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Aracaju (SE), 07 de fevereiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 07/11/2025 às 13:45
Pub.: 07 de novembro de 2025

Chico de Maria Preta e Conceição :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Findou o inverno. O riacho do Mulungú ainda despejava boa quantidade de água no rio Sergipe. As terras de massapê estavam bem molhadas. Os capinzais alimentavam o gado. Capim sempre-verde, pangola e gordura. Chico de Maria Preta era gerente de Abdias das Palmeiras, uma das melhores e maiores fazendas de gado da região. Abdias era um homem rico, mas nem parecia ser. Diferente de uns tabacudos que pouco tinham, porém arrotavam muito ter. Uma classe quase média, que se arvorava em classe alta, dentro dos teres e haveres daquelas bandas. 

Ricos mesmo, por ali, eram Abdias e Marcos do Salobro. O resto era um bando de pequenos latifundiários, que se intitulavam “fazendeiros”. Com muito esforço, talvez uns dois ou três se distanciassem um pouco dos demais. Todavia, longe dos donos das Palmeiras e do Salobro. Estes eram proprietários de muitas outras fazendas. Ricos, sim, na medida. 

Chico de Maria Preta andava lá pelos vinte e poucos anos de idade. Desde muito cedo, trabalhava na lida do gado, com o pai, Valdemar de Maria Preta, que morreu de mal súbito, numa tarde de domingo, depois que acordou de um cochilo, na rede da varanda. Um vento brabo lhe atingiu em cheio. Morreu ao tentar levantar-se da rede de longos cadilhos, comprada na feira do Barro Branco.

Valdemar, pai de Chico de Maria Preta, era homem sisudo, vaqueiro desde menino, da família dos Borba, gente de Pernambuco, de tez branca curtida de sol. Maria Preta, mãe de Chico, era negra de formoso rosto, cabelos pretos escorridos, herdados de sua mãe, uma índia baiana sequestrada pelo pai de Maria, um neto de escravizados. Chico nasceu meio barro, meio tijolo, isto é, pardo, que cresceu para tornar-se um guapo da cor de jambo. Jovial, marrento, mas de bom proceder. Juntando uns dinheirinhos, já era possuidor de uma beira de terra, onde cultivava copiosa roça, semeando milho, fava, feijão, mandioca. E tinha até um gadinho de seu. Jovem promissor. 

Eis que Chico de Maria Preta virou o quengo para o lado de Conceição de João Gomes, um dos quase endinheirados da cidade, mas com o nariz empinado como se fosse Abdias das Palmeiras ou Marcos do Salobro. Conceição tinha bons olhos para ele. Sabedor por um filho, que a filha caçula estava na pretensão de Chico, João Gomes danou-se. O mimo de sua casa não chegaria para o bico de quem não a mereceria. “Imagine, dona Conceição, a senhorita casada com um mulatinho, para desgraçar a família. Nunca. Debaixo destas telhas aquele traste não terá guarida. Se a senhorita tiver dado esperança a ele, fique desesperançada. Arranje alguém do seu igual”.

Sentença dura, dada por João Gomes, endividado nos Bancos, como pinto atolado na merda. Todavia, fumava charuto do bom, que dizia ser cubano, e bebia whisky escocês, no Bar Cana, de Edmundo Leite. Eh, classe desgraçada, essa que quer ser rica sem ser!  

O moço marrento, trabalhador, não se fazia de rogado, quando tinha que buscar o que pretendia. Noitinha dessas, antes da hora do jantar, mal e mal o sino da Matriz de São José badalou as Ave-Marias, Chico bateu palmas na porta da casa de João Gomes. Acudiu-lhe Maria Célia, a filha mais velha. “Com sua licença, moça. ‘Seu’ João está”? Voz firme de quem não titubeava na roça ou na cidade. “Pai está, sim. Vou chamar”. O coração do moço não saiu do compasso. Demorou mais de meia hora. Chico, paciente, esperou, até que João Gomes apareceu com cara de boi brabo, fuçando formigueiro. 

O rapaz foi atendido na calçada. Não foi convidado a entrar. “Você, seu cabra, tem algum negócio comigo? Porque, pelo que sei, eu nada tenho com você”. Voz serena, olhos fixos no dono da casa, Chico respondeu: “De negócios a gente não tem nada mesmo, não, ‘seu’ João Gomes. Eu tenho é assunto muito mais importante do que negócios. Eu vim pedir permissão para namorar sua filha Conceição”. Aí, deu a gota serena. João Gomes subiu nos tamancos. Disse mil e um despautérios. Achincalhou Chico de Maria Preta. Como era que um moleque amarronzado daquele se atrevia a pedir sua filha caçula em namoro? Sujeito mais besta! Fosse atrás de alguém do seu calibre, do seu igual, de sua cor. Não haveria de permitir a mistura de leite com café. Não na sua família.

Chico ouviu tudo calado, sem pestanejar. “Seu João Gomes, o senhor está no seu direito de não permitir que eu namore com sua filha, mas não tem o direito de desfazer em um homem que sabe respeitar os outros e, por isso mesmo, espera respeito de qualquer um, do senhor ou de outra pessoa qualquer. E como meu pai me ensinou a não levar desaforo para casa, o que o senhor acabou de dizer fica da sua boca para a sua calçada. Não me faz cócegas”.  

João Gomes, o de boca suja, o rico que nunca foi, começou a espumar feito cachorro hidrópico. Segurou-se no portal esquerdo. Foi arriando o corpo de elefante. Chico o amparou. Colocou a cabeça dele sobre suas pernas. Gritou por socorro. A mulher de João Gomes e as duas filhas o acudiram. O traste se salvou. 

Quanto a Chico de Maria Preta e Conceição de João Gomes, passaram a namorar, poucos meses depois. Coração é terra onde flores inesperadas florescem.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.


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