19 de novembro de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 16/11/2018 às 22h48

MARGARIDA E ADALBERTO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

“Areia / Ô areia, meu bem, areia / Areia / Areia do Maruim / Areia / Quem não gosta de areia / Areia / Também não gosta de mim”. Margarida de Sá Josefa Gorda cantava no quintal da casa, debaixo da copa frondosa de uma jaqueira. As melhores jacas duras das redondezas eram tiradas daquela jaqueira. Os bagos eram favos de mel. Deba de Iolanda era o comprador vezeiro da safra anual. Vendia-se toda a safra de uma vez, quando as jacas mal e mal tomavam corpo. Fazia-se um cálculo de quantas jacas seriam e, então, eis o negócio fechado. Acertava-se um número certo de jacas para a dona da casa fazer uso. Normalmente, eram dez jacas por safra. E as safras rendiam um bom dinheiro, para Sá Josefa e, mais ainda, para o comprador/atravessador, que revendia as jacas nas feiras.


Pelo menos umas duas ou três jacas eram para Sá Josefa fazer doce. Ah, o doce de jaca de Sá Josefa Gorda era uma guloseima de encher a boca d’água! Comer daquele doce era desfrutar de um manjar dos deuses. O bago consistente, apesar do cozimento, o caldo como se fosse mel de abelha, ou mel de furo, amarelinho de dar gosto. A calda do doce era bem melosa, grossa, que, tirados os bagos, no fundo da tigela ou do pires, conforme fosse, colocava-se um punhado de farinha de mandioca, bem fininha, e aí era só complementar o manjar. Depois, passados uns cinco minutos, para bem saborear o doce, bebia-se um caneco d’água de moringa, ventilada na janela do oitão. Ah, delícia! Ah, gostosura de arrasar mundos! 


Margarida tinha dezesseis anos. Tinha o porte elegante e era uma mocinha muito bonita. Cabelos e olhos negros, pele morena curtida pelo sol sergipano. Os negros cabelos desciam até o meio das costas. A mãe, Gracinha, filha de Sá Josefa, morreu logo após o parto da única filha. O pai, Antônio Ambrósio, músico, aboletou-se para São Paulo. Nos primeiros meses, mandou cartas e alguma quantia em dinheiro. Depois, nunca mais deu notícias. Sá Josefa tinha mudado de casa, da periferia para o quase centro da cidade. Cartas podiam muito bem ter voltado. 


Sá Josefa Gorda era pensionista do falecido marido, ‘seu’ Janjão Faisqueiro, que trabalhava nas estradas de rodagem do estado. Aposentou-se e morreu uns poucos anos depois da aposentadoria. Tinha ele lá um chiado no peito, que foi se agravando até a morte. Além dos níqueis da pensão, Sá Josefa tirava uns trocados nos bordados de ponta de cruz e ponto de marca, muito apreciados.


A avó de Margarida tinha pela neta os cuidados que somente os tinham as melhores mães do mundo. A neta era a vida, por assim dizer, de Sá Josefa Gorda. Era o seu encanto. De tudo, em ordem de pobre, a avó provinha a bela neta, que, dia a dia, tornava-se mais bela. Negócio de namoricos? Não. Ainda não passava pela cabeça ajuizada de Margarida. Vivia para os estudos, para os bordados que a avó lhe ensinou, para a Igreja, em cujo coro cantava com voz de sabiá laranjeira, e para viver feliz ao lado da mãe de criação. Avó, mãe, amiga, confidente. Assim era Sá Josefa para Margarida.


Festa da Padroeira da cidade. Festa afamada em todo o estado. Penitentes de várias cidades acorriam à cidade, em setembro, para pagar promessas, pedir graças, louvar a Deus. O padre Miguel esmerava-se nos festejos com o apoio da comunidade. Não era raro aparecerem pessoas de outros estados. Às vezes, eram filhos da terra que debandaram para São Paulo ou Rio de Janeiro em busca de melhores condições de vida, ou de menos padecimentos. Outras vezes, eram descendentes de pessoas da cidade que migraram para longe e seus filhos ou netos queriam conhecer a terra de seus ascendentes ou encontrar familiares, que, muitas vezes, nem os conheciam. 


Na Pensão Comercial, na Praça Marechal Deodoro, