21 de janeiro de 2019
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 19/01/2019 às 00h23

ZÉ TOICINHO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Click Sergipe)

Não sei, e disso preciso certificar-me, se os doutores Netônio Bezerra Machado e José Hamilton Maciel, diletos amigos deste sofrível escrevinhador, conheceram, em Pão de Açúcar, nas Alagoas, pois de lá eles dois são filhos, o famoso rezador Zé Toicinho. Aliás, em Aracaju há uma verdadeira “República” do Pão de Açúcar. Na capital sergipana tem mais gente do Pão de Açúcar do que cearenses como garçons em São Paulo. Pois bem.


Zé Toicinho era o vulgo de José Augusto Bernardes da Fonseca Ribeiro, nome de ministro do Supremo para cima. Interessante, não sei como, no ano passado, ou melhor, no ano antepassado, 2017, veio à minha lembrança o nome de Zé Toicinho. É que eu ainda não me acostumei com 2019. Penso que ainda estou em 2018. Também com tanta coisa acontecendo no Brasil e mexendo com a cabeça da gente, inclusive com um capitão como presidente e um general como vice, que, se fosse nos tempos de coronel Fulgêncio Argolo, o Argolão, cabra matador como poucos em qualquer lugar do mundo, isso seria motivo para se tirar a coisa a limpo. Um capitão ser maior do que um general? “Só no Brasil, nesta terra de caiporas e sacis-pererês”, haveria de dizer o citado coronel, cuspindo longe uma cagada de pato, escura, arrancada dos pulmões consumidos pelo fumo de rolo dos cigarros pés-duros, que ele fumava a três por dois.  


Eu conheci Zé Toicinho, exatamente em Pão de Açúcar, na beira do rio São Francisco, quando, num começo de tarde de sábado, eu consumia, deliciosos pitus, iguaria muito melhor do que lagosta, comidinha de grã-finos, que só tem preço. Mas, algum enxerido há de ter a petulância de dizer: “Você só diz isso porque é pobre e não pode pagar um prato de lagostas na manteiga de ervas”. Ah, infeliz! Era o que eu haveria de responder. 


Voltemos ao Zé Toicinho. Antes, porém, eu preciso dizer que um lombo de frigideira, como minha mãe costumava fazer, recheado com toicinho, bem marinado, para se comer dentro de alguns dias, velho, bem curtido, era uma delícia dos céus. Agora, por conta do diabetes, nem pensar em carne de porco. Porém, pensando bem, será que carne de porco faz mal a um diabético? Hei de consultar o Dr. Darcy Tavares, outro que veio das bandas do Pão de Açúcar. Menino, se olhar bem, talvez tenha mais gente do Pão de Açúcar do que sergipanos, no Aracaju. Ai já não será mais uma “República”, e, sim, uma “Confederação”. Deixe para lá! Afinal, é tudo gente boa, gente da gente. Vai aqui outra enrolação: banha de porco, toicinho, torresmo e carne de porco salgada, tudo isso, era comprado na casa de Barroso da finada Odília, lá no meu subúrbio, nas Dores. Todavia, carne fresca de porco era comprada a Arnaldo Pafó, no Talho de Carnes, construído em 1918, pelo intendente Álvaro de Souza Brito.


Agora, sim, vamos ao Zé Toicinho. Não haverá mais desvios. Eu prometo. É que tem uns leitores exigentes demais e querem que eu dê logo conta do serviço. Pois bem. E este é o segundo “pois bem”. Zé Toicinho tornou-se rezador nos sertões das Alagoas. Com o tempo, ele veio descendo pelas ribanceiras do Velho Chico e bateu em Pão de Açúcar. Eu duvido que o Dr. Netônio e o Dr. Zé Hamilton não o tenham conhecido. Estava ali um sujeito que não gostava de trapicolas. Com ele, era tudo na chincha. Arrochado. O pai de Zé Toicinho tinha sido um grandola da política da região de Maravilha e Ouro Branco. Prefeito algumas vezes, gastador, pôs tudo que tinha a perder, para eleger sujeitos da capital aos cargos de deputado, senador e governador. Quando se viu de esmola, Antônio Felício da Fonseca Ribeiro entregou o pescoço a uma corda de caroá. Pobre homem! A família não encontrou guarida da parte de nenhum dos políticos para os quais Antônio Felício carreara votos em seguidas eleições. 


Um ano depois da morte do pai de Zé Toicinho, Dona Eleonora jogou-se no mundo com sete filhos, dois homens e cinco mulheres. O mais velho era José Augusto, que tinha dezoito anos. Nas barrancas do São Francisco, bem mais acima de Pão de Açúcar, onde a família fez pousada, um celerado desonrou Maria Rosa, que tinha quinze anos. Perdida, a mocinha lançou-se nas águas barrentas do rio, numa manhã invernosa. Foi, então, que José Augusto teve que se fazer nas armas. Enfiou um punhal enferrujado na goela do deflorador, que, segundo se dizia, era useiro e vezeiro em fazer aquilo, ou seja, em colher a preciosa flor de mocinhas pobres. José Augusto foi dar com o bandido numa bodega de pé de pau. De acordo com testemunhas, ele se achegou para o futuro defunto e gritou: “Tu tá morto, cabra”! Pegou o sujeito de supetão, mas não pelas costas. Foi de frente. O aço entrou na goela, atravessando-a, e o sangue espirrou no peito do matador. Serviço feito, José Augusto benzeu-se e balbuciou uma reza. Depois, saiu como se nada tivesse acontecido. 


Zé Toicinho, isto é, José Augusto, aos dezoito anos de idade aboletou-se no mundo. A família ficou sob a proteção do coronel Tancredo, desafeto da família do morto. Uns meses depois, o coronel mandou dar conta de José Augusto. Botou advogado e o livrou no júri formado por pessoas da sua intimidade. E foi então que José Augusto passou a fazer uns “servicinhos” para o coronel Tancredo. Fez um, fez dois, fez três... e foi fazendo. Após cada serviço, ele costumava benzer-se e rezar. Daí veio a fama de rezador. 


Passou o tempo, José Augusto bandeou-se para São Paulo. Largou a vida antiga, após ser preso e comer cadeia por doze anos. Àquela altura, era um homem de trinta e poucos anos. Constituiu família. Com sessenta e alguns anos de idade, aposentado como motorista de ônibus, ele retornou para Alagoas. Fixou-se no Pão de Açúcar, por volta dos anos 1970. Ele e a esposa. Os filhos e netos ficaram em São Paulo. No Velho Chico, Zé Toicinho tornou-se pescador. Eu o conheci vendendo pitus salgados, já na década de 1980. Ele devia beirar os oitenta anos. Mas, ainda era forte, estava bem para a idade. E pelas saudações recebidas de várias pessoas, ele parecia ser bem quisto. 
Conversa vai, conversa vem, eu fiquei sabendo um pouco de sua vida. Não por ele, mas por um primo, que era dono do bar onde eu comi uma moqueca de pitus, no sábado em que o conheci. Aliás, dele eu comprei dois quilos de pitus salgados. 


Só uma coisa eu não soube: de onde veio o apelido de Zé Toicinho. 


Puxa vida! Mas, será que o Dr. Netônio e o Dr. Zé Hamilton não conheceram Zé Toicinho? Hei de tirar isso a limpo. Quem sabe se eles não sabem de onde veio o apelido?


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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