Aracaju (SE), 20 de junho de 2021
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 08/05/2021 às 23h13
Pub.: 10 de maio de 2021

O sorriso que se foi: Tânia da Cúria :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


O vírus aloprado continua matando, num país de aloprados encastelados nas amarras do poder, mas também de aloprados, que seguem alguns daqueles e, nas ruas e em todos os lugares, esbanjam negacionismo. Uns puxam os outros e todos puxam, ou melhor, disseminam o vírus ou dão asas para que ele voe, livre, leve e solto por aí. 


No dia em que o Brasil ultrapassou a deplorável marca de 400 mil mortes pela Covid-19, uma das pessoas que partiu foi a minha amiga Tânia. Ora quem foi Tânia, que assim partiu, engrossando a fila negra de mais de 400 mil brasileiros e brasileiras abatidos pela doença, que zomba do mundo inteiro? 


O que eu poderia dizer sobre essa Tânia? Que ela foi órfã, criada, em certo período de sua infância, num orfanato? Quantas histórias ela me contou, desse período de sua vida! Que ela foi cria do Bairro Industrial? Que fez morada no Marcos Freire? Que voltou ao seu antigo Bairro? Que se tornou uma profissional exemplar, por onde passou? Que tinha esposo, filhas e netos, além de outros familiares? Que, na Cúria Metropolitana, passou por poucas e boas? Que, como disse o padre José Almi Menezes, foi valorizada, como secretária, pelo atual arcebispo de Aracaju? Essa citada valorização ainda foi pouco pelo seu zelo profissional, pela sua dedicação, pela sua camaradagem para com todos que a procuravam na Cúria Metropolitana. Quem foi essa Tânia da Cúria? Uma esposa cuidadosa com o marido, até mesmo com os peixinhos que ele pescava, como eu curtia dizer-lhe? Uma mãe eternamente preocupada com as filhas, esforçando-se, além de suas medidas, pelo bem-estar das mesmas? Uma avó mais do que coruja com netos e netas, que ela dizia serem “os caducos da vovó”? A secretária da Cúria Metropolitana de Aracaju sempre pronta a ajudar a quem dela precisava de uma orientação sobre a documentação eclesiástica e muito mais? 


O que eu poderia dizer sobre Tânia, na noite em que escrevi essa crônica tosca em sua memória? Noite de 29 de abril, data de seu silêncio absoluto e de quando o país chorou suas mais de 400 mil vidas ceifadas. Quando pensei em escrever, pareceu-me tão fácil fazê-lo. Triste ilusão. Nem sempre é fácil reverenciar uma pessoa amiga. Amiga, sim. No dia em que ela foi ao hospital, para se internar, eu, antes, liguei para ela. Respondeu-me com voz ofegante. Disse-lhe: “Tânia, vá depressa ao hospital. Você não está bem!”. Temi por ela, não nego. Fiquei apreensivo. A cada dia, pelas notícias que a filha mandava, a minha apreensão aumentava. Orei. Deus não teria ouvido as preces, muitas, que tantos por ela fizeram? Deus ouviu, sim. E por que a levou? Ora, Deus não leva. Nós vamos. E o que nos faz ir tem causas diversas. No caso da pandemia, são muitas causas. Dentre elas, o descaso ou o despreparo de muitas autoridades, que não deram ao povo brasileiro os meios adequados para conter o vírus. De outro lado, como dito antes, a teimosia de muitas pessoas, que fazem pouco caso da situação. Contaminam-se e contaminam. 


Volto a Tânia. Ela se tornou extremamente capacitada no que fazia. Era a locomotiva da Cúria, em termos de documentação eclesiástica. Quando preciso, não lhe faltava uma palavra de conforto ou de advertência até mesmo para nós padres ou para o arcebispo. Tânia era o que em minha terra se diz: “uma casa cheia”. Nunca cheia de si. Cheia de vida, cheia de sorrisos, cheia de ternura. Não que ela não tivesse seus defeitos. Quem não os tem? 


A minha empatia por Tânia foi de imediato. E vice-versa. Como eu mexia com ela! Como adorava curtir com a Tânia de Beto (o seu marido)! Ela morria de rir com as minhas presepadas. Dizia: “Padre Zé, tenha juízo!”. E caía na gargalhada. Cadê, você Tânia? Em qual canto da Cúria você deixou entocado o seu sorriso? Como não mais o ter? A sua sala foi, na segunda metade da década de 1970 para o início da década de 1980, a sala do TLC – Treinamento de Liderança Cristã –, que era uma espécie de “cursilho” para jovens e do qual eu fiz parte da coordenação, entre abril de 1976 e maio de 1982, já advogado. Como eu gostava de estar naquela sala, para rememorar os anos frutuosos para a juventude católica da nossa Arquidiocese, contando, na capital e no interior, com quarenta e um grupos de jovens ativos, em Paróquias e Colégios! E, sobretudo, como era bom discorrer sobre assuntos sérios, que, por vezes, nos angustiava, a mim e a ela! Nem sempre as coisas andavam como nós dois desejávamos. Quantas inquietações nós tivemos! Quantas contrariedades com certas situações, nós dividíamos! 


E agora? Depois que, na sala de espera do cardiologista, por volta das 09:30 horas daquela manhã de 29 de abril passado, eu liguei o celular e lá estava a notícia que eu não esperava receber. Triste! Muito triste! Um dia terrível... Por volta das 13:00 horas, fui ao velório. Não suportei. Disfarcei, fazendo de conta que estava falando ao telefone com alguém. Desci. Fui embora. Eu não poderia contemplar um esquife onde estava lacrado o sorriso da minha amiga, da colaboradora eficiente com seus cabelos encaracolados, que eu, jocosamente, dizia ser feitos de pavios de candeeiro, ao que ela respondia, sorrindo: “Toma jeito, padre Zé”. 


Celebrei a Missa daquela noite, evocando o nome de Tânia. Pesou-me muito proferir o seu nome. Engasguei. Tarde da noite, escrevendo essas toscas palavras, ou parte delas, vi-me chorando. 


Somente a fé no Cristo Ressuscitado é capaz de nos manter firmes diante da morte de quem nós amamos, familiares ou amigos. A certeza do encontro com o Pai nos conforta, mas não nos impede de derramar lágrimas, de sentir, de sofrer. Aprendi, em 1977, numa aula de Filosofia, que o absurdo da morte não é a morte em si, mas a separação. A dor da separação é inevitável, porque toda separação dói. Foram palavras do meu professor, padre Gilson Garcia de Melo, que também já se foi para os altares celestes.


Um dia após o passamento de Tânia, eu recebi esta mensagem de sua filha: “Pe. Zé Lima, a minha gratidão a ti pelo enorme carinho a minha mãe. Obrigada por arrancar sorrisos e boas gargalhadas dela”. O sorriso se foi. Tânia deixou sua marca em cada um (a) que com ela viveu e soube compreendê-la, respeitá-la e amá-la. Cada um (a) ao seu modo. 


Esteja, Tânia da Cúria, Tânia Maria dos Santos, na paz do Criador. Em nossas vidas, você nunca haverá de ser uma nuvem passageira.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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