27 de novembro de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 26/11/2018 às 21h16

TETÊ CARA DE COBRA :: José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

José Lima Santana (Foto: Click Sergipe)

Diz o dito popular, que “nem tudo que reluz é ouro e nem tudo que balança cai”. Talvez seja verdade. Ou é verdade mesmo. Tetê de Maria de Doca do finado Zé Martelo, levou um tempão para arranjar namorado disposto a levá-la ao altar. Depois de muito pelejar, e de somente arranjar marmanjo interessado em suas patacas, que aquinhoada, em ordem de pobre, ela era, sim, pois que costureira afamada na cidade de Catolé dos Bodes, eis que lhe apareceu Aparício de João de Mamede, magarefe de porco, cujas carnes salgadas ele as vendia nas feiras do Catolé, no domingo, e de Angicos, na segunda-feira. Sujeito bem aprumado na vida. Também pudera! João de Mamede, seu pai, soube muito bem conduzir a família, no trabalho duro e na retidão de caráter. Enfim, Tetê demorou, mas abocanhou um bom pretendente. E Aparício vivia nos mimos com ela. 


O pai de Aparício, João de Mamede, era filho de Mamede Pereira de Souza Argolo, e neto de Antônio Augusto Argolo, oficial da Polícia Militar, delegado de polícia, na capital, nos anos de 1920, que enfrentou barricadas dos primeiros comunistas que apareceram na capital, insuflando os trabalhadores de uma fábrica de tecidos e que, com prudência, meteu uns na cadeia, botou outros em debandada para as bandas da Bahia, mantendo, enfim, a calma entre o pessoal da tecelagem, que baixou o facho e retomou o ritmo normal do trabalho, exceto um tal de Aluizão Cascudo, que se fez de brabo, foi posto para fora do emprego e ainda por cima comeu xilindró por alguns meses. A família dos Argolo era dali mesmo, do Catolé dos Bodes. 


Tetê de Maria de Doca, contudo, é a personagem central deste paupérrimo escrito. Vamos à mesma. Tetê, então, casou-se com Aparício de João Mamede, vendedor de carne de porco salgada em duas feiras semanais, como dito está. Tão logo casou, Tetê engravidou de gêmeos. Os amigos de Aparício caçoavam dele: “Entonce, tu casou com uma preá, foi Aparício? E tu vai dar de mamar a um dos meninos? Você a um e a patroa a outro, e fica tudo certo”. Brincadeira de amigos. A gravidez de Tetê progrediu sem sobressaltos. E as crianças nasceram com saúde. Eram dois marrunchos de se ver. Manoel Francisco e Francisco Manoel. Uma criatividade estonteante ao nominar os gêmeos, para não dizer outra coisa. Porém, gosto de pai e mãe não se discutia. 


Nem tudo, porém, corria às mil maravilhas. Eis que Tetê começou a dar por falta de seus cílios e sobrancelhas. Aos poucos, os pelos foram caindo. Devagarzinho, devagarzinho. Hoje, um; amanhã, outro, e assim por diante. Um dia, ela se pôs diante do espelho e deu um grito: “Meu Deus!”. Estava quase sem pelos nos cílios e nas sobrancelhas. Ninguém ainda tinha lhe chamado a atenção para o iminente desastre. Uma mulher sem cílios e sem sobrancelhas ficaria parecida com o quê? Ela não sabia no que pensar. 


Uma prima de Tetê, Gerânia de Elias Capunga, socorreu a prima. Ensinou-lhe uma infusão de folhas de araticum cagão, que faria renascer os pelos perdidos. Tetê passou a banhar o rosto com a infusão indicada, três vezes ao dia. De início, pareceu que a infusão estava dando resultado. Ledo engano. Ilusão. Na ânsia de ver-se livre da situação que lhe acometia há semanas, Tetê achava que o bom resultado da infusão de folhas de araticum cagão, que no valado de Dona Betinha de Chico Fumaça tinha um pé frondoso, saltava-lhe aos olhos da cara. Era uma percepção meramente psicológica. 


Araticum cagão era uma fruta sem valimento. Desenxabida que era uma miséria. Tão diferente do araticum verdadeiro, suculento, doce de enjoar. Pois as folhas do cagão nem para fazer nascer pelos nos olhos, ou acima deles, prestava. Coisa sem serventia. Não demorou muito e Tetê deu-se conta de que a infusão recomendada pela prima não prestava para nada. Desalento em cima de desalento. Ela procurou mil remédios. De Farmácia e de mato. Até bunda de tanajura, nas trovoadas, ele experimentou, receita de um tal de Pai Zuzé da Lagoa do Capim, preto velho metido em encantos do outro mundo. Nada. Nada devolveu os pelos dos cílios e das sobrancelhas de Tetê, que ficou esquisita de “cara limpa”. E começou a sentir-se infeliz. 


Um dia, Aparício estava nos dengos com os gêmeos, deitado numa rede armada no alpendre da casa avarandada, os dois moleques sobre a sua já próspera barriga, quando Tetê, a seu pedido, lhe trouxe um caneco de água fria de moringa. Ele bebeu a água, que desceu goela abaixo numa gostosura sem medida e agradeceu à esposa diligente. Ao lhe entregar de volta o caneco de alumínio mais brilhante que um espelho, ele franziu a testa, soltou uma gaitada e disse: “Tetê, não me leve a mal, mas você está com cara de cobra, assim sem cílios e sobrancelhas”. 


Ao ouvir tamanho disparate, Tetê deu uma rabanada, soltou um despautério e entrou em casa vomitando fogo. Imaginou, de logo, se alguém tivesse ouvido o que lhe dissera o marido. Haveriam de chamá-la, doravante, Tetê Cara de Cobra. O povinho dali adorava botar apelido nos outros. “Cara de Cobra. Onde já se viu?”, pensou. 


Logo mais, Aparício de João de Mamede ouviu soluços vindos do interior da casa. Ajeitou-se. Levantou da rede com algum sacrifício, tendo Manoel Francisco e Francisco Manoel nos braços. Dirigiu-se à esposa, que a foi encontrar na cozinha, com longas e incontidas lágrimas escorrendo pelas faces rosadas. “Tetê Cara de Cobra”. Ele não disse por mal. Nunca, nos dois anos e pouco de casados, ele fora capaz de magoá-la, fosse como fosse. Era um sujeito de poucas letras, como ela mesma, mas tinha modos. Tinha dito uma brincadeira de mau gosto, ao olhar para o rosto da mulher sem cílios e sem sobrancelhas. Desculpou-se. Nunca mais a magoaria daquele jeito ou de outro jeito que fosse. Nunca mais. Entre soluços, Tetê desculpou o marido. 


Na semana seguinte, Aparício de João de Mamede botou-se para a capital. Foi ter com um primo em segundo grau, médico de senhoras. Contou-lhe o que se passava com a esposa Tetê. O primo pediu para examiná-la e marcou a consulta para a semana seguinte. Consulta realizada, o primo, Dr. Amaro José Ferreira Argolo, encaminhou Tetê a um especialista, que iniciou o tratamento. Ao cabo de cinco meses, Tetê deixou de ter cara de cobra. Os cílios e as sobrancelhas voltaram. Voltaram também a alta estima e o sorriso. Estava feliz de novo. 


Igualmente feliz da vida com o retorno da felicidade da esposa, Aparício deu-se conta, dali a pouco tempo, que seria pai outra vez. E, mais uma vez, pai de gêmeos. Se Tetê não tinha a aparência de cara de cobra, com certeza tinha parentesco com os preás, bichinhos que sabiam fazer filhotes aos montes. O amor de Tetê e Aparício reluzia como ouro. Amor que, um dia, um dia só, balançou, mas não caiu.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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