Aracaju (SE), 17 de outubro de 2021
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 18/09/2021 às 09h39
Pub.: 20 de setembro de 2021

Buraco do meio :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


Buraco do Meio completaria seu trigésimo nono aniversário de emancipação política, separado de Monte Belo. Brigas políticas não foram poucas desde os tempos do velho coronel Jacinto Barbosa, adversário do major Belisário da Gameleira, um e outro contumazes ladrões e assassinos, desde que eram crianças de peito, como diziam os mais antigos do lugar.


O prefeito de Buraco do Meio era Messias de Jacinto que, se não era ladrão, e disso ninguém lhe acusava, ao menos formalmente, era metido a brabo, admirador dos modos do delegado Zeca da Palmatória, torturador e desfazedor de lares. Havia também suspeitas de ter o prefeito Messias mandado apagar um crítico severo de sua conduta política, vereador da Baixa Florida, povoado populoso, talvez o mais populoso do Município. Provas, porém, não havia. O adversário-mor do prefeito Messias era Luiz de Maninho, ex-prefeito, que tinha sido preso a mando do juiz anterior, mancomunado com os partidários do prefeito Messias, como alardeavam os contrários. Preso sob acusações diversas, todas relativas a aquisições suspeitas de imóveis, acabou solto por decisão do Tribunal. Os seus cupinchas fizeram alardes, soltaram foguetes, caíram na bebedeira, coisa, aliás, do gosto do ex-prefeito livre do xadrez. Já os seguidores inebriados do prefeito Messias de Jacinto não se conformaram com a soltura de Luiz de Maninho.


Estava para chegar a eleição municipal de 2012. Messias de Jacinto tentaria a reeleição, rodeado por fanáticos que quase o divinizavam. Tinha ele, pois, que buscar meios de alcançar a maioria dos eleitores de Buraco do Meio, alguns dos quais, que tinham lhe apoiado, já debandavam. Luiz de Maninho deveria bater-se nas urnas contra o prefeito que, de forma atabalhoada, resolveu cometer uma série de acusações contra o juiz do momento, Dr. Alípio de Mendonça, acusando-o de lhe desfavorecer e aos seus apaniguados em várias ações judiciais, sentenciando-os de maneira a saltar para fora dos comandos normativos. 


Do outro lado, os vereadores Rildo Conselheiro e Rodolfo Rocha, opositores do prefeito, buscaram as raias da Justiça, para detonar o prefeito, numa CPI aprovada pela maioria dos edis, inclusive com o apoio do vereador situacionista Otílio Amazonas, que, bêbado, assinou o pedido da CPI. Atacado pelo prefeito e pelos seus seguidores, sentiu-se ofendido e não retirou a assinatura. Daí resultou a busca da Justiça para fazer valer a instalação da CPI. Um balaio de gatos era o que era a composição dos mandatários do povo buraquense, uma excrescência inominada. 


O juiz de Monte Belo, de cuja comarca Buraco do Meio era termo, do alto de sua vistosa careca, mais luzidia do que panela de alumínio devidamente areada, fez rolar por terra as derradeiras pretensões judiciais do prefeito Messias de Jacinto. Foi um Deus-nos-acuda. O prefeito cuspiu fogo e arrotou brasa. Pelos cantos, desceu o pau no juiz careca. Depois, passou a falar cobras e lagartos do magistrado a plenos pulmões e no desencampado. Falava ao Deus-dará. E para fazer frente ao juiz, convocou uma “apoteose popular”, como ele mesmo designou, para o dia da emancipação política de Buraco do Meio. Mandou vir gente de todos os povoados. 


A massa popular haveria de cercar o prédio do Fórum, que era anexo à Câmara Municipal. Cercariam Fórum e Parlamento local. Ao amanhecer o dia a cidade estava tomada por partidários de Messias de Jacinto. A cada cinquenta metros, postava-se alguém vendendo churrasquinhos de gato com cerveja ou capetinha. Em eventos que tais, o que não faltavam mesmo eram capetas. De vários tipos. 


A cidade agitou-se. Não poucas pessoas temeram o pior: a invasão do Fórum e da Câmara Municipal, embora fechados estivessem os dois prédios contíguos, por força do feriado municipal, data-mor da comunidade. Ainda assim, o temor era acentuado. Nos dias anteriores, falou-se até em bombas. Ou seja, atentados. Faixas proclamavam a “santidade” de Messias de Jacinto. Outras desfaziam na Justiça: “Abaixo a Justiça”. “Justiça pra ladrão, aqui tem vez não”. “Pra a gente ser feliz, tem que mudar o juiz”.


No fim da manhã, o prefeito Messias de Jacinto compareceu ao local das manifestações. Foram distribuídos “santinhos” seus com acalentados dizeres: “Messias de novo, nos braços do povo”. Campanha antecipada? Previa-se mais buscas pelas raias da Justiça. Ah, o discurso do prefeito foi mítico! “Vou pedir ao Tribunal a remoção desse juiz. Ou o Tribunal muda o juiz, ou a gente muda o Tribunal”. Delírio. A massa convocada urrava: “Apoiado! Apoiado! Apoiado!”. Messias de Jacinto, mais messiânico do que o verdadeiro Messias, o enviado de Deus, acelerou: “Buraco do Meio não vai se render à ditadura desse juiz. Aqui tem homem. Aqui tem macho, que também tem aquilo roxo”. Uma senhora de dentadura postiça viu a perereca saltar-lhe da boca, ao dar um grito, em apoio do celerado discurso. Manequinha de Safira de Tonho Mijão deu um pinote da gota serena que lhe causou uma distensão na perna esquerda. “Aqui, em Buraco do Meio, quem manda sou eu e o povo!”. Àquela altura, Mocinha de Damião Cego já tinha vendido todas as cocadas do tabuleiro, sem dar-se conta de que não tinha recebido nem o valor da metade das cocadas vendidas. Mas, ela estava ali em nome do prefeito Messias, macho que também tinha aquilo roxo. Como um outro prefeito do passado. 


À tarde, a aglomeração foi-se desfazendo, cada qual retornando ao seu canto. Não houve confusões. Enfim, tudo transcorreu na paz que nem todos esperavam. Os pombos voltaram a sobrevoar a praça onde se dera a manifestação. Pousaram. Cataram restos. Encheram a pança. Era o que restava daquela “festa”. 


No dia seguinte, as ruas de Buraco do Meio amanheceram tranquilas. O normal vai-e-vem das pessoas. As mesmas fofocas. O mesmo disse-me-disse. E o careca continuou juiz. “Até quando?”, perguntava Marquinhos das Gameleiras, líder do prefeito, na Câmara Municipal, que, após comer, no almoço, um bom sarapatel apimentado, com feijão mulatinho e farofa de banana-da-terra, sentado na fresca da calçada, despachou dois arrotos e outras coisas menos dizíveis. “Buraco do Meio espera por novidades, até que alguém bufe na farofa”, disse o líder. Ufa!


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação