02 de janeiro de 2019
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 29/12/2018 às 15h57

O BURACO DE MARIA CORDULINA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Fim de agosto. Ventos soprando do mar para a terra, alcançando o sertão, para enxugar os terrenos encharcados pelo bom inverno, aliás, o melhor inverno dos últimos oito anos. Ano de fartura. Ainda chovia, pouco, mas chovia. O sol já se mostrava cada dia mais quente, embora desse um refresco, ora pela manhã, ora em plena tarde, ora nos entremeios da noite, para ceder lugar a uma chuvinha de fim de inverno, que haveria de se prolongar naqueles abençoados chuviscos até os fins de setembro. Invernão, sim senhor.  


O tempo de a terra enxugar era, também, o tempo das serpentes saírem de suas tocas, como bichos de sangue frio a necessitar de quentura. Para quem andejava nos matos, nas roças, nos quintais alargados, todo cuidado era pouco. Jararacas e jararacuçus eram as cobras mais comuns por aquelas bandas da Boca do Sertão. 


A Boca do Sertão era uma área de muitas léguas em quadra, que se situava estrategicamente entre a Cotinguiba, o Agreste e o Sertão propriamente dito. O povinho dali torcia os beiços para os cotinguibenses, para os agresteiros e para os sertanejos. Povinho metido, que não se sentia misturado com os vizinhos. Coisa mesma de povinho. “Cada tribo com os seus pajés e cada pajé com os seus desperdícios”, dizia o tabelião Pedro Francisco do finado Francisco Pedro, seu pai e antecessor na atividade cartorária. Cartório que já vinha do avô, Antônio Francisco de Pedro Duas Caras, antigo jagunço que fez fortuna e juntou poder político nos começos da República, ganhando o cartório para o filho, que, à época, por volta de 1911, não passava de um semianalfabeto, que mal lia e muito mal escrevia. Porém, havia sempre um ajudante com maior leitura e melhor escrita a carecer de emprego. No caso, era o escrevente juramentado Pachequinho de Mané Piaba, que atravessou décadas, encurvado sobre livros maiores do que ele. 


Maria Cordulina era tia-avó de Pachequinho. Tinha batido a caçoleta em 1954, quando estava à beira de completar 106 anos de vida. Morreu ainda em plena atividade caseira, cozinhando, costurando, enfiando uma linha no buraco da agulha sem precisar de óculos. Solteirona, igrejeira, caridosa, dizia-se na cidade que ela tinha sido a grande paixão do coronel Venturinha Porto, um ricaço, herdeiro das melhores terras da Boca do Sertão, terras a perder de vista. Todavia, Maria Cordulina era uma simples costureira e o também coronel Bartolomeu Porto, pai de Venturinha, não permitiu que a paixão tomasse modos de casamento. 


O então major Venturinha, depois coronel como o pai, acabaria desposando a contragosto do coração, mas, a bom gosto do bolso, a neta do coronel Francelino Cabral de Alencar, usineiro na Cotinguiba e sócio de Banco na capital. Casamento bem arranjado. Maria Cordulina vestiu-se de luto desde então. Viúva que nunca chegou a casar nem, claro, a viuvar de direito e de justiça. 


Costureira de mão cheia e de renome em toda a Boca do Sertão, Maria Cordulina acabou prosperando em ordem de pobre. Comprou bela casa na Praça da Matriz, belo sítio, bela, embora pequena, fazenda de gado. Com a ajuda do sobrinho e, depois, do sobrinho-neto, ela foi-se endinheirando. Ao partir desta para melhor, deixou considerável fortuna para Pachequinho, que, pôde, então, aposentar-se do cartório, para gozar do que a tia-avó lhe legou em testamento público. 


