Aracaju (SE), 26 de novembro de 2021
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 30/10/2021 às 12h21
Pub.: 01 de novembro de 2021

Solavancos no peito :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana*


Beberrão sou não. Vezinha ou outra, uma talagada de vinho de jurubeba eu beberico. Vezinha ou outra, escondido do pai meu. É lá um se acaso. Bebedeira gosto não. Amigos meus e parentes de cair na bagaceira gostam. Como gambás, bebem. Se botar uma cuia de pinga nalgum canto, gambás e raposas devoram. T’ali dois bichinhos do mato que adoram se embriagar. É só encontrar. No povoadinho meu, duas bodegas tem. Dois cacetes armados, cai, mas não cai. Dias há que junta pinguço à vontade. O chão de tijolo bruto, ensaboado de cuspe grosso fica. A cada bicada, uma cuspida do tipo cagada de pato, espalhada. Com pouco tempo, dá até pra escorregar. Se chove, a negrada entorna pra esquentar; se faz calor, é pra esfriar. O negócio é tomar uma. Casos têm de neguinho ficar de pança grande, amarelado, olhos fundos, trupicando a cada passo. Perdição. Sá Vicentina de João Gordo diz: “A branquinha ainda mata um peste!”. Pior que nem é da branquinha. É de muita cor. Verde de cidreira; meio-amarelada de erva-doce; quase avermelhada de angico; cinzenta de murici-cachorro; e de mais cor, que é uma graça de fartura. 


Bebo não, como outros. Nem de folgar nas bodegas eu sou. Tenho meu trabalho, meus que fazeres. Não ando de trololó. “Zé de Britinho é pabo, metido a num sei o quê”. Isso já ouvi, vezes muitas. Dou ligança não. Vida minha é só minha. A ninguém eu devo. E ninguém me deve. Dívidas gosto não. Nem pra lá, nem pra cá. Só compro, se tenho. Só vendo, se têm. Fiado é palavra sem sustança. Gosto não. Dizem que sou seguro, mão -de-figa. Sou não. Mas, comigo tudo é no contado. Gasto não o que não tenho. Guardo não o que não preciso. Na vida limite há pra tudo. Porém, nem todo mundo pensa que nem eu.


Mãe minha e pai meu azucrinam minha cachola, de tempos pra cá. “Tu tá ficando velho. Tá na hora de descolar casamento”. Pais meus tomaram-se em casamento muito cedo. Ele, dezoito; ela, quinze. Eram muito meninos. Naquele tempo, no sertão era assim. Mal e mal o cheiro do mijo saía do entre pernas, e, chega, tá na hora de levantar casa e família. Penso assim, não. Minha hora vai chegar. Moça por aí tem de ruma. Ajuizada é de pouco encontrar. Avexo-me não. Quem come apressado, come cru. Gosto comer tudo bem cozidinho, no fogo brando. Pra que carreira? 


Geraldinho, primo meu, convite fez pra festa no Saco Comprido. Festança de pega-de-boi e forró. Sei se vou não. Cachaça muita deve ter. E confusão. Logo com os filhos de Almerindo das Cotias por lá, quatro sujeitos metidos a donos do mundo? Coisa boa não vai dar. Prefeito Belarmino com certeza vai aparecer, cercado por puxa-sacos e jagunços armados. Pense num prefeito gente ruim. Enganou o povo na campanha eleitoral. Agora, vive a dizer besteiras e fazer misérias. Essa festança toda é na fazenda Curralinho, de João Caroço. Faz festa todo ano. Homem bom. De ruim só tem o ter acreditado nas promessas de Belarmino. E ainda acredita. Tem bom coração. Mas, em tudo acredita. Tem muita gente assim. Gente de paz e de pavio apagado. Belarministas. Qualquer um engambela. Povo de Belarmino muito intolerante. Mentiroso como o prefeito. Político mentiroso não falta, pra lá e pra cá. 


Vou fazer 23 em maio. Dia 5. Casar nessa idade já devia ter, diz pai meu, homem de palavra, por todos assim mesmo reconhecido e louvado. Somos de família que honra o que diz. Mas, pai meu quer medir os filhos pela medida dele e do pai dele, meu avô, que Deus o tenha. Partiu há um ano e coisa. Ainda taludo. Coração fracassou. Pai deu rédeas curtas aos filhos. E tem esse negócio de querer ver filhos casados antes do tempo de maturação. É isso. Namoro, noivado é tempo de maturar ideias e conhecimentos de lado a lado. Avexamento precisa não. Quando pai e mãe vêm com essa conversa de casamento, eu só respondo arregalando os olhos. Digo nada. Quase esboço um sorriso ligeiro. Já percebi o intento deles. Parece que têm medo de partirem de repente pra outra vida, deixando os filhos na solteirice. Eu e Juquinha. Ele é encostado, tem 21 e uns quebrados. 


Juquinha, irmão meu, está se botando pra filha de Mamede do Gameleiro. Moça aprumada de corpo e juízo. Ancas largas, deve ser boa parideira. Prendada em costura e bordados. Dará uma boa esposa e mãe. Estuda na cidade. Brinco com ele. “Que pena que tu a avistou primeiro!”. Ele ri e solta: “Procure teu rumo, cabra”. Rimos os dois. Um irmãozão, Juquinha. Todos aqui em casa somos muito unidos. Nós dois, os mais velhos, Pituxo e Valdinho, os mais novos, nos 15 e 13 anos, e as meninas: Maria Clara, 18, Rosinha, 16 pra 17, e a miúda, ponta de rama, Celinha, 11. Somos uma família muito unida com boa criação, nos limites de pai e mãe. Aqui ninguém diz desaforo uns com os outros, nem com os de fora. Temos pouca instrução, mas temos educação de berço ou de rede. Pai nosso boas terras tem. Herança e trabalho duro. Bons negócios feitos na lide do gado e da lavoura. Os políticos da cidade lutam pra pai nosso cair na desgraça da política. “Num sou homem pra tamanho desmantelo”, ele diz. Deus seja louvado! Que ele nunca caia nessa besteira de política. Coisa nojenta que assim os homens a fizeram. Homens ruins, muitos deles. Há exceções. Poucas, ao menos por estas bandas. 


Sei não. Vou ou não festa de pega de boi e forró? Geraldinho primo meu diz que vai ser tudo no sossego. Sargento Benildes vai estar lá com destacamento. Moças muitas também. Sei não.


            *********************


Amanheceu no povoadozinho. Amanheceu no mundo do lado de cá. Zé de Britinho selou o cavalo castanho, bom de passada e correria. Botou roupa nova, chapéu novo. Logo mais, Geraldinho passaria. Café tomado, o primo passou. Saíram os três: Zé de Britinho, Juquinha, o irmão, e o primo. Menos de uma hora de cavalgada. E lá estava a festança. Gente muita. Muita moça bonita ou nem tanto. Cosme dos Araçás danando-se na sanfona com bom acompanhamento. Bois no mato. Bons vaqueiros, pegadores de bois.


Zé de Britinho, sem pressa para o casório, bateu o olho numa morena de cabelos soltos ao vento, encobrindo o rosto. Ele parou. Ela olhou. Afastou o cabelo do rosto. Sorriu. O coração de Zé de Britinho começou a dar pulos. Solavancos no peito.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação