17 de janeiro de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O ANJO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


– Mamãe, você me ama? –. Indagou a pequerrucha Maria Clara à sua mãe, que estava com a atenção voltada para a novela. Sem resposta, a pequenina de apenas cinco anos, dirigiu-se ao pai: – Papai, você me ama? –. Ora, o pai estava absorto no “zapzap”, passando mensagens para os colegas de escritório. Business. Muitos business. “Puxa, ninguém me dá atenção!”, deve ter pensado a menina. Ou, quem sabe, desolada, deve ter exclamado de si para si mesma: “Ninguém me ama!”. Nunca se sabe o que pensam as crianças. E como elas pensam! Crianças...! Uma dádiva dos céus. Esses “pedacinhos de gente”, como alguns o dizem, de forma, evidentemente carinhosa, mas, até certo ponto, errada. Afinal, são pessoas, e não pedaços de pessoas. Mas, deixemos essa digressão para lá.


O ANJO :: Por José Lima Santana (Foto ilustrativa)

O ANJO :: Por José Lima Santana (Foto ilustrativa)

Sozinha, sem respostas para suas indagações à mãe e ao pai, Maria Clara, não se deu por vencida. Perguntou, então, à boneca “Lindinha”, como ela chamava aquela que dizia ser sua filha. – Lindinha você me ama? –. A resposta deve ter vindo de imediato. Ela abraçou a boneca e exclamou: – Eu sei que você me ama. Eu sei que você me ama –. E danou-se a beijar e a balançar nos braços a boneca. Deu-lhe mil beijos e mil apertos, como somente as mães sabem dar em seus filhos. Maria Clara não se cansava de olhar o rostinho da boneca, ou melhor, de sua filha, repetindo sem cessar: – Você ama a mamãe! Você ama a mamãe! E a mamãe ama você! E a mamãe ama você! –.  


A novela continuou. A mãe de Maria Clara não desviava os olhos da telinha. Capítulos finais. Revelações surpreendentes. Os business prendiam cada vez mais a atenção do pai. As mensagens no “zapzap” iam e vinham. No chão, num dos cantos da grande sala de estar, Maria Clara, agora, dava a comidinha de sua filhinha. Limpou a boquinha dela. Arrumou as coisas. Colocou a filhinha no berçinho azul. Cobriu-a com um lençolzinho igualmente azul de listas brancas. Embalou o berço. E cantarolou: – Dorme Lindinha, que mamãe está aqui! Dorme Lindinha que mamãe está aqui! –. Enfim, Lindinha deve ter adormecido.


O ANJO :: Por José Lima Santana (Foto ilustrativa)

O ANJO :: Por José Lima Santana (Foto ilustrativa)

Maria Clara estava com sono. Levantou-se. Bocejou. Uma vez, duas vezes. Espreguiçou-se. Dirigiu-se à mãe, grudada na novela: – ‘Abença’, mamãe. Eu amo você! –. E beijou-a no rosto. Dirigiu-se ao pai: – ‘Abença’, papai. Eu amo você também! –. E beijou-o no rosto.


Depois, ela foi saindo, sonolenta, quase tombando. Como se diz por aí, “tombando de sono”. Súbito, a mãe e o pai parecem ter se dado conta de que um anjo estava saindo da sala. Os anjos, queiramos ou não, se fazem notar, nem que seja quando eles estão indo embora. Há neles uma luz que se faz notar, mesmo por aquelas pessoas que, em dado momento, parecem estar absortas em suas atividades. É nesse instante que algumas pessoas se dão conta de que deveriam ter ouvido uma mensagem, mas não a ouviram. E as mensagens dos anjos, de todos os anjos, são as mais belas e as mais puras.


Os dois, a mãe e o pai, correram, então, ao mesmo tempo e tomaram, conjuntamente, em seus braços o anjo tombado de sono. – Nós lhe amamos, anjinho de nossas vidas! Nós lhe amamos muito! –. Duas lágrimas escorreram dos olhos da mãe. E a voz embargada do pai parecia pedir perdão ao anjo quase adormecido. Uma auréola de luz pairava sobre a cabecinha daquele anjo.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicação neste site autorizada pelo autor.


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