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Aracaju (SE), 10 de junho de 2026
POR: Adriana Meneses
Fonte: Adriana Meneses
Em: 10/06/2026 às 14:47
Pub.: 10 de junho de 2026

Homem não chora? O preço invisível da masculinidade :: Por Adriana Meneses

Adriana Meneses*

Adriana Meneses dos Santos, Psicóloga (CRP 19/4184), Jornalista e Pesquisadora - Foto: Divulgação

Junho é conhecido por diversas campanhas de conscientização, mas pouca gente sabe que também é um mês dedicado à reflexão sobre a saúde mental masculina. E talvez não exista tema mais urgente. Como jornalista e psicóloga, observo há anos um fenômeno que insiste em se repetir: homens adoecendo em silêncio. 

Minha trajetória profissional sempre esteve cercada por homens. Ao longo de mais de duas décadas acompanhando profissionais da segurança pública, trabalhadores de diferentes categorias e convivendo em círculos sociais predominantemente masculinos, percebo algo que se tornou uma constante. Muitos homens falam sobre futebol, trabalho, política, carros e dinheiro. Mas poucos falam sobre medo, tristeza, angústia, solidão ou sofrimento emocional. 

É como se existisse uma regra não escrita que os acompanhasse desde a infância: homem não chora. 

A frase parece inofensiva para quem a reproduz, mas suas consequências são devastadoras. Quando um menino aprende que não pode chorar, ele não aprende a deixar de sentir. Ele apenas aprende a esconder o que sente. Aprende a engolir o medo, sufocar a tristeza e mascarar a vulnerabilidade. 

O problema é que emoções ignoradas não desaparecem. Elas apenas encontram outras formas de se manifestar. 

Em muitos casos, a tristeza aparece travestida de agressividade. A ansiedade surge como irritação constante. A frustração se transforma em violência. O sofrimento emocional passa a ser anestesiado pelo álcool, pelo excesso de trabalho, pelo isolamento ou por comportamentos de risco. 

Vivemos em uma sociedade que ainda associa masculinidade à força, ao controle e à resistência. O homem idealizado é aquele que suporta tudo, resolve tudo e não demonstra fragilidade. Mas ninguém suporta tudo. 

Enquanto mulheres, historicamente, foram socializadas para falar sobre sentimentos, buscar apoio e construir redes de acolhimento, muitos homens cresceram ouvindo que demonstrar emoções é sinal de fraqueza. O resultado é uma geração inteira de homens que não aprendeu a nomear aquilo que sente. 

E não saber falar sobre sofrimento não significa não sofrer.

Dados nacionais e internacionais apontam que os homens procuram menos os serviços de saúde, aderem menos ao acompanhamento psicológico e costumam buscar ajuda apenas quando o sofrimento já atingiu níveis extremos. Não por acaso, os índices de suicídio são significativamente maiores entre homens. Segundo dados do Ministério da Saúde, aproximadamente oito em cada dez mortes por suicídio no Brasil ocorrem entre pessoas do sexo masculino. 

Esse dado deveria nos causar indignação coletiva. 

Porque por trás de cada estatística existe uma história interrompida. Existe um pai, um filho, um irmão, um amigo ou um colega de trabalho que talvez tenha passado anos ouvindo que precisava ser forte o tempo todo. 

Mas o que significa ser forte? 

Talvez a verdadeira força esteja justamente na capacidade de reconhecer limites. De admitir que algo não vai bem. De pedir ajuda antes que o sofrimento se transforme em tragédia. 

Como psicóloga, costumo dizer que a vulnerabilidade não é o oposto da força. A vulnerabilidade é uma das formas mais corajosas de existir. É preciso muita coragem para dizer "eu não estou bem". É preciso muita coragem para desmontar uma armadura construída durante toda uma vida. 

O que me preocupa é que ainda tratamos a saúde mental masculina como uma questão individual, quando ela também é um problema social e cultural. Não estamos falando apenas de homens que sofrem. Estamos falando de um modelo de masculinidade que, muitas vezes, impede esses homens de reconhecerem esse sofrimento. 

Quando um homem acredita que precisa resolver tudo sozinho, ele não carrega apenas suas dores. Ele carrega também o peso de expectativas impossíveis. 

E esse peso adoece. 

Adoece relacionamentos. Adoece famílias. Adoece ambientes de trabalho. Adoece comunidades inteiras. 

Por isso, falar sobre saúde mental masculina não é um privilégio nem uma pauta secundária. É uma necessidade de saúde pública. 

Precisamos ensinar aos meninos que coragem não é ausência de medo. Que sensibilidade não diminui ninguém. Que chorar não é fraqueza. Que pedir ajuda não é fracasso. 

Precisamos criar espaços onde homens possam existir para além dos papéis que lhes foram impostos. Onde possam ser fortes e vulneráveis. Seguros e inseguros. Corajosos e assustados. Humanos. 

Porque homens choram.

Homens sentem. 

Homens adoecem. 

E justamente por isso, homens também precisam ser cuidados. 

Neste mês de conscientização sobre a saúde mental masculina, talvez o maior desafio seja romper o silêncio. Porque o silêncio pode parecer resistência, mas muitas vezes é apenas sofrimento sem voz. 

E todo sofrimento que não encontra palavras acaba encontrando outras formas de se manifestar. 

Nem sempre da melhor maneira.

*Psicóloga (CRP 19/4184), Jornalista e Pesquisadora

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