Desafio encontrado em viveiros de camarão vira sistema criado por estudante do MBA USP/Esalq
Criado a partir de experiências em propriedades do Vale do Jaguaribe, sistema busca reduzir perdas de informação e apoiar decisões na produção de camarões.
A observação de um problema recorrente em fazendas de camarão do Vale do Jaguaribe, no Ceará, levou o estudante Jôsevan Tárcio Silva de Oliveira, do MBA USP/Esalq em Engenharia de Software, a transformar uma dificuldade encontrada no campo em uma solução tecnológica. O projeto deu origem ao MeuViveiro – Gestão de Carcinicultura, sistema web desenvolvido para organizar informações da criação de camarões em viveiros (carcinicultura), reduzir o retrabalho e apoiar a tomada de decisões dos produtores.
O trabalho foi publicado na Revista Estratégias e Soluções. A pesquisa, realizada em parceria com Marcos Jardel Henriques, orientador do projeto, foi validada em dois viveiros comerciais de Litopenaeus vannamei, o camarão-branco-do-Pacífico, espécie predominante na carcinicultura brasileira.
Segundo Jôsevan, a escolha do tema surgiu da proximidade com a realidade produtiva da região. Durante visitas técnicas a propriedades de conhecidos, ele encontrou rotinas baseadas em anotações manuais, planilhas, pranchetas e quadros brancos. Embora esses recursos façam parte do cotidiano de muitas operações, a perda ou dificuldade de acesso aos registros pode comprometer o acompanhamento da produção e exigir a repetição de coletas.
“Durante visitas a viveiros da região, percebi como os registros manuais estavam sujeitos a perdas. Em uma das propriedades, uma folha com dados de biometria foi encontrada na vegetação e, em outra, informações anotadas em um quadro foram apagadas. Foi quando percebi que uma ferramenta digital poderia facilitar a rotina do produtor e evitar a perda dessas informações”, relata Jôsevan.
O MeuViveiro foi projetado para centralizar diferentes etapas da operação. A plataforma permite registrar biometrias, acompanhar o crescimento dos animais, controlar a alimentação, administrar estoques, transferir insumos entre fazendas e monitorar custos e receitas. As informações podem ser consultadas em um dashboard gerencial, que reúne indicadores técnicos e financeiros em uma mesma interface.
Um dos recursos foi pensado especialmente para a realidade de propriedades rurais com conexão instável. Pelo celular, o produtor pode preencher o formulário de biometria mesmo sem acesso à internet. Os dados ficam armazenados no dispositivo e são enviados ao servidor assim que uma conexão é identificada.
“Como a conexão nas áreas rurais pode ser muito instável, as informações ficam armazenadas localmente e são enviadas ao servidor assim que o aparelho identifica uma conexão disponível. Dessa forma, a coleta não precisa ser interrompida pela ausência de sinal no viveiro”, explica Jôsevan.
A ferramenta também pode ser adaptada ao porte da operação. Em propriedades menores, o próprio produtor pode realizar os registros. Já em fazendas com maior número de viveiros, as atividades podem ser distribuídas entre profissionais responsáveis pela coleta de campo e pelo acompanhamento administrativo.
Os testes apresentaram resultados positivos. O erro médio entre os cálculos realizados pelo sistema e os valores apurados manualmente foi de 1%, abaixo do limite de 5% considerado aceitável. Os testes automatizados alcançaram 87% de cobertura, superando a meta inicial de 80%. Na avaliação realizada com técnicos de campo, a ferramenta recebeu nota média de 4,6 em uma escala de 1 a 5, com destaque para o dashboard, a estabilidade da plataforma e a agilidade no registro das informações.
Para Jôsevan, o MBA foi um diferencial ao ampliar sua visão sobre o projeto. A formação mostrou que desenvolver uma solução tecnológica vai além da programação e envolve compreender o usuário, o mercado, a gestão e as possibilidades de crescimento. A experiência também contribuiu para que uma ideia criada a partir de uma necessidade local passasse a ser vista como um produto com potencial para alcançar diferentes regiões produtoras.
“Antes, eu olhava muito para a parte técnica. O MBA me ajudou a entender que não basta criar um sistema que funciona. É preciso pensar em quem vai usar, qual problema ele resolve e como essa solução pode crescer”, afirma.
Agora, Jôsevan pretende conquistar os primeiros usuários no Nordeste e, posteriormente, ampliar a atuação da plataforma para outras regiões produtoras. Ele também planeja aprofundar o projeto por meio de um mestrado, incorporando novas etapas da cadeia produtiva.
“Quero que a solução cresça, alcance mais produtores e, principalmente, que possa ajudar cada vez mais gente”, finaliza.
Para conhecer a solução desenvolvida por Jôsevan, acesse meuviveiro.agr.br. Informações sobre o MBA USP/Esalq estão disponíveis no site do programa. O artigo completo, “Automação e gestão inteligente em viveiros de camarão: desenvolvimento de um sistema web integrado”, pode ser lido na Revista Estratégias e Soluções.