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Aracaju (SE), 16 de outubro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 16/10/2026 às 15:10
Pub.: 16 de outubro de 2026

Um candidato desqualificado :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Em jogo a presidência. Baixaria. Muita baixaria de lado a lado. “Ladrão”! –  gritava um. “Assassino”! – gritava outro. A campanha virou um inferno. Nas ruas, os defensores dos dois candidatos quase se engalfinhavam. Até as pessoas religiosas, ou que se diziam como tais, bradavam com suas Bíblias, ameaçando, terrorizando. Nunca, antes, em Brasilândia se viu tamanha bagaceira. 

João Tortinho de Julião Cabeça-de-Cuia andejava em sua bicicleta, portando uma bandeira do seu candidato. Escarrava quando encontrava um opositor, soltando no chão uma cusparada do tipo cagada de pato. Quase levou uns tabefes de Pedro Gordinho, amansador de burros brabos, no Chão das Mortes, povoado miúdo, mas de gente disposta. 

Tião Capeta, filho, neto e bisneto de fogueteiros alardeava que tinha vinte dúzias de foguetes de resposta para soltar, no caso de vitória do candidato de sua preferência. “Toco fogo no céu”, ele dizia. Sendo assim, os anjos do Senhor não teriam sossego, acabariam chamuscados. 

A presidência do Clube dos Maridos Traídos, sociedade civil das mais apreciadas em Brasilândia, cidade emancipada do município de Águas Belas, sempre foi muito disputada, desde que Brasilândia ainda era um mísero povoado de pouco mais de cinquenta casas. Ao passo que a Rodovia do Leite cruzou suas cercanias, o povoado foi crescendo, gente chegando, meninos nascendo como bicho-de-ruma. 

O vereador Cachimbinho danou-se a lutar pela emancipação. O prefeito de Águas Belas, em 1958, contrário à emancipação do povoado onde sua avó materna, Maria de Belizário Chupa-Pito, afamada parteira, tinha nascido, arquitetou a morte de Cachimbinho. Tocaia. Homens na escopeta. Um tiro certeiro na caixa dos peitos. O vereador caiu numa poça, que ficou tingida de sangue. Mas, ali por perto vinha uma tropa de aguardenteiros, que transportavam aguardente do alambique Santa Cruz, dos herdeiros do finado João Cospe-Fogo. Os aguardenteiros deram socorro a Cachimbinho, enquanto o capanga do prefeito batia em retirada. 

Que sorte! “Uma providência divina”, como disse Rosinha de Filó, devota de Nossa Senhora Aparecida e tia de Cachimbinho. A bala atingiria o coração do vereador, mas foi interceptada por uma medalha de bronze, que ele carregava no peito, como proteção contra todo mal. Salvou-lhe a vida. 

Vencidas as pelejas políticas, a Assembleia Legislativa deliberou pela emancipação de Brasilândia. Quem foi o seu primeiro prefeito? Cachimbinho. Quanto à tocaia, nunca se provou que foi arte do prefeito Ananias Queixo-Fino, neto da parteira Maria de Belizário Chupa-Pito. As línguas ferinas apontavam para ele. Certeza ninguém parecia ter. 

Lorota demais. O fato que importa mesmo foi a eleição para a presidência do Clube dos Maridos Traídos, cuja denominação não passava de uma brincadeira dos mais destacados consumidores da qualificada aguardente do alambique Santa Cruz. A disputa daquele ano estava por conta de Lucas Barbudinho e Floro Boca-Mole. 

Domingo, dia da Santa Missa, na igrejinha local, cujo padre vinha lutando com rifas e campanhas para a construção de uma Matriz decente para o Padroeiro São Judas Tadeu. Aproximando-se da igreja, vinha ‘seu” Donizete de Salú Cobra-Criada, arrastando a perna esquerda. Defrontou-se com Xisto Pereba, que bem ou mal, fazia as vezes de sacristão. “Ô ‘seu’ Donizete, vosmicê vai votar no seu aparentado Floro”? O velho respondeu, na bucha; “Deuzulive. Aquilo é um desgramado, um desqualificado”. 

Xisto Pereba abotecou os olhos. “Um desqualificado, ‘seu’ Donizete? Como assim”? Donizete de Salú respondeu: “Ora, ‘seu’ Xisto curioso, vosmicê num sabe que, lá pra trás, Floro foi o capanga de Ananias, que meteu bala em Cachimbinho, na confusão da gente se libertar de Águas Belas? Pois foi. Ninguém me disse, prova eu não tenho, mas tenho certeza. E se eu tenho certeza, pra quê prova”?

Xisto Pereba abotecou os olhos mais uma vez. Tinha gente assim, como Donizete de Salú: sem provas, mas com certeza, uma certeza cega. 

Linguarudo, Xisto segredou a fala de Donizete a uns poucos amigos. Um mês antes, Floro era o candidato favorito à presidência do Clube. O zum-zum-zum da certeza cega de Donizete deu com ele ao chão. Perdeu a eleição. Por uma tal certeza sem prova. 

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.

 

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