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Aracaju (SE), 16 de março de 2026
POR: Laís Marques
Fonte: Asscom Unit
Em: 16/03/2026 às 10:47
Pub.: 16 de março de 2026

Infarto entre jovens cresce e expõe riscos no ambiente do fisiculturismo

Estudos indicam aumento de eventos cardíacos e especialista destaca papel do uso de hormônios e do estresse fisiológico extremo

Danillo Pereira- médico do esporte e professor da Universidade Tiradentes (Unit) - Foto: Arquivo Pessoal

O crescimento de casos de infarto do miocárdio entre pessoas jovens tem despertado atenção da comunidade médica, e parte dessas ocorrências envolve praticantes de musculação intensa e fisiculturistas. O que por muito tempo foi visto como um problema mais comum em indivíduos acima dos 50 anos tem surgido com maior frequência antes dos 40. No Brasil, por exemplo, as internações por infarto entre pessoas com menos de 40 anos passaram de 1,7 caso por 100 mil habitantes no ano 2000 para quase 5 casos por 100 mil em 2022, representando um aumento aproximado de 184%.

Estudos internacionais também indicam que atletas do fisiculturismo podem apresentar maior incidência de morte cardíaca súbita. Uma pesquisa publicada no periódico científico European Heart Journal, que analisou mais de 20 mil fisiculturistas profissionais, registrou 121 mortes no período avaliado, sendo que cerca de 38% tiveram origem em problemas cardíacos. Embora o treinamento de força seja amplamente reconhecido pelos benefícios à saúde cardiovascular, o contexto competitivo do fisiculturismo reúne uma série de fatores que podem ampliar significativamente os riscos ao coração.

Ambiente competitivo

De acordo com o médico do esporte e professor da Universidade Tiradentes (Unit), Danillo Pereira, o aumento do risco cardiovascular observado em alguns fisiculturistas não está necessariamente relacionado à musculação em si, mas ao conjunto de práticas frequentemente presentes no ambiente competitivo da modalidade. Ele explica que o problema envolve a combinação de uso de substâncias, exigências estéticas extremas e elevados níveis de estresse fisiológico.

“Entre os principais fatores estão o uso de esteroides anabolizantes, estimulantes, dietas muito restritivas e níveis elevados de estresse fisiológico. Estudos mostram que fisiculturistas profissionais apresentam maior incidência de hipertensão arterial, hipertrofia cardíaca patológica, dislipidemia e aterosclerose precoce, o que aumenta o risco de eventos cardiovasculares como o infarto. É importante destacar, no entanto, que o treinamento de força realizado de forma natural e supervisionada é considerado cardioprotetor”, afirma.

Entre os pontos que mais preocupam os especialistas está o uso, muitas vezes prolongado, de esteroides anabolizantes androgênicos. Pesquisas científicas indicam que essas substâncias podem provocar alterações importantes no metabolismo e no sistema cardiovascular. O uso de anabolizantes pode reduzir os níveis de HDL (conhecido como “bom colesterol”), elevar o LDL, aumentar a pressão arterial e favorecer o surgimento precoce da aterosclerose, fatores diretamente relacionados ao risco de infarto.

“O uso e o abuso de esteróides anabolizantes provocam mudanças no perfil lipídico, aumento da pressão arterial e remodelação cardíaca. A hipertrofia que ocorre nos músculos esqueléticos também pode ocorrer no músculo cardíaco, criando um desequilíbrio entre a oferta e a demanda de oxigênio e nutrientes. Além disso, há aumento da viscosidade sanguínea e alterações em diferentes sistemas do organismo, inclusive no neuroendócrino e no psiquiátrico, o que pode levar inclusive à dependência química dessas substâncias”, explica.

Coração do atleta

Nem toda alteração cardíaca identificada em atletas representa necessariamente uma doença. Existe uma adaptação fisiológica conhecida como “coração do atleta”, resultado de anos de treinamento intenso. Segundo o médico do esporte, essa adaptação tende a ser benigna quando ocorre em atletas naturais.

“Atletas naturais geralmente apresentam adaptações cardíacas fisiológicas semelhantes às observadas em outros esportes. Isso inclui aumento da massa cardíaca, maior eficiência de bombeamento e melhora da função cardiovascular. O problema surge quando o uso crônico de esteróides entra nesse processo, porque a hipertrofia cardíaca passa a ser desproporcional e pode evoluir para disfunções e maior formação de placas coronarianas”, afirma.

Ele também destaca que o excesso de massa muscular, isoladamente, não é considerado um fator direto de risco para infarto. “Em indivíduos saudáveis, o coração costuma se adaptar bem ao aumento da massa muscular. O risco aparece quando esse ganho está associado ao uso de substâncias hormonais”, relata.

Sinais ignorados

Outro problema frequente entre atletas é a tendência de ignorar sintomas que podem indicar alterações cardiovasculares. Segundo Danillo Pereira, sinais como dor ou pressão no peito durante esforço, falta de ar desproporcional, palpitações, tontura, quase desmaio ou queda inexplicada de desempenho físico são alertas que muitas vezes são interpretados apenas como cansaço decorrente do treino. “Isso é relativamente comum. Muitos atletas acreditam que o desconforto faz parte da rotina de treinamento intenso e acabam adiando a busca por avaliação médica, o que pode atrasar o diagnóstico de problemas cardíacos importantes”, alerta.

Além das substâncias hormonais, fatores relacionados ao estilo de vida também podem elevar o risco cardiovascular em atletas de alto rendimento. Falta de sono, estresse constante e excesso de treinamento, conhecido como overtraining, podem desencadear alterações hormonais e inflamatórias relevantes. “Esses fatores aumentam o cortisol, pioram a resistência à insulina e elevam a pressão arterial. O estresse crônico e o treinamento excessivo hiperestimulam o sistema nervoso simpático e aumentam a inflamação sistêmica, o que impacta diretamente o sistema cardiovascular”, explica o especialista.

Algumas substâncias utilizadas durante as fases de definição muscular também podem agravar esse quadro. “Estimulantes como efedrina e clembuterol podem provocar taquicardia e arritmias, levando a alterações estruturais e funcionais no coração”, acrescenta.

Monitoramento

Para reduzir riscos, o acompanhamento médico periódico é considerado essencial para atletas que praticam musculação em nível avançado. Entre os exames recomendados estão avaliação clínica regular, exames laboratoriais, como perfil lipídico, glicemia, hemograma e marcadores hormonais, além de exames cardíacos, como ecocardiograma com strain e testes ergométricos ou cardiopulmonares. No entanto, o especialista ressalta que resultados normais não garantem segurança absoluta quando há uso de substâncias hormonais. “Os efeitos colaterais podem surgir a curto, médio ou longo prazo, e muitas alterações não aparecem imediatamente nos exames”, ressalta.

Apesar dos riscos associados a determinadas práticas do fisiculturismo, Danillo reforça que a atividade física continua sendo um dos pilares da saúde cardiovascular. “O exercício regular reduz o risco de doenças cardíacas. O problema não é o fisiculturismo em si, mas alguns comportamentos associados ao ambiente competitivo, principalmente o uso recreativo de hormônios”, afirma. Para ele, a estratégia mais eficaz de prevenção é a educação em saúde e a tomada de decisões informadas. “O objetivo não é gerar medo, mas conscientizar. Atletas que recebem orientação adequada e acompanhamento médico conseguem reduzir riscos e proteger a saúde a longo prazo”, finaliza.

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