Aracaju (SE), 22 de outubro de 2021
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 09/10/2021 às 09h32
Pub.: 11 de outubro de 2021

Dor de corno :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto de arquivo: Click Sergipe)

José Lima Santana*


Quero dormir, descansar o corpo, depois de um dia pesado, no trabalho duro que tenho a executar até que Deus possa lembrar deste filho desgarrado e me dê a oportunidade de melhorar de vida, quem sabe, passando no concurso para agente do Fisco estadual, como minha irmã Gracinha. Preciso livrar-me de uma dor de cabeça desgramada, que me tem atormentado desde trasontontem. Dor miserável, dor infeliz. Dor de corno, não temo em dizer. Gaia não levei, não. Mas, a dor é de corno, sim. Dor de rejeitado, é igual a dor de corno. Isto, na minha opinião de homem rude, mas não tanto. Posso não ser letrado como meu primo Zé Roberto, que até escreve uns letramentos para o jornal, mas, tenho tino para pensar na vida. Rejeitado. Meus pobres miolos fervem na cachola. Viro-me nesta cama há quase uma hora. O sono não dá mostras de que vai aparecer. Fecho os olhos, e nada! Desgraça, desgraça, desgraça. 


Levei um fora. Um fora da mulher que, sem querer, embora eu achava que ela queria, deixou-me entontecido. E, agora, desanimado. Depressivo ainda não. Porém, pelo andar da situação, não há de demorar. Estarei sendo pessimista? Faço-me de um pobre coitado? Dizem que isso é uma forma de defesa. Se for, é a mias ignóbil forma de alguém defender-se. Fazer-se de vítima. Bem. Posso ser, sim, vítima. De mim mesmo. Pago o preço da tolice de apaixonar-me por quem não devia. E apaixonar-me sem quê, nem pra quê. Sempre desdenhei dos amores ditos platônicos. Amor platônico jamais será amor. É paixão. Paixonite. Não pode haver amor unilateral. Foi nessa unilateralidade que eu cai. De cabeça. Mergulhei até o fundo do poço da paixão. 


Rosalina. Eu a conheci numa festa, na casa de tia Dalila. Fomos apresentados. Sorrimos cordialmente. Tolo, achei que o seu sorriso tinha algo a dizer-me: “Por que não?”. Li errado. Errado entendi. Acho que não sou bom nisso, ou seja, em ler sorrisos. Lasquei-me. Alimentei, por duas semanas, uma esperança que se tornou vã. Passei cinco vezes na loja de brinquedos que ela gerencia. Nada fui comprar. Não tenho filhos, nem mesmo sobrinhos ou afilhados. Minha irmã Gracinha é solteira e parece estar enveredando para o clube das solteironas, ou balzaquianas, como diz mamãe em seu linguajar de décadas. Meus irmãos Pedro e Célio são jovens demais para ter filhos, embora haja muitos garotos fazendo filhos, no escorrego, com mocinhas que ainda deveriam estar brincando de boneca. Força de expressão. Afinal, brincar de bonecas, no mundo dominado pelo virtual, é para meninas do Infantil. 


Acendo a luz. Deitei-me há, exata, uma hora e meia. São 23:30. O infeliz do galo querreche da vizinha do lado direito, novata por aqui, antecipa seu canto esganiçado da meia-noite. Maldito! Quem pode dormir com uma dor de corno e um canto desse? O pior é que o maldito arrasta com ele os cantos de outros galos. Racinha unida da desgraça! A orquestra dos poleiros desperta para entoar uma canção endiabrada. É no que dá morar no subúrbio. Um dia, eu sairei daqui, como espero sair dessa dor de corno, deixando-a, quem sabe, no travesseiro, ao levantar-me com o sol batendo na minha janela. Tomara. 


Levanto-me. O corpo dói. Os olhos ardem. Nada de sono. Tateio até a cozinha, no escuro. Não quero acordar ninguém. Bebo um copo d’água. Gosto ruim. De cloro. Que noite! Tateio de volta ao quarto. Olho o relógio. São 02:25. O maldito querreche canta mais uma vez. Já cantou uma quatro ou cinco. Parece cantar de propósito para me atormentar, como se eu já não estivesse num redemoinho tormentoso. 


Sorriso falso aquele de Rosalina. Ou falsa foi a minha compreensão. Dei com os burros n’água, para lembrar a expressão que vovô Totonho adora usar, quando algo dá errado. Deu errado para mim. Errado, errado. E aqui estou de cabeça inchada, roendo unha, como diz tia Anália, na verdade, minha tia-avó, a mais sapeca pessoa da família, que nunca teve uma dor de cabeça, que nunca se aflige seja lá com o que for. Oh, criatura de bem com a vida! Oitenta e cinco anos bem vividos, como ela mesma diz. Eu creio.


Ouço passos na rua de chão batido. Quando será que esse prefeito de merda vai calçar essa rua e tantas outras? No ano passado, na campanha eleitoral, prometeu mundos e fundos, para se reeleger. Em quatro anos, pouco fez. Em mais quatro, o que fará? Nada. Os passos que ouvi devem ser de seu Osmar. Vai à solta tirar leite de suas vacas, que pouco dão. Sou capaz de ter ouvido o chacoalhar da água no vaso de dez litros, que já levam dois ou três de água. A língua ferina de Maria de João Oncinha diz que, um dia, acharam um girino numa garrafa de leite. Água do riacho, que corre perto do curral. A partir dali ele passou a levar a água de casa. Precaução. Eu não fui precavido. Mergulhei de cabeça num olhar que nada me dizia, a não ser na minha atoleimada compreensão. Pago, pois, o preço da minha idiotice. 


Ouço o pigarrear do meu pai, como a dizer à minha mãe que está na hora de levantar. Insone, sinto-me cansado, moído. Devem ser umas cinco horas. Afundo a cabeça no travesseiro, como a buscar o último refúgio da noite não dormida. Maldição. Precisava ela dizer de chofre o que me disse, bruscamente? “Infelizmente, não há lugar para você no meu coração”. Frase ensaiada. Ela deve ter ouvido isso numa novela ou nalgum romance barato, desses cujo autor tenta vender seus livros nas mesas de bares, nos fins de semana. 


Tomo banho. A fábrica está a esperar-me. Preciso de aulas para passar no concurso. Preciso, mais do que tudo, tirar aquela mulher da cabeça. Ou vou continuar sem dormir por mais algumas noites, ouvindo o canto maldito daquele galo infeliz. 


A mesa do café está posta. Bem posta. Assanhamento. Estamos em agosto. Do sítio, papai trouxe milho novo para cuscuz. Adoro cuscuz de milho novo. Corto duas talhadas. Coloco leite, a nata amarela cai sobre o cuscuz. Leite sem água é assim, faz nata grossa. Dois ovos estrelados, de galinha caipira. É tudo do sítio: milho, leite, ovos. Mamãe põe na mesa um prato de carne-de-sol do capeado. Gordura pingando mel. Assada na brasa. O café fumega na xícara. A noite não dormida não consegue tirar-me o apetite. 


Ora, um café da manhã desse tipo é capaz de sufocar até dor de corno.


*Padre, advogado, professor da UFS, Membro da ASL, da ASLJ, da ASE, da ADL e do IHGSE

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