09 de fevereiro de 2019
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 08/02/2019 às 23h51

"Sou torcedor, sócio e conselheiro. Porém, estas condições não me dão o direito de ser corporativista"


CHORO PELOS QUE MORRERAM, NA ESPERANÇA DA DEVIDA RESPONSABILIZAÇÃO


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


Vítimas do incêndio no CT do Flamengo - Foto: Reprodução, Globoesporte

Vítimas do incêndio no CT do Flamengo - Foto: Reprodução, Globoesporte

Desculpem-me os amigos internautas, mas, eu preciso confessar um dos meus defeitos, dentre tantos que os tenho: eu não sei ser corporativista. É claro que estou, ainda, tocado pela emoção e pela comoção. Depois de Brumadinho, quando sequer temos regatado os corpos de dezenas de trabalhadores que perderam suas vidas, eis que mais uma tragédia se abate sobre nós. Os jovens que sonhavam com um futuro radiante nos gramados, que, nalguns casos, esperavam dar uma vida melhor aos seus familiares, tiveram suas preciosas vidas ceifadas no Ninho do Urubu. Com eles, alguns empregados do Clube.
    
Eu sou flamenguista desde não sei quando. Acho que já nasci flamenguista. Ou, quem sabe, já fui gerado rubro-negro. Fui eleito conselheiro, na eleição de 8 de dezembro. Mais uma vez. Porém, estas condições de torcedor, sócio e conselheiro, não me dão o direito de ser corporativista. Repito que ainda estou tocado pela emoção e pela comoção, mas, fiquei estarrecido, ao longo do dia, na sexta-feira, ao tomar conhecimento das irregularidades que se arrastavam há anos, nas dependências que alojavam os jovens atletas, as promessas de novos craques da bola, no CT do meu Clube. O maior campeão do futebol carioca (Taça Guanabara e Campeonato Estadual), cinco vezes campeão brasileiro (alguns dizem “seis”), campeão do mundo. O que significa tudo isso, se há gravíssimas responsabilidades a serem apuradas? Erros. Falhas. Pouco me importam. Houve irresponsabilidades dos dirigentes que, desde alguns anos, não cuidaram de zelar, primeiro, pelas pessoas que abrigavam, e, depois, pelo nome do Clube.
    
Agora, depois da tragédia, vêm à tona as irregularidades. Muitas delas. Onde estavam os sucessivos dirigentes? Onde estavam aqueles que nós, sócios, elegemos em sucessivas eleições, ao menos nos últimos anos. Pelo menos, desde 2004 foram detectadas irregularidades. Por que não foram resolvidas? Por que a Prefeitura do Rio de Janeiro não interditou, de vez, o CT do Flamengo? Também o Ministério Público detectou problemas. Há um processo que se arrasta... Meu Deus! Esperaram que vidas fossem ceifadas para, cada um dizendo o que bem quer, tomarem providências.


Vejamos algumas aberrações:
1. “Em uma publicação no Diário Oficial do Município em janeiro de 2012, o auto de infração de número 569057 informava que o clube teria que arcar com uma multa de R$ 399,39”. Pasmem: uma multa menor que R$ 400,00. Uma piada de mau gosto. Quem liga para uma multa dessa? Bem, pessoas sérias ligam, sim.

2. “A Secretaria Especial da Ordem Pública (SEOP) do Rio de Janeiro determinava ainda que o Rubro-negro sofreria o ônus de R$ 570,56 diários caso decidisse abrir as portas”. E daí? As portas foram abertas.

3. “Em janeiro de 2012, a SEOP informou que o mesmo CT que foi palco de tragédia nesta segunda-feira (8) fora notificado seis vezes desde 2004 por falta de alvarás. A Secretaria e o clube não especificavam quais eram os problemas”. Notificado seis vezes por falta de alvarás. Mas, não interditaram. Deveriam ter feito.

4. “Em nota divulgada nesta sexta, o Tribunal Regional do Trabalho da 1º Região (TRT) afirma que, segundo o MP, as condições do CT onde os jovens estavam alojados (pessimamente alojados) eram comparáveis à de centros de detenção para menores infratores. ‘Precárias condições oferecidas pelo Clube de Regatas do Flamengo a seus atletas são inferiores até mesmo àquelas ofertadas aos adolescentes que cumprem medida socioeducativa de semiliberdade em unidades do Departamento Geral de Ações Educativas (DEGASE), o que revela o absurdo da situação’, diz o comunicado.  Ao longo da ação, foram determinadas diversas vistorias no local, e houve concessão de prazo para que o Flamengo sanasse as irregularidades”. Meu Deus! E deixaram que essas condições absurdas continuassem. Sim, deram prazo...! Ridículo!

5. “Com problemas constantes nos últimos anos, o Ninho do Urubu foi alvo de ação recente do Ministério Público do Rio de Janeiro pelas más condições oferecidas aos atletas de base que aplicava. O processo, iniciado em 2015, faz menção a irregularidades no centro de treinamento”. O processo vem se arrastando... E se arrastaria até quando, se não fosse a ocorrência dessa tragédia inominável?


Em face dos cinco itens acima elencados, estávamos diante de uma tragédia anunciada. Ninguém se deu conta disso? Ninguém?


Este país não é mesmo sério. Há muito bocó onde deveria estar gente comprometida com a vida e com a seriedade dos atos públicos e das atividades privadas.
 
Estou de luto pelas vidas que perdemos, desafortunadamente. Estou de luto pelas famílias que perderam seus entes queridos. Estou de luto pelo meu Clube, que não deveria passar por isso.


Como torcedor, sócio e conselheiro, vou aguardar respostas. Tardias, é bem verdade. Como cidadão, espero a apuração de responsabilidades. Durissimamente. É o mínimo que posso esperar.
 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE
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