14 de outubro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 13/10/2017 às 21h08

Arte, sim. Mas, com respeito :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


Queermuseu - (Foto: reprodução/Google)

Queermuseu - (Foto: reprodução/Google)

Embora não sendo versado no tema “arte”, eu publiquei no final dos anos 1980, um artigo sobre a exposição do pintor argentino Alberto Carbi, realizada no Rio de Janeiro, onde ele residia. Aliás, à época, eu ensinava, no segundo grau, a disciplina História da Arte. Por necessidade de alguém que a lecionasse. Somente por isso. Todavia, do artigo publicado no jornal Gazeta de Sergipe, foi extraído um texto de algumas linhas que adornou o folder, em francês e espanhol, do referido pintor, indicado pelo Senado da Argentina, para representar o país na grande exposição de 1989, comemorativa do bicentenário da Revolução Francesa, em Paris. Alberto Carbi foi um amigo que eu conheci através do meu compadre Beto, pai do meu afilhado Victor Vilar Gomes, carioca da gema.
    
Por outro lado, lecionei a disciplina Estética Filosófica, no curso de Filosofia, no Seminário Maior Nossa Senhora da Conceição da nossa Arquidiocese. Igualmente, por não ter quem a lecionasse. Posso não entender de arte. Posso não entender de estética sobre a qual tive que estudar. Porém, uma coisa é certa: entendo de bom senso.
    
Nas últimas semanas, parte do Brasil entrou em polvorosa, por conta de uma exposição, a “Queermuseu”, em Porto Alegre, e das performances do artista plástico Antônio Obá, do Distrito Federal. Sobre a exposição, que acabou sendo suspensa pelo Banco Santander, e frustrada no Rio de Janeiro, pelo prefeito Crivela, o mundo dos articulistas de jornais e revistas e de comentaristas televisivos quase desabou. Sentaram a porrada nos grupos que se revoltaram contra a exposição, que apresentava algumas “bizarrices”, como figuras que remetiam à pedofilia, à zoofilia e à pederastia, neste caso, a figura de um negro fazendo felação em um branco e sendo sodomizado por outro branco. Sinceramente, alguém compraria uma “obra de arte” dessa para ornamentar a sala de estar de sua casa? E mais: onde estavam os movimentos que defendem os direitos dos negros, que silenciaram quanto a essa figura “ridícula”? Faço apenas estas duas perguntas. Todavia, vai a uma exposição quem quer ver o que lá está exposto. Acho, apenas, que se deveria ter estabelecido uma idade limite. Quanto a ver bizarrices, que ficasse por conta dos bizarros. Cada um é livre para fazer suas escolhas.
    
Eu jamais vou querer que a liberdade de expressão venha a ser fraturada, quebrada, atirada ao lixo. Ela é uma conquista da democracia. Uma conquista dos princípios que têm levado o mundo ocidental a melhorar o seu rumo. E parte desse melhoramento se deve, quer queiram ou não, ao cristianismo, que, dentre outros feitos, moldou o princípio da isonomia, desde o Evangelho de Jesus Cristo e como tão bem está estampado, inclusive, nos Atos dos Apóstolos. Critiquem o quanto quiserem o cristianismo e, mais de perto, o catolicismo, mas a chamada moral cristã, mesmo com alguns exageros, abriu mais portas do que as fechou. Somente os tresloucados não reconhecem isso.
    
Com relação ao caso do artista Antônio Obá, como o nome já o diz, deve ter uma matriz nos cultos afro-brasileiros. Pelo que procurei ler sobre ele, pode até ser um artista promissor, naquilo que, em parte, apresenta, pois consta entre os finalistas do Prêmio Pipa de 2017, instituído em 2010, pelo Instituto Pipa e pelo MAM do Rio de Janeiro.
    
