29 de agosto de 2015
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Beiço de Jegue :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


Há um dito popular que diz: “Quem pensar que beiço de jegue é arroz doce, está enganado”. Pense numa bagaceira seria alguém desavisado confundir o beiço de um jegue com arroz doce!”. Eitcha atropelo da gota que haveria de ser! Um fim de festa. Uma danação. Bagaceira no meio da feira.
Nos tempos brabos da UDN e do PSD eis que aportou na cidade um delegado mais bruto do que coice de jegue amuado. O cabra era perverso. Pau mandado do povo da UDN. Capitão. Diziam as boas línguas da oposição que o delegado era um matador fino. Diziam. Provar, ninguém provava nada. Ia-se ver o cabra seria mais inocente do que um arcanjo. Meu Deus, que sacrilégio de minha parte!
    
O capitão, recentemente promovido por bravura, isto é, por ter metido fogo nuns sujeitos que andaram falando mal do governador da UDN, mal e mal chegara à cidade e já fora botando regras contra os pessedistas. De pronto, deu um bacolejo na moçada. Só do PSD. Meteu uns três no xilindró e deu-lhes de cipó caboclo, além de uns bolos de palmatória.
    
Tinha o perverso delegado o lábio inferior um pouco descaído, como beiço de jegue velho, na derradeira muda. Aliás, já sem muda nenhuma. Zé de Naninho, ferreiro, batedor de foice e enxada, sapecado das faíscas do fogo avivado no puxar do fole na forja, era acostumado a botar apelidos em todo mundo. Ele era um entusiasta piolho de chefe político. Da turma dos rabos-brancos. Todo cara-preta graduado tinha sido agraciado com um chistoso apelido: Sagui Com Fome, Peçonha de Mosquito (este devia ser um pobre coitado), Penico de Mulher Dama, Toucinho Defumado e por aí afora. Pois não é que o delegado precisara de seus préstimos? Mandara que Zé de Maninho desse um jeito num fuzil emperrado. O ferreiro também fazia as vezes de armeiro. Fuzil consertado, nem “muito obrigado” ele recebeu do delegado. Porém, este recebeu o apelido de Beiço de Jegue. À surdina. E Zé de Maninho tinha lá costelas para aguentar cipó caboclo ou pano de sabre? Tinha não. Era mais magro do que um caniço. Uma boa coça lhe partiria ao meio. Um pessedista desaforado daquele nas garras do capitão Beiço de Jegue, aí, sim, haveria de virar arroz doce, mingau de pele e osso em poucos minutos de malvadeza.
    
O tempo foi passando e os próceres da UDN foram gostando do “serviço” do delegado, que era bem diferente do anterior, igualmente udenista, mas um oficial de primeira linha, que nunca cometeu um desatino, nos poucos meses que ali oficiara. Por isso mesmo fora mudado. Diga-se de passagem, aquele outro delegado chegaria a coronel e, merecidamente, ao comando geral da Briosa, no final da década de 1960.
Com o novo delegado, não tinha um dia que algum pessedista não comesse cana e bolo. Um desmantelo do cabrunco. Uma peste. Os chefes políticos do PSD não podiam fazer nada. O prefeito era da UDN. O governador, idem. O juiz e o promotor vinham de famílias de políticos da zona centro-sul do Estado. Da cambada udenista. A cidade estava entregue à sanha dos cara-pretistas. Uma miséria! A quem recorrer? Ao bispo? Manuquinha de Tibúrcio Corno Manso, apelido, claro, dado por Zé de Maninho, tomara uma surra tão grande no quartel, numa segunda-feira à tarde, que passou dias e dias urinando sangue. A sua sorte foi o valimento do médico, Dr. Milton, que o tratara com a sua costumeira eficiência. Médico dos tempos antigos, cujos diagnósticos não eram tirados à base de um sem número de exames, mas do ato de auscultar e do toque do dedo ou das mãos no corpo do paciente. O filho mais novo de Manuquinha, um menino de dez anos, foi obrigado a assistir à sessão de tortura contra o pai. Trauma para o resto da vida. Até hoje, avô de cinco netos, ele corta voltas quando se depara com um soldado. Até mesmo um sobrinho, major, ele o abençoa meio cabreiro. O que não faz um trauma!
    
De “serviço” em “serviço” o delegado foi ficando e os udenistas gostando. Era no tempo em que o jogo de azar corria frouxo. Praticamente, em toda bodega havia uma furna de jogo. O baralho era traçado ao torto e à direita. E havia as furnas próprias, como a de Domingos Peixeiro e a de Déde Coceirinha. As bodegas de eleitores da UDN continuaram com a jogatina. Nas de eleitores do PSD o jogo foi proibido. Por coincidência, Domingos e Dedé também eram do PSD. Tiveram que fechar as furnas. Até o rádio receptor da bodega de “seu” Vange era para ser desligado no horário dos programas sobre política da emissora dos pessedistas/perrepistas, a Rádio Jornal. Mas, foi aí que o delegado se estrepou. O velho Vange armou os homens da família. Eram poucos. Apenas uns cinquenta. Armados e entrincheirados na noite em que se anunciou que a polícia iria quebrar o rádio, dado o desaforo do velho e respeitado bodegueiro em não atender a “ordem” de desligamento. Beiço de Jegue tomou tento por um instante. Correu da parada. Prova de que nem todo jegue é bom de coice.
    
Chego, agora, ao ponto nevrálgico. Um dia, algum dedo duro comunicou ao delegado que Zé de Maninho o apelidara de Beiço de Jegue. O delegado subiu nos tamancos. Azedou. Espumou. Praguejou. Jurou ao dedo duro que o ferreiro teria as costelas quebradas, o quengo partido, os dedos arrancados. Disse “as do fim”, como se dizia em Pernambuco, terra natal do delegado.
    
Era uma ensolarada manhã de sexta-feira. O famoso curió “Chico Alves” se esgoelava cantando na gaiola nova, que Zé de Maninho comprara a Dodô Galego. O ferreiro magricela enjeitara um dinheirão pelo passarinho cantador. Vender? Não se venderia uma preciosidade daquela. Por dinheiro nenhum do mundo. Enquanto tocava o fole na forja e ouvia o curió de estimação, Zé de Maninho recebeu a visita pouco amistosa de dois soldados. Um deles era filho de uma prima distante e avisou: “O delegado vai lhe moer, Zé”. Ora, Zé de Maninho não fizera nada. Não devia nada ao delegado nem a ninguém.
    
No quartel, o delegado recebeu Zé de Maninho batendo compassadamente no coturno o velho cipó caboclo ensebado de novo. Sobre a mesa, o quepe, os óculos escuros, a palmatória, que ele chamava de “divina” e o coldre. “Então, seu ferreiro de merda, o senhor anda me apelidando pelo meio da rua, hein?”. E Zé de Maninho, calmo como era de seu proceder: “Nem pelo meio da rua eu ando, “seu” delegado. Eu só ando pela calçada”. 
Foi uma chuva de bolos e de cipoadas.


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição 30 e 31 de agosto de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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