16ª Jornada de Nutrição aprofunda discussões sobre alimentação e desigualdade social
Programação debate insegurança alimentar, diversidade cultural e os desafios encontrados pelos profissionais em diferentes realidades sociais
Discutir alimentação também significa abordar renda, território, cultura, acesso a direitos e condições de vida. No Brasil, a possibilidade de garantir uma alimentação adequada continua diretamente ligada às desigualdades sociais que fazem parte da realidade de milhões de famílias. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) Segurança Alimentar 2024, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 24,2% dos domicílios brasileiros enfrentavam algum nível de insegurança alimentar naquele período.
Diante de diferentes realidades e necessidades, é fundamental que o profissional compreenda que as escolhas alimentares e o acesso aos alimentos são determinados também por fatores econômicos, sociais e culturais. É com essa abordagem que a 16ª Jornada de Nutrição da Universidade Tiradentes (Unit) foi realizada, tendo início na quarta-feira (26), sob o tema “Nutrição Inclusiva: Estratégias para o Cuidado Alimentar em Contextos de Diversidade Social e Cultural”.
“A ciência da nutrição não se limita apenas aos hábitos alimentares ou à melhoria desses hábitos para uma vida mais saudável. Também levamos em consideração a cultura e as questões sociais, entendendo onde esse indivíduo está inserido. Então, nada mais propício do que falar sobre isso porque o país ainda enfrenta um cenário muito grande de insegurança alimentar, o que influencia diretamente na qualidade de vida e na alimentação da população brasileira”, afirma o coordenador do curso de Nutrição, Hugo Xavier.
Formação ampliada
Além de promover uma reflexão sobre uma realidade que faz parte da vida de milhões de brasileiros, a Jornada também pretende aproximar os estudantes de profissionais e vivências de outras regiões. “Este ano estamos trazendo esse tema, que é extremamente atual para os nossos alunos, para que eles tenham contato com experiências de profissionais de fora do Estado. Não nos limitamos apenas a Sergipe, mas buscamos trazer experiências do Nordeste e do Brasil como um todo”, ressalta Hugo.
Segundo o pró-reitor de Graduação, Pesquisa e Extensão, Ronaldo Linhares, iniciativas como a Jornada ampliam as possibilidades de aprendizado para além das atividades realizadas em sala de aula. “Estamos procurando fortalecer as relações e proporcionar a geração de novos conhecimentos, agregando aos alunos resultados de pesquisas, palestrantes que têm vivenciado outras experiências, colegas e profissionais com diferentes trajetórias de trabalho e formação. Tudo isso é muito positivo nesses espaços de encontro que a universidade proporciona”, afirma.
A programação teve início com a palestra “Insegurança Alimentar, Fome Oculta e Nutricídio: produção de redes e estratégias de enfrentamento no contexto brasileiro”, conduzida pela nutricionista Luciana Labidel dos Santos. A atividade inseriu na formação dos estudantes uma discussão diretamente relacionada às condições sociais que influenciam o acesso da população a uma alimentação adequada e de qualidade.
Ao longo da palestra, Luciana abordou a trajetória da fome no Brasil, relacionando o tema às questões sociais e apresentando informações sobre a realidade atual. “São cerca de 18,9 milhões de lares em que o acesso regular e adequado aos alimentos esteve comprometido. Embora o índice represente uma redução em relação a 2023, quando a proporção era de 27,6%, a situação ainda alcançava 3,2% dos domicílios em sua forma mais grave, caracterizada pela presença de fome”, explicou.
Na avaliação da palestrante, despertar a sensibilidade dos futuros nutricionistas é fundamental para prepará-los para uma realidade que não pode ser analisada apenas pelo ponto de vista individual. “É uma questão social que atinge muitas pessoas. Mesmo nós, que somos privilegiados e temos o que comer em casa, precisamos lembrar que muita gente não tem. Precisamos sensibilizar esses futuros profissionais para que sejam cada vez mais capacitados para lidar com essa situação”, afirma.
Da teoria à prática
Para os estudantes, a abordagem escolhida também representa uma oportunidade de perceber que as condições alimentares variam entre diferentes grupos e regiões do país. Presidente da Liga Acadêmica de Nutrição Clínica (Lanoclin), a estudante Rosiane Barboza avalia que o contato com diferentes perspectivas ajuda a ampliar a compreensão sobre a atuação profissional. “Esse tipo de discussão é importante justamente para entendermos cada vez mais essa desigualdade e como podemos contribuir para melhorar essa realidade por meio da nossa atuação profissional. É extremamente importante aprofundar esse conhecimento e compreender a importância desse tema”, elenca.
Na visão da estudante de Nutrição Flávia Pitan, o evento contribui tanto para aprofundar conhecimentos trabalhados durante a graduação quanto para aproximar os alunos de profissionais com experiência no mercado. “A Jornada de Nutrição é muito importante porque reúne temas e assuntos relevantes para a nossa área de atuação. Na faculdade, nós vemos muitos desses conteúdos de uma forma mais profissional e, neste momento, temos justamente a oportunidade de aprofundá-los e também de ter contato com pessoas que já possuem experiência na prática”, destaca.
Flávia também ressalta que um dos pontos fundamentais da atuação nutricional é considerar as condições de acesso aos alimentos antes de estabelecer uma orientação. “Na nutrição, nós temos toda a orientação para prescrever alimentos, mas também precisamos ter consciência de como o paciente vai acessar aquele alimento e qual será a facilidade de acesso que ele terá. Isso também faz parte do nosso universo da nutrição”, explica.
Essa perspectiva amplia a discussão proposta pela Jornada para a própria responsabilidade do nutricionista no exercício da profissão. Mais do que indicar quais alimentos devem fazer parte da dieta, é necessário compreender as condições, possibilidades e dificuldades enfrentadas por cada pessoa. “Não se trata apenas da importância daquele alimento, mas também de como é a oferta, o acesso das pessoas a um alimento de qualidade e a possibilidade de que ele faça parte, de fato, da alimentação daquela população”, acrescenta Flávia.
Programação
Realizada nos períodos da manhã, tarde e noite, a programação reúne quatro oficinas, com atividades que abordam temas como epigenética do câncer, avaliação nutricional de pacientes hospitalizados, aplicação da inteligência artificial na Nutrição e insegurança alimentar. Os estudantes que se inscreveram puderam selecionar duas atividades para acompanhar durante a programação.