Aracaju (SE), 21 de janeiro de 2026
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 14/04/2025 às 10:25
Pub.: 14 de abril de 2025

Os "DENOITINHAS” :: Por José Lima Santana

José Lima Santana*

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal/José Lima Santana)

Noite de alvoroço na cidade. Naquele sertão de terra avermelhada, invadida, por assim dizer, por uma gringada vinda do Sul, com o intuito de plantar soja, fato que causou uma revolução econômica em toda a região, o progresso era evidente. Cidade nova, que se ergueu em pouco tempo, a partir de uma pequena povoação inicial. Em menos de dez anos, a cidade tornou-se pujante. Passados outros dez anos, era uma potência do agronegócio. Dinheiro correndo à solta. 

Os descendentes da italianada ergueram um galpão em nome da Igreja, arrecadando os fundos necessários para tal. Um sucesso. Terreno doado por um fazendeiro, mas sem papel passado. Com o tempo, nova gringada assomou à região. Eram, em maioria, descendentes de alemães e polacos. Foi criada uma Associação dos Plantadores de Soja, cujos membros passaram a se reunir no galpão multiuso. Não demorou muito, e uma contenda ganhou asas: os associados queiram que o doador do terreno passasse a escritura em nome da Associação, para, assim, abocanharem o galpão, enquanto os primeiros gringos e os nativos queriam o galpão legalizado para a Paróquia, pois em nome dela o galpão fora erguido. Confusão. 

A gringada nova, sedenta de poderio, já tinha se empoleirado em boa parte da Câmara Municipal e por pouco não ganhara a Prefeitura, na última eleição. Com a ajuda de alguns dos antigos sulistas, os novos formavam a maioria dos membros da Associação. 

Diante da contenda entre os dois agrupamentos, o doador fincara o pé: passaria a escritura, desmembrando a área, para o lado que tivesse mais votos, em uma reunião por ele marcada, para um sábado à noite. Os dois grupos se moveram. 

O padre, novato no ministério e na Paróquia, mas, ativo, fez rodar, em toda a cidade e nas povoações adjacentes, um carro de som, conclamando os fiéis para a reunião. No fim da tarde, já algumas pessoas achavam-se no galpão da disputa. À noite, os novos gringos forma surpreendidos com um enxame de gente, com os nativos entoando cantos religiosos, à frente o padre Zeca, um pretinho magrelo, bom de palavrório e de briga, quando era preciso. 

‘Seu’ Francisco, o doador do terreno, chegou acompanhado dos dois filhos. Tomou assento à mesa. Chamou um representante de cada grupo. Lá foram o padre Zeca e um agalegado de quase dois metros de altura. Sentaram-se, ladeando o doador, que deu a palavra a cada um deles. 

O representante dos novos gringos defendeu que o galpão ficasse com a Associação, porque esta era quem mais o usava. Logo, era justo que a propriedade fosse legalizada para os associados. 

Já o padre Zeca, seco como uma vara de virar tripa, envergando uma camisa clerical romana de gola rígida e aparência austera, cujo colarinho quase o enforcava, mostrou documentos que lhe foram passados, com as listas de doações em nome da Paróquia, quando foram feitas as subscrições com vistas à construção do galpão. 

Cara fechada, como era do seu costume, ‘seu’ Francisco pediu silêncio, pois um burburinho tornara-se algazarra. Paciente, ele se levantou, ergueu as duas mãos e, aos poucos, o silêncio foi feito. Então, ele disse: “Já ouvimos as duas partes. Agora, é hora de votar. A maioria, como eu já tinha afirmado, leva o galpão. Passarei a escritura imediatamente. É só ir ao cartório. Quem for a favor da Associação, levante a mão direita”. A gringada nova e alguns dos antigos levantaram as mãos. “Vamos contar”, disse o filho mais velho de ‘seu’ Francisco. “Um, dois, três...”. Veio o total: “Oitenta e seis”! gritou o escrutinador. “E agora, os que querem o galpão para a Paróquia”. Nova contagem. “Um, dois, três...”. “Cento e quarenta e três”! 

Aplausos. Gritos. Apupos. Imprecauções. O padre Zeca quase foi carregado aos ombros. O galpão seria transformado em uma escola para aprendizes de vários cursos. Era preciso dar meios para garantir emprego e renda aos mais pobres, qualificar as pessoas para garantir vagas no mercado de trabalho. “A missão da Igreja, disse o padre, é salvar almas, mas, também, dignificar vidas”.

Em meio à algazarra, um dos novos gringos vociferou, de forma pejorativa, apontando para os nativos: “Quem trouxe esses ‘denoitinhas’”? Pois foram os nativos que ajudaram a derrotar a gringada nova. O padre Zeca telefonou para o bispo, a fim de dar-lhe a notícia. Sem conhecer a expressão, o bispo perguntou: “Quem são esses ‘denoitinhas’”? Eram os nativos, pretos e pardos.

*Padre (Paróquia Santa Dulce dos Pobres – Aruana - Aracaju), advogado, professor da UFS, membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE.


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