05 de março de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Marmotando... :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


O mundo gira. Continua girando. Mas, o mundo ‘desgira’? Eis a questão que Manelito do finado João de Sabino queria saber do tabelião Paulinho de Cotias. O dono do cartório não tinha certeza, porém disse que não. “Ora, Manelito, o mundo gira, mas ‘desgirar’ é uma coisa muito difícil. ‘Desgira’ não. Se ‘desgirasse’, tava todo mundo perdido. A gente ia rodopiar num pé só. No esquerdo. É o que eu acho”. A resposta do tabelião deixou Manelito mais ou menos tranquilo. Mais ou menos. ‘Desgirar’... Seria girar ao contrário. A Terra sairia do eixo? Sairia pelo espaço dando trombada noutros corpos celestes? Ih, chocar-se-ia com a lua? Logo com a lua... Seria o fim do planeta e do satélite, talvez o mais querido das galáxias. Quem, pelo amor de Deus, botaria uma preocupação dessas na cabeça? Só um amalucado, como Manelito? Ah, bom! Amalucado no dizer de certas pessoas. Manelito regulava da cabeça muito bem, obrigado. Só era alvoroçado. E quando botava uma coisa na cuca, ia longe. Léguas e léguas de pensamento. E media-se pensamento por léguas? Na verdade, eu é que devo estar amalucando.
Terça-feira era. Janeiro também. O ano? 1962. Ano de eleições. Novembro estava longe. O irmão de Manelito, que era professor, seria candidato a vereador, em São Paulo. O povo dali dizia que Joãozito era comunista. No Aracaju, a política já estava fervendo. Falava-se em traições ao líder udenista. Gente do seu bloco pularia para o bloco dos rabos-brancos. Imaginem que sacrilégio! Caras-pretas bandeando-se para os eternos adversários. Foi no que deu mesmo. E em São Paulo, naquele mundão, como deveria estar a política? Manelito morou um ano em São Paulo. Não gostou. Arribou de volta. O irmão Joãozito ficou. Estudou. Era professor. Metido em brigas com o governo.
Naquele início de ano, Manelito tinha planos na cachola. Espichado na rede armada sob o telheiro da casa de quatro águas, pitava o cigarro pé duro do fabrico de D. Júlia de Tonho Míudo, que morava nos confins do João Ventura, na estrada do Gonçalão, perto de onde João de Rita derretia sebo. A cada tragada, a fumaça dava voltas em torno da rede, fazia piruetas e sumia no ar. Fumaça de cigarro de fumo de rolo tinha uma serventia formidável: entontecia muriçocas. Afugentava-as. Ali estava Manelito. O irmão seria candidato a vereador na maior cidade do país.  
Um sujeito passou a galope curto, montado num alazão bem fornido e cumprimentou o fumante de rompe peito, como também se chamava um cigarro pé duro. Manelito grunhiu um cumprimento de resposta. Não viu quem era. Nem reconheceu a voz. “Tá! Que se dane!”. Voltou a mergulhar no mais profundo de suas miragens. E ali ficou um tempão, marmotando.
A tarde andava a meio. E meio sonolento estava Manelito. Apenas meio. Afinal, quem marmota mesmo, não dorme. Cochila levemente, mas não dorme. Marmotar não é enfurnar-se num buraco. Não é jiboiar. É ficar no avaluemos. Cismando. Pensamento vindo, pensamento indo. Era como estava o meu convidado de hoje. Chamei-o do fundo do meu baú de memórias, porque ele era mestre na arte de pensar sobre coisas sérias e sobre besteiras também. Eis uma coisa importante: saber pensar sobre as duas facetas da vida. Quem só pensa em coisas sérias, envelhece. Quem só pensa besteiras, emburrece. É preciso, pois, o equilíbrio. Nisso, Manelito era mestre. Mestre Manelito.
Naquela atitude de marmotar, Manelito viu o sol desaquecer, descambar para o poente, enrolar-se numa rede de nuvens matizadas entre o dourado e o avermelhado. Um ventinho noiteiro passou a mãozinha de fantasma na barba grisalha de Manelito. De leve. Ele cofiou o bigode. Tinha planos. Mas a ninguém poderia revelar. Por ora. Deixasse vir o tempo certo. Até ali, o tempo era para marmotar. A boca da noite chegando. Uma ou outra pessoa passando na rua de chão batido, carente de piçarra. Um vira-lata fez xixi no pé de pau que dava sombra farta ao terreiro da frente da casa de Manelito. Dava sombra e folhas. Muitas folhas caiam para dar trabalho a Inacinha, mulher de Manelito, que duas vezes por dia varria o terreiro. Ah! O sociólogo Gilberto Freire, no livro “Nordeste”, disse que, com o passar do tempo, as pessoas foram esquecendo os nomes que os indígenas deram às árvores, passando a denominá-las simples e generalizadamente de pés de pau. Faz sentido. Acho que faz. Aproximou-se do terreiro o velho Cazuzinha. Desceu da velha bicicleta. Aproximou-se do telheiro e da rede do dono da casa. “Como vai, compadre Manelito? Tu tá matutando, remoendo assuntos?”. Ao ouvir o cumprimento, ele sentou-se na rede. “Compadre Cazuzinha, eu tô aqui amoitado, feito uma marmota no buraco, olhando no escuro. O mundo tá muito escuro, compadre. Tudo parece estar escurecendo. E a gente que tem miolos deve marmotar. Pensar, pensar e pensar”. Cazuzinha sorriu. Conhecia muito bem o padrinho do seu filho Augusto, que sob os cuidados do padre Fonsequinha, estava no Seminário, estudando para ser padre também. O pai do futuro vigário estava acostumado com os pensamentos daquele compadre estimado e prestativo. “Compadre, enquanto o senhor tá marmotando, posso lhe pedir um favor?”. “Mas, arrepare! E eu sou home de negar um favor, compadre Cazuzinha? Desembuche, home!”. O outro fez o pedido. Manelito lhe disse que sim. Cazuzinha foi-se embora.
Para Manelito, o mundo estava cheio de sombras. O Brasil estava cheio de sombras. “Num demora e uma coisa muito ruim vai estourar”. Ele ouvia rádio. Sabia das coisas. Pensava que sabia. 1962 meou. Findou. Joãozito elegeu-se. Vereador em São Paulo. As sombras pareciam aumentar. Manelito pressentia. O ano de 1963 trouxe ainda mais sombras. No fim do ano, Manelito voltou a São Paulo. Os negros véus desceram em 1964. Os militares botaram o presidente para correr. A peia correu solta. Dois anos antes, Manelito pensava em como, um dia, poderia socorrer o irmão, que acabaria se metendo em confusão da grossa. Era isso o que ele marmotava naquela tarde de janeiro de 1962. Joãozito era o se único irmão. Caçula. Metido na política de São Paulo. Em brigas para defender os professores. Comunista? Os novos donos do poder acharam que sim. Tomaram o mandato dele. Tentaram prendê-lo. Em bom tempo, Manelito escondeu o irmão junto a uns primos no Mato Grosso. Por lá, ele ficou uns anos. O seu sangue, porém, era agitado, do tipo que fervia nas veias. Retornou a São Paulo, às escondidas. Agitou na clandestinidade. Foi preso. Nunca mais apareceu. Ele tinha mulher e dois filhos. E o sangue bom para a luta. Luta pela democracia, como ele dizia. Foi dado como desaparecido.
Em agosto de 2001, já viúvo e aos oitenta e cinco anos, Manelito recebeu dos sobrinhos a notícia de que os restos mortais do seu único irmão foram localizados. Exame de DNA confirmado. Morto nos porões da ditadura. O afilhado de Manelito, padre Augusto, celebrou uma missa a pedido do padrinho. Na noite da missa e após a missa, Manelito deitou-se na rede, debaixo do telheiro. Chorou muito. Até parecia um bezerro desmamado. Calou-se. Ele morreu naquela noite fria de agosto. Foi marmotar a caminho do céu.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 28 de fevereiro de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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