televisão, online e assessoria de imprensa.

Confira AQUI mais artigos de Marcio Rocha.

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