10 de dezembro de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 07/12/2018 às 23h14

ALMA PENADA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

A Praça João do Capucho tinha forma triangular. Rodeavam-na vinte e um eucaliptos frondosos, plantados pela Municipalidade há mais de quarenta anos. Acima da praça, um tiquinho, ficava a casa de Julião de Zé de Jonas, pai de Paulo de Julião, adolescente meio rueiro, que, às vezes, varava a noite em longas conversas com os amigos na Praça da Matriz. Era um bom rapaz, estudioso e trabalhador, que ajudava o pai na solta de gado, no Engenho de Baixo. O fato de ser meio rueiro não dizia nada. Era por causa dos encontros com os colegas do Ginásio Padre Cabral, para falarem dos namoricos, dos filmes de bangue-bangue ou de espadachim etc., a que assistiam no velho Cine São José. Nada demais. Era no tempo em que violência exacerbada e drogas, por exemplo, não faziam morada em Capão Redondo, cidade em franco progresso depois que a estrada de rodagem foi asfaltada, passando nas costas do arruado. Corriam os meados dos anos 1970.


Numa noite fresca, prenúncios do inverno, a lua cheia reinando no céu estrelado, que mais parecia um bordado de pipocas cintilantes, Paulo de Julião demorou-se além da conta, ou seja, da hora que deveria chegar em casa, pois Julião tinha hora marcada para tudo, até para o filho chegar em casa, à noite, depois das sessões de cinema, do momento dançante, no Hi-Fi do Clube Eldorado, dos bate-papos com os colegas, dos espetáculos circenses ou das touradas que aportavam na cidade, quando era o caso. 


Naquela noite, a conversa entre os ginasianos fora demasiadamente acalorada. Política. Eleição municipal à vista. Aqueles alunos do Ginásio Padre Cabral não eram eleitores. Nenhum dos integrantes do grupo de bate-papo de Paulo de Julião tinha dezoito anos. Porém, não eram alheios às questões políticas, locais ou não. O grupo dividia-se entre os pró-americanos e os pró-russos. Então, alguns defendiam o governo militar e outros o combatiam. Entre eles, todavia, reinava a mais absoluta união, exceto no caso de Jorginho de Valter Gordo e Abelardo de Maninho Alfaiate, que, vez ou outra, batiam boca por causa de algumas meninas, que eles disputavam platonicamente, sem que elas lhes dessem bola. Eram, como todo o respeito, os babacas do grupo. 


Paulo de Julião era destemido para qualquer tipo de situação. Disso já tinha dado provas sobejas. Um dia, só para ilustrar, dois marmanjos armados com facas tentaram arrancar a bolsa de Dona Fatinha de Manoel de Juca, mas eis que Paulo, armado com uma retranca de janela, botou os dois para correr. Ao cabo do ocorrido, Dona Fatinha disse: “Este menino é peia. É do tipo que caga no sapato e não mela a meia”. O rapaz era, sim, destemido, menos para as coisas do além. Falasse em situações do outro mundo, do mundo dos mortos, e ele se afrouxava todo. Não tinha quem o fizesse assistir a um filme de terror. Os filmes de Drácula com Christopher Lee? Nem pensar. Olhar a cara de um defunto acomodado no pijama de madeira? Nem em sonho. Num daqueles anos, mais uma vez, rolou a conversa de que um lobisomem andava de corrida pelo Beco de Zuzinha, que era ponto de passagem de Paulo de Julião. Ele passou a encompridar o caminho, mas não atravessou mais o tal beco, ao menos enquanto durou a conversa. Aliás, conversas de corridas de lobisomens eram comuns. E havia até mesmo quem afirmasse que tivera um encontro com tais bichos bebedores de sangue. Contudo, rastro deles, pelos deles extraídos, ou fosse lá o que fosse em termos de provas, ninguém jamais mostrou. Porém, crença era crença, por mais absurda que fosse. 


