Sua foto pode virar ferramenta de golpe? Especialista alerta para uso de imagens em fraudes de identidade
Fraudes de identidade cresceram 32,9% no primeiro semestre de 2026, com 2,86 milhões de tentativas registradas no país, o que equivale a uma tentativa a cada 5,5 segundos, reforçando o alerta sobre o uso criminoso de fotos e dados pessoais.
Selfies, fotos de viagens, imagens profissionais e registros publicados nas redes sociais podem parecer informações inofensivas, mas, diante do avanço da inteligência artificial e da sofisticação das fraudes digitais, essas imagens passaram a fazer parte de um novo cenário de risco. Para Natalian Silva, especialista em Gestão de Identidades e Acessos (IAM) da IAM Brasil, fotos disponíveis publicamente podem contribuir para a construção de identidades falsas, engenharia social e tentativas de burlar mecanismos de autenticação.
O alerta ganha força diante do crescimento das fraudes de identidade no Brasil. Dados do Mapa da Fraude da Serasa Experian mostram que 2,86 milhões de tentativas de fraude de identidade foram identificadas no primeiro semestre de 2026, alta de 32,9% em relação ao mesmo período de 2025. O volume equivale a uma tentativa a cada 5,5 segundos e representa um prejuízo potencial estimado em R$ 3,77 bilhões, caso essas investidas não fossem bloqueadas.
Entre as novas estratégias identificadas está o chamado “golpe do sósia”, no qual criminosos utilizam ferramentas de comparação facial para encontrar pessoas fisicamente semelhantes a eles e tentar utilizar essas identidades em processos de validação. A descoberta foi apresentada pela Serasa Experian em setembro de 2026 e mostra que até mesmo tecnologias desenvolvidas para reforçar a segurança podem ser exploradas por fraudadores.
“A imagem é hoje um elemento importante da identidade digital e, por isso, precisa ser tratada como um dado que merece proteção. Uma foto publicada isoladamente talvez não seja suficiente para uma fraude sofisticada, mas, quando combinada com nome, profissão, localização, voz, informações familiares e outros dados disponíveis na internet, pode ajudar o criminoso a construir uma identidade muito mais convincente”, explica Natlian.
A especialista destaca que o problema não está simplesmente em publicar fotos, mas na combinação de informações que permanece disponível publicamente. Uma fotografia pode revelar características físicas, ambientes frequentados, local de trabalho, relações familiares e até padrões de comportamento. Com ferramentas de inteligência artificial, esses elementos podem ser utilizados para produzir conteúdos manipulados ou criar abordagens personalizadas de engenharia social.
O risco também envolve o avanço dos deepfakes. Em julho de 2026, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) publicou um Radar Tecnológico dedicado ao tema, definindo deepfakes como áudios, fotos e vídeos modificados ou artificialmente criados por inteligência artificial generativa com elevado grau de realismo. O estudo analisa justamente os impactos dessa tecnologia para a proteção de dados pessoais e a construção de ambientes digitais seguros.
“Hoje, não estamos falando apenas da possibilidade de alguém copiar uma fotografia e criar um perfil falso. A inteligência artificial permite manipular rostos, produzir imagens sintéticas e combinar diferentes elementos para criar uma representação muito mais realista de uma pessoa. Isso muda a discussão sobre identidade: precisamos deixar de pensar apenas em senha ou biometria e passar a considerar todo o contexto da autenticação”, afirma Natlian.
Os dados mais recentes sobre exposição de informações pessoais reforçam a preocupação. Pesquisa sobre privacidade e proteção de dados pessoais no Brasil, apresentada em agosto de 2026, aponta que 45 milhões de usuários de internet com 16 anos ou mais, o equivalente a 32% desse público, relataram ter sofrido tentativas de golpe envolvendo seus dados pessoais. O levantamento também mostrou que 50% dos entrevistados citaram fotos suas ou de pessoas conhecidas entre os dados considerados no contexto do uso de inteligência artificial generativa.
O uso de fotografias e vídeos disponíveis na internet para a criação de deepfakes reforça que a segurança da identidade digital não pode depender exclusivamente da aparência de uma pessoa. Sistemas baseados apenas na comparação entre uma selfie e a foto de um documento podem ser vulneráveis a imagens manipuladas, vídeos sintéticos e outras técnicas de falsificação.
Por isso, os processos de autenticação devem combinar diferentes camadas de segurança, como prova de vida com capacidade de detectar manipulações, validação da autenticidade do documento, reconhecimento do dispositivo, reputação do endereço IP, localização, comportamento do usuário e análise do contexto da operação. Soluções de autenticação adaptativa podem utilizar esses sinais para calcular o risco de cada tentativa e, conforme o resultado, liberar o acesso, exigir uma verificação adicional ou bloquear a operação.
“Se um criminoso consegue reproduzir digitalmente o rosto de uma pessoa, a autenticação não pode perguntar apenas se aquela imagem se parece com o titular da conta. Ela também precisa avaliar se há uma pessoa real presente, se o dispositivo é confiável, se o comportamento é compatível com o histórico do usuário e se aquela operação faz sentido dentro daquele contexto. Quanto maior o risco, mais rigorosa deve ser a validação”, explica a especialista.
Entre as alternativas de proteção estão a autenticação multifator baseada em risco, o acesso condicional, o uso de passkeys e chaves físicas resistentes a phishing, a vinculação da conta a dispositivos confiáveis, a confirmação adicional de operações sensíveis e o monitoramento contínuo da sessão. A biometria continua sendo um recurso relevante, mas não deve atuar de forma isolada.
Cuidados nas redes sociais
Nas redes sociais, alguns cuidados podem reduzir o volume de informações disponíveis para a criação de deepfakes e para golpes de engenharia social. É recomendável não publicar fotos de documentos, crachás, cartões, passagens, ingressos ou selfies segurando documentos, além de restringir a exposição pública de álbuns extensos com imagens nítidas do rosto e vídeos com voz, especialmente de crianças e familiares.
Também é importante não divulgar localização em tempo real, vínculos familiares e informações frequentemente utilizadas em processos de recuperação de contas. Revisar periodicamente as configurações de privacidade, a lista de seguidores, as publicações antigas e as permissões concedidas a aplicativos ajuda a diminuir a exposição.
Contas de redes sociais e e-mails devem ser protegidas com senhas exclusivas e autenticação multifator, preferencialmente por aplicativo autenticador ou passkey. Além disso, pedidos inesperados de dinheiro, credenciais ou informações confidenciais, mesmo quando realizados por áudio ou vídeo aparentemente legítimo, devem ser confirmados por outro canal ou por meio de uma informação previamente combinada.
“A recomendação não é abandonar as redes sociais, mas administrar de forma mais consciente a exposição digital. Ao mesmo tempo, a responsabilidade não pode ser transferida apenas para o usuário: plataformas e organizações precisam adotar tecnologias capazes de identificar manipulações e impedir que uma imagem convincente seja aceita, sozinha, como prova de identidade”, conclui Natalian.
Sobre a IAM Brasil
A IAM Brasil é uma empresa especializada em Segurança de Identidades, com atuação em IAM, IGA, PAM, AM, CIAM, RBAC, SoD, revisão de acessos, identidades não humanas, contas de serviço, governança de acessos e programas de maturidade em Identity Security. A empresa apoia organizações na estruturação de controles, processos, metodologias e planos estratégicos para reduzir riscos, fortalecer a governança e proteger identidades humanas, privilegiadas, técnicas e não humanas.