Todavia, esse Antônio Obá, depois de uma performance tida como profana, ao usar hóstias, numa simulação de “missa negra” (ou preta, com o ele chamou), apresentou-se noutra performance que, sinceramente, também merece o repúdio dos católicos e de quem mais prezar pela dignidade, sendo de qualquer religião, ou não professando religião alguma, mas tendo, ao menos, um mínimo de bom senso. Ele se apresentou nu, cobrindo suas partes pudendas com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, que, para nós católicos, é a Padroeira do Brasil.

José Lima Santana - (Foto de arquivo)

José Lima Santana - (Foto de arquivo)

Muito antes, a imagem de Aparecida foi chutada num programa de TV apresentado por um bispo de uma denominação religiosa protestante. Os protestos foram tantos, que o bispo foi afastado daquela TV. Mais recentemente, um líder de outra denominação protestante comparou a imagem de Aparecida a uma garrafa pet de coca cola. Mais protestos. E o vídeo foi retirado do ar, porém, depois de ter corrido o mundo. São acintes de protestantes contra a fé católica. Todavia, reconheço que ainda há muita animosidade de lado a lado, ou seja, entre católicos e protestantes e vice-versa. O que é, deveras, lamentável. Todos adoram ao mesmo e único Deus. Cada qual ao seu modo. O modo de caminhar de cada um é próprio de cada um, mas o caminho a ser percorrido é o mesmo, a verdade a ser proclamada é a mesma, a vida a ser vivida é a mesma: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida”, disse Jesus Cristo.
    
Voltando ao Antônio Obá, a performance dele com a imagem de Aparecida foi verdadeiramente acintosa. Vergonhosa. Ridícula. Uma aberração. Ele poderia ter usado a figura em gesso de um orixá. Ele não o fez. Poderia ter usado a imagem de Buda. Não o fez. Poderia ter usado qualquer outra imagem ou referência a qualquer religião. Não o fez. Nem deveria jamais. Por respeito aos que professam esta ou aquela religião ou filosofia religiosa, não deveria ter feito uso de nenhuma imagem, figura ou representação de valor religioso. Como não deveria jamais ter usado a imagem de Aparecida, que representa um valor da fé católica. Claro que não é a imagem em si que é um valor da fé católica, mas, sim, a pessoa que a imagem representa, isto é, Maria de Nazaré, a mãe de Jesus, o Unigênito de Deus.
    
O Antônio Obá, como já foi dito, cobriu sua genitália com a imagem de Aparecida. Uma baixaria. Uma canalhice. Depois, ralou a imagem de gesso num ralo, dela fazendo pó, colocando-o numa gamela do tipo usado em ritos do candomblé. Que performance é essa? Que arte é essa? Ele tentou explicar-se. A explicação é chula. Tenho o dever de respeitar a pessoa dele, a sua arte, mas jamais poderei compactuar com a infeliz performance. E sabem por quê? Porque é simplesmente uma agressão ao bom senso e aos católicos. É uma agressão a “princípios coletivos de vida”, para usar uma expressão do filósofo Mário Sérgio Cortella. Para ele, a liberdade de expressão não deve ser cerceada, mas quem se expressa livremente deve arcar com as consequências, quando fere suscetibilidades, quando gera controvérsias, quando, repito, fere “princípios coletivos de vida”.
    
Que a liberdade de expressão, pela qual tanto lutamos, prevaleça. Porém, que prevaleça igualmente o bom senso. O respeito. Que todos possam se respeitar. E que nós, católicos, possamos nos dar ao respeito de exigir respeito à nossa fé e a tudo que a ela também diz respeito.
    
O uso da imagem de Nossa Senhora Aparecida ou de quaisquer outras imagens não significa que nós somos idólatras, como alguns dizem. Não. Idolatria seria abandonar o culto e o temor de Deus por quaisquer ídolos. Nós católicos não fazemos isso. Imagens, para nós, são lembranças de pessoas que deram, em vida, exemplos de amor à Boa Nova de Cristo, à Palavra de Deus. Nisto, Maria de Nazaré é inigualável.
    
O mundo precisa, sim, de tolerância. Mas, isso tem uma mão dupla. Tolerância de todos para com todos.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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