Encostada ao sítio de Maria Cordulina, herança de Pachequinho, havia uma ligeira depressão e, nela, um buraco, que ficou conhecido como o Buraco de Maria Cordulina, embora dela não fosse. Mas, a voz do povo era a voz de Deus, como se dizia, embora o Pai Eterno quase nada tinha a ver com o que o povo dizia e alardeava.  Acreditava-se que, em tempos muito remotos, uma criança tinha caído naquele buraco e perdido a vida. Com muito custo, o corpinho do inocente, que tinha dois anos e meses, foi resgatado. A mãe do garotinho, que morava a pouca distância do buraco, era uma jovem viúva, cujo marido tinha sido assassinado por um policial por causa de um jogo de baralho, no bar de Tibúrcio de Sá Iolanda do fiando Zeca Félix. Um clamor na casa da viúva, um clamor na cidade, pois o menino defunto tinha sido, dois anos antes, o Menino Jesus, na encenação do Auto de Natal, que o padre Marcelino fazia apresentar todo ano, na frente da Igreja. Dizia-se até que, às vezes, em noites muito escuras, ouviam-se os gemidos de uma criança no buraco de Maria Cordulina. Certamente, invenções do povo. 


Naquele fim de agosto, outro menino de cerca de dois anos caiu no buraco de Maria Cordulina. Era o filhinho mais novo de um casal do sertão de Pernambuco que por ali se arranchou há pouco mais de seis meses. O menino saiu atrás dos dois irmãos mais velhos, que caçavam lagartixas para prendê-las em laços feitos com talos de capim sempre-verde. Brincadeiras de crianças daqueles tempos. Hoje, uma brincadeira politicamente incorreta, capaz de conduzir os pais das crianças ao Conselho Tutelar e, quem sabe, ao gabinete de um promotor de justiça, enclausurado, alheio às questões que de fato afetam o povo, embora perfeito manejador das leis frias em suas letras. 


A vizinhança foi acionada. O buraco era fundo. Voluntários se apresentaram. Cordas foram providenciadas. Lá no fundo do buraco, o garotinho respondia às perguntas da mãe. Não chorava. Parecia estar bem. Como? Não se sabia. A queda deveria ter-lhe custado a vida. Contudo, ele vivia. Graças a Deus! Alguém lembrou que naquele buraco poderia haver cobras. Afinal, um dia antes, Zé Bebinho tinha visto uma jararaca sair dali. “Quem vai dar fiança a conversa de Zé Bebinho?”, perguntou Euclides Sarará. Bem. Não custava tomar algumas precauções. 


Com cordas emendadas e bem amarradas a um tronco de aroeira, eis que desceu em socorro do garotinho, o filho de Antônio Cotia do Tabuleiro de Saturnino, João de Tonho. Não demorou muito e o moço gritou: “Já peguei o menino. Puxem a corda. Tem um monte de cobras por aqui”. Ora, Zé Bebinho estava certo. 


Ao subir com o menino amarrado ao seu corpo, João de Tonho narrou uma cena inacreditável. Com o garotinho resgatado havia outro mais ou menos da mesma idade, portando um feixe de luz sobre a cabeça. Com um dedinho luminoso, ele mantinha as cobras afastadas do menino caído, que estava em perfeito estado físico. De chofre, o moço se espantou e quis gritar “Tem coisa por aqui”, mas a voz não saiu. João de Tonho pensou que estava ficando louco. Era uma visão. Naquilo, o outro garotinho, o do dedo luminoso e do feixe de luz sobre a cabeça, vestido como o Menino Jesus da imagem da Sagrada Família, do nicho de sua mãe, sorriu para ele. Foi quando ele tomou o garotinho em seus braços, amarrando-o em seu corpo. As cobras armavam botes, mas não saíam do lugar. Ao ser alçado em segurança, longe dos botes das serpentes, João de Tonho viu o menino luminoso desaparecer. 


Hoje, no lugar do buraco há uma Capela com a invocação do Menino Jesus, construída às expensas de Pachequinho, o herdeiro de Maria Cordulina.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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