30 de abril de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

“O governador é um frouxo” :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

Frouxo? E botasse frouxo nisso. Mais frouxo do que nó de velha em feixe de lenha mal arrumada, com todo respeito às idosas que, no passado, iam aos matagais em busca de lenha seca para queimar nos velhos fogões de barro ou de alvenaria, para quem podia ter tal luxo na cozinha, nos tempos já distantes.
Alguns correligionários do governador mostravam-se cansados com tanta frouxidão. Era preciso colocar ordem na casa, chamar o feito ao pé do bureau. A velha briga entre os partidários da UDN e do PSD, este aconchegado nos braços do PR, punha quase tudo a perder. Nos governos do PSD a polícia mandou ver para cima dos udenistas. E nos governos da UDN a desforra foi na mesma medida, ou um pouco além. Tempos brabos aqueles. Tempos em que a peia correu solta, em que a politicalha causava insegurança. Tempos em que até muitos magistrados tinham lado político, serviam aos interesses dos chefes políticos locais e estaduais. Dizer o direito eleitoral, por exemplo, não significava interpretar e aplicar a lei na conformidade dos princípios normativos integrantes do ordenamento jurídico vigente. Longe disso. Eleições eram fraudadas pelos dois lados. Famosos, dentre tantos outros, ficaram os casos das urnas de Itabi e da Barra dos Coqueiros. E o que dizer da eleição presidencial de 1956, em Cumbe, na qual o candidato do PSD, JK, não obteve nenhum voto? Uma esculhambação jamais vista em qualquer tempo e lugar. Pois lá estava na velha ata de apuração “zero voto” para Juscelino. E quando os pessedistas reclamaram os udenistas, cinicamente, responderam: “Vocês votaram de forma errada”. E assim mesmo ficou o resultado das urnas. Fraudadas, sim, vergonhosamente.  
Naqueles tempos, um caso houve que fez Belmiro de Josué de Bastião, vereador com três mandatos nas costas exigir uma providência do prefeito junto ao governador do estado. Vereador, prefeito e governador eram alinhados no mesmo partido. Ora, se todos eram do mesmo lado, não tinha porque Belmiro engolir um desaforo daqueles. Um desaforo vindo do sargento Mané Rezende, que era do tipo que parecia viver em cima do muro, mas, que, sem dúvida, formava no lado contrário. Vivia pisando o batente do palácio, mas encostava o cotovelo no parapeito da janela dos adversários do governador. O sargento enchia de folhas as ventas do governador e do prefeito. Porém, as dele, Belmiro de Josué de Bastião, não encheria não.  
O mundo da política tupiniquim era um desmantelo. João de Zezinho de Sá Marina Marimbá dizia que a política dali era igual a uma casa de raparigas. A bem dizer, se era que se podia dizer bem, era um rendez-vous. Palavras duras, mas apropriadas. Pois era justamente uma rapariga, Tita Galega, a causa da revolta do vereador Belmiro de Josué de Bastião contra o sargento Mané Rezende. O vereador andou de caso com a rapariga. Deixou-a para lá. Assim que o sargento chegou à cidade botou-se para Tita Galega. Afinaram-se. Embora Belmiro tivesse acabado de contrair casamento, sentiu-se com dor de corno por causa da amigação da antiga amante com o militar. Não havia cornura maior do que aquele tipo, isto é, quando o sujeito chamava para si pontas que já não cabiam mais. Não tinha o vereador acabado o xodó com Tita? Ela não era uma mulher de vida livre, e, naquele momento, ainda mais livre? O que tinha, então, Belmiro que se sentir corneado, enfeitado por um bom e vistoso par de galhas? Ora, o irmão de Belmiro, Bernardo de Josué de Bastião, dizia sobre a cornura avocada pelo mano vereador: “Corno ele não é, mas quer ser. Então, coce a testa e chore!”.   
O vereador Belmiro de Josué de Bastião exigia do prefeito a transferência do sargento. Fosse ele destacar nos quintos do inferno. De boca em boca, a gozação em cima do vereador ganhou a cidade. A cornura sentida por Belmiro era assunto nos bares do centro da cidade e nas bodegas de ponta de rua. Era um vexame! Mas, ele queria porque queria ver-se livre de tão comentados chifres. O prefeito disse ao vereador que se acalmasse. Não tinha ele acabado o chamego com a rapariga, ao contrair matrimônio? Não deveria ele voltar-se para a mulher e cuidar de sua casa? Que queria ele com Tita Galega e o sargento com quem estava amancebada, livre que era para aquilo? “Tome tento, homem de Deus!”. Todavia, se o sujeito tinha nascido para ser corno, ele haveria de sê-lo mesmo sem o ser. Era uma questão psicológica que, talvez, nem Freud pudesse explicar. O que o prefeito poderia fazer? Qual o argumento que poderia utilizar para pedir ao governador a transferência do sargento? “Não tem que dar explicação nenhuma. É pedir a transferência e pronto”, argumentava o vereador que se sentia chifrado. Nem tudo era simples assim. O sargento era um bom sargento. Era o delegado de polícia comissionado, como naqueles tempos ocorria, dos melhores na resolução de casos e em botar ordem, que na cidade já se tinha visto. O povo gostava do seu trabalho. Roubos de gado, que antes ocorriam, cessaram. Malfazejos de fora que apareciam na cidade deixaram de aparecer. Alguns foram presos e um foi morto em embate com a polícia. A cidade e os povoados respiravam segurança.   
O prefeito prometeu ao vereador que falaria com o governador, assim que fosse à capital. Não demorou muito e o prefeito cumpriu a promessa. Pediu ao chefe do poder executivo estadual a transferência do sargento. O governador não quis saber a razão. Pedido de correligionário era para ser atendido, na medida do possível, na forma da lei. E qual era a forma legal, naqueles tempos? Dizia-se, então, “Aos amigos, tudo; aos inimigos, o rigor da lei”. Máxima que se cumpria à risca. Pronto. O prefeito voltou satisfeito porque pôde atender ao amigo vereador, embora o pleito fosse descabido. Política era política.  
Tudo certo? Nem tanto. O sargento fora transferido para uma cidade bem distante. Alívio para a fantasiosa cornura de Belmiro de Josué de Bastião? Qual nada! O sargento levou a rapariga Tita Galega com ele. O enrabichamento deles parecia ser coisa séria. Mas, o vereador continuava desolado. Ou seja, as supostas pontas doíam-lhe no meio da testa. As pessoas diziam: “Para corno todo castigo é pouco”. Corno que não era corno, mas tinha o gosto de sentir-se assim. Gosto não se discutia. Belmiro de Josué de Bastião seria masoquista? Podia ser.   
Novo pedido do vereador ao prefeito. Era para impedir que o sargento levasse Tita Galega com ele. O prefeito disse que não poderia fazer aquele novo pedido ao governador. As pessoas eram livres para irem e virem. Governador nenhum mandava nos sentimentos das pessoas. Fora do ofício próprio dos militares, o governador não tinha o que fazer com o sargento. Belmiro não se convenceu. Para ele, o governador podia tudo. Era, enfim, o chefe. Era quem mandava no estado. O prefeito argumentou que não era bem assim. E Belmiro soltou uma pérola: “Como é que um governador não pode com uma rapariga? O governador é um frouxo”.   
Na eleição seguinte, o vereador Belmiro de Josué de Bastião mudou de partido.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 30 de abril de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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