Uns dias antes daquela noite, tinha falecido uma moça balzaquiana, na esquina do Beco de “seu” Dadá com a Praça João do Capucho. Paulo de Julião demorou-se, como já foi dito, na conversa acalorada com os colegas. Quem deveria ser o candidato a prefeito do atual prefeito, Joãozinho da Flor da Índia? Alguns dos rapazes achavam que quem o prefeito indicasse, ganharia folgadamente a eleição. Outros achavam que a oposição, formada pelos principais fazendeiros do município, tiraria, daquela vez, o poder de mando do prefeito, que contava com três mandatos, intercalados por dois prefeitos por ele indicados. Ao todo, pois, eram vinte anos de mando, somados os cinco mandatos. Joãozinho era do tipo populista, mas que procurava servir os mais pobres. Daí o seu mandonismo na política local. A maioria dos ricos o detestava. 


A conversa foi-se aprofundando. Naquela noite, o grupo contava com nove rapazes. Um deles era sobrinho de Totoinho do Salobro, pretenso candidato a prefeito pela oposição. Os dois grupos políticos da cidade eram da ARENA, o partido governista. O governo dos militares arranjou um jeito de controlar a maioria dos cargos eletivos, em todos os níveis, criando uma situação esdrúxula, que era a sublegenda: ARENA I e ARENA II. Nalguns lugares havia até a terceira sublegenda. Bastava que três grupos obtivessem um número mínimo tal de votos na eleição para a composição do Diretório Municipal. Assim, os militares conseguiam sufocar o partido oposicionista, o MDB, elegendo a maioria esmagadora dos prefeitos do país inteiro. 


Quando Paulo de Julião resolveu ir para casa já passavam alguns minutos da meia-noite. Despediu-se e tomou o rumo do subúrbio onde morava, logo depois da Praça João do Capucho. Atravessou a Rua da Mangueira, a Rua do Melão e a Rua do Xixi. Todas de chão batido. Na confluência do Beco da Cruz do Carira o vento fez um ligeiro redemoinho, levantando poeira e folhas secas. O rapaz assustou-se. Um calafrio tomou-lhe o corpo. Apressou o passo, olhando para trás a cada instante, sinal de medo. Enfim, chegou à Praça dos vinte e um eucaliptos. Alívio. Estava a alguns passos de casa. Ainda assim, não deixava de olhar para trás, como se alguém o estivesse seguindo.  


Ao atravessar a boca do Beco de “seu” Dadá, exatamente na esquina onde se situava a casa da moça há pouco falecida, Paulo de Julião olhou para o oitão da casa. As pernas tremeram. Ele quis gritar, mas o grito ficou preso na garganta. Quis correr, mas as pernas não responderam ao comando do cérebro. Encostada na parede caiada, eis que estava a morta lhe acenando com as duas mãos. Igualzinha como ela era. Ou quase. Vestida com um vestido marrom claro, mas, cadavérica. Ele pôde ver nitidamente o rosto sem cor de gente viva, que a pobre defunta apresentava, pois tinha virado assombração, alma penada. Nenhum sinal de viva alma por ali. Ninguém que lhe pudesse socorrer. E a defunta não parava de lhe acenar. Quantos minutos tinham se passado? Ele não atinava. Sentiu o suor frio, gélido, escorrendo da testa. A defunta lhe acenava com as duas mãos, como se estivesse lhe chamando para os seus braços. Lembrou-se, sabia-se lá como, mas, lembrou-se, de que, um dia, sua prima Gequinha, amiga em vida da defunta, lhe dissera que ela o achava bonito, um pão, como na época se dizia. Naquele instante, ela o chamava. Não deveria ser um bom sinal ser chamado por uma pessoa morta. E ela emitia uns sons de lamento, agudos, arrastados, como se estivesse sofrendo. 


De repente, como se algo tivesse desanuviado seus olhos, na parede caiada do oitão da casa da defunta, Paulo de Julião viu apenas a réstia dos galhos de um eucalipto balançando-se, naquela noite de lua cheia. E ele ouviu o sussurro do vento nas galhadas. Nada mais.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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