08 de agosto de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

A falta do meu pai, na nossa mesa :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Sérgio Bittencourt compôs a belíssima canção “Naquela Mesa” em homenagem ao seu pai, então falecido, o extraordinário bandolinista, Jacob do Bandolim. Disse Sérgio: “naquela mesa está faltando ele / e a saudade dele está doendo em mim”. Saudade que dói. E que dói demais. Eu jamais consigo segurar as lágrimas quando ouço essa música. Lembro-me, claro, do senhor, meu pai. Rude, de ínfimas letras, farrista, trabalhador, marchante, um dos melhores feitores de carne de sol da nossa terra. Respeitado no fazer dos talhos precisos ao retalhar a carne, com a exata profundidade para que o sal penetrasse no nível certo: nem tanto para salgar demais, nem tão pouco para que viesse a apodrecer. Eu ainda me lembro da sua ligeireza com a faca na mão, retalhando cada manta de carne. Que agilidade! E que precisão!


Como eu lembro meu pai, das tardes de sábado, quando o senhor expunha as mantas de carne ao sol, sobre grossos varais, a fim de besuntá-las com o tutano derretido, tirado dos mocotós dos bois, que mamãe trazia numa tigela de estanho. Era para dar gosto e cor. Das mantas de carne eram tiradas as pelancas e só depois elas recebiam o tutano. Ficavam por algum tempo expostas ao sol, para enxugar. Daí advém a expressão carne de sol, e não carne do sol, como alguns restaurantes desavisados expõem em seus cardápios. Ninguém come um pedaço do sol, para ser carne do sol.


Mas, tornando ao senhor, pai, como eu poderei esquecer a ansiedade que me invadia no começo das tardes de domingo, quando eu esperava pelo malcasado, pelas balas de leite e pelas bolachas secas que o senhor trazia de Muribeca? Desde cedo, após tomar banho e vestir a camisa e o calção de tecido barato como nós, os pobres do subúrbio, vestíamos, eu me postava na cancela do sítio onde morávamos e onde tínhamos curral de abate e salgadeira. Ficava à sombra da sucupira. E como eu gostava, nos meus 4 a 5 anos, de ouvir o senhor ler os livros de poesia de cordel, tomados de empréstimo a Dudúa (D. Júlia de “seu” Antônio Miúdo), que morava em frente à nossa casa! Naquele tempo, o senhor, pai, e outros parentes, irmãos e primos, todos eles marchantes, viajavam em tropa de burros, para a feira de Muribeca. Viajar em caminhão veio depois. E foi exatamente num caminhão que o senhor quebrou as duas pernas, em 29 de março de 1964. Quanta agonia lá em casa! Noventa dias na cama. E minha mãe e meu tio trabalhando para prover a casa. Os seus fregueses não ficaram sem carne de sol.



Aos 45 anos de idade, a 9 de março de 1979, o senhor, que não estava doente, não levantou da cama, naquela manhã. Infarto fulminante. Partiu tão cedo. E a minha formatura em Direito, um ano depois, que o senhor tanto acalentou, não pôde ver, pai. E como o senhor não estava lá, eu fiz questão de não tirar nenhuma fotografia daquele momento com o qual eu tanto sonhei e tanto lutei para alcançar. Quantas dificuldades para ter chegado ali! E os meus livros, que o senhor não leu? O senhor queria tanto que eu escrevesse livros... A vida nem sempre segue o rumo que nós gostaríamos que seguisse. Ela tem os seus próprios caminhos.


Mais uma vez, a trigésima sexta, eu passarei o Dia dos Pais, sem o senhor, meu pai, que se estivesse aqui, estaria prestes a completar 82 anos (25/10). Porém, como o senhor não está aqui, em seu nome, pai, eu abraço cada filho que ainda tem o seu respectivo pai. E abraço e acalento aqueles que, como eu, não podem mais abraçar, neste fim de semana, os seus próprios pais. E abraço, sobretudo, os pais, que serão abraçados pelos seus filhos. E oro por todos: pelo senhor, pai, pelos outros pais, que deixaram os seus filhos envoltos em lágrimas, e pelos que ainda estão por aqui, sorrindo ao lado dos seus filhos e netos. É verdade que a morte é apenas a passagem para a vida eterna. Nisso eu creio. Todavia, há o desenlace. Há uma partida. Tão doída! O absurdo da morte, disse-me um professor de Teologia, não é a morte em si mesma, mas, sim, a partida do ente querido. Toda partida, definitiva ou não, dói. É a dor da separação...


Eu não tive a graça, pai, de vê-lo envelhecer. De contemplar a sua face enrugada. De alisar os seus cabelos brancos, como os meus estão agora. De continuar comendo o “resto” da carne com farinha, que o senhor trazia nos dias em que ia à Caiçara, a sua pequena propriedade rural, que eu ainda mantenho. O senhor trazia para mim, porque eu gostava de lombo velho de frigideira, frio e lambuzado de farinha. E quando D. Morenita fazia cocada e colocava a “folha” de alumínio sobre o balcão da bodega, quentinha e mole, os bolachões da padaria de “seu” Nita chegavam à bodega, no meio da tarde, e o senhor, se por lá estivesse, mandava me chamar. Bolachão com cocada mole! Um maná dos céus, no meu tempo de menino. O senhor sabia que eu tanto gostava daquela mistura. Tudo passa. Tudo isso, e muito mais, passou, pai. Entretanto, eu tenho a graça, dada por Deus, de não me esquecer do senhor. Nunca! Nunca! Nunca!


Meu pai, na nossa mesa está faltando o senhor. E isso dói. Tantos anos depois, pai, ainda dói muito. Repito o que diz Sérgio Bittencourt: “Naquela mesa ele sentava sempre / E me dizia sempre o que é viver melhor / Naquela mesa ele contava histórias / Que hoje na memória eu guardo e sei de cor / Naquela mesa ele juntava a gente / E contava contente o que fez de manhã / E nos seus olhos era tanto brilho / Que mais que seu filho / Eu fiquei seu fã // Eu não sabia que doía tanto / Uma mesa num canto, uma casa e um jardim / Se eu soubesse o quanto dói a vida / Essa dor tão doída não doía assim / Agora resta uma mesa na sala /E hoje ninguém mais fala do seu bandolim // Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim / Naquela mesa tá faltando ele / E a saudade dele tá doendo em mim”.  


Eu, que acredito que a vida ultrapassa a morte, e que “o Senhor é a nossa luz e a nossa salvação” (Sl 27,1), peço: continue olhando por mim, pai, com aquele seu olhar duro e terno ao mesmo tempo. Que as lágrimas que agora rolam pelo meu rosto, ao finalizar este texto, sirvam para lavar a minha dor pela sua ausência, papai. Era assim que eu lhe chamava: PAPAI. Sempre.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição 09 e 10 de agosto de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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