Aracaju (SE), 26 de novembro de 2021
POR: Marcio Rocha
Fonte: Marcio Rocha
Em: 29/10/2021 às 10h34
Pub.: 29 de outubro de 2021

A Casa Portuguesa, com certeza :: Por Marcio Rocha


Marcio Rocha (Foto: Arquivo Pessoal)

Marcio Rocha (Foto: Arquivo Pessoal)

Quando falamos sobre a história do Centro Comercial de Aracaju, em sua contemporaneidade, muitas pessoas lembram de pessoas e personagens importantes para seu desenvolvimento. A grande maioria da população chama as lojas dos Centro pelo seu dono. Essa história já foi contada aqui há cerca de dois anos, mas por mais que o tempo passe, esse hábito será difícil de ser mudado. Outrora, as pessoas iam às compras em Jaime (Barroso Modas), Pádua (Loja dos Doces), Leovegildo (Balas Lílian), Gonçalves (Loja de tecidos e roupas), Raimundo (Farmácias Galeno), Prudente (Supermercado), Antônio (Barbearia Continental), entre outros tantos. 


Nos dias atuais, vamos em Gessé (Nordic), Luiz Fernando (Lu Nandu’s), Fabinho (Aju Beauty), mas ainda temos Hortência (Presentes e Decorações), Toinho (Kanoa Modas), Gilson (Óticas Santana), e outros ainda perdurantes na atividade comercial por várias décadas, e passamos por um personagem especial querido por todos. Lanchar? Abel, é claro! Toda a sociedade aracajuana conhece a Luzitânia Lanches, negócio de um dos grandes protagonistas do Centro Comercial de Aracaju há 47 anos. Passar na Luzitânia era para muitos e ainda é para outros tantos, programa garantido. Ir lá para comer um bacalhau, um doce, um bolinho... é no nosso jargão popular “de lei”.


Lembro-me de quando criança, porque cresci indo lá, em companhia de meu pai, que era amigo de Abel há vários anos, para lanchar toda vez que fazíamos compras. A Luzitânia faz parte da minha vida, como faz parte da vida de muita gente. Sempre com aquele senhor simpático que ainda carregava levemente o sotaque da “Terrinha”, que tratava a todos com muito carinho, pronto para jogar conversa fora, com pessoas de todas as idades e classes sociais, sem distinção. Aliás, distinto era Abel. Sempre respeitoso com todos na lhaneza do seu trato.


Nascido em 28 de março de 1927, em Fafe, Abel Gonçalves aportou em Aracaju nos anos 60, quando no espaço em que funcionava sua lanchonete, abriu uma loja de comércio varejista de calçados, a Luzitânia Calçados. Iniciando assim, uma trajetória de sucesso no empreendedorismo em Aracaju que foi coroada com a inversão do seu negócio para a famosa lanchonete que tanto tempo atende os aracajuanos, ao lado da igreja São Salvador. A idade vinha avançando e ele fazia questão de continuar cozinhando com sua esposa, Maria Clara, os pratos da culinária portuguesa que faziam seu negócio ganhar corpo e elevar o número de frequentadores. A Luzitânia faz parte da vida de quatro gerações de sergipanos. Dessa história, surgiu a Lei Complementar 5.003, que classificou a Luzitânia Lanches como patrimônio histórico e cultural de Aracaju. Abel Gonçalves é parte das nossas histórias pessoais, parte da história do comércio, parte da história de Aracaju.


O legado de Abel, seu espírito empreendedor, seu amor por Portugal e paixão por Aracaju, foram reconhecidos pelo presidente da Fecomércio, Laércio Oliveira, ao sugerir para o conselho da entidade a entrega da Comenda José Ramos de Morais para Abel Gonçalves. Deveria ter acontecido antes de sua partida, mas a pandemia cruel com as pessoas, famílias e negócios, quis que o inexorável destino fosse outro e ele partisse aos 94 anos, ciente da homenagem feita pela casa dos empresários sergipanos. A pandemia que impediu o acontecimento da solenidade não tirou a comenda de Abel, pois a outorga já estava feita desde o momento em que ele foi informado da honraria. Contudo, a medalha logo estampará a parede da lanchonete mais querida de Aracaju.


Para mim, será sempre “Tio Abel”. Assim o conheci, assim cresci chamando-lhe, assim permanecerá em minha memória. Esse grande homem nos deixou na última terça-feira. Deixará uma grande lacuna em nossos corações por tantas boas conversas, experiências gastronômicas e pelo grande exemplo de figura humana que era para todos os seus incontáveis amigos. Abel Gonçalves criou em Sergipe a nossa Casa Portuguesa, como diz a música eternizada na voz de Amália Rodrigues e que era cantada sempre que outro português de saudosa memória, Eusébio Pinto, radialista, entrava pedindo cinco bolinhos de bacalhau. 


A Casa Portuguesa continua lá, nós continuaremos indo em Abel. Agora, Abelzinho, seu filho, que tem uma dedicação altaneira pela existência da Luzitânia. E assim, nossa radiciação de denominar os negócios pelos nomes dos seus donos, continuará. Afinal, Abel é uma “casa portuguesa, com certeza”.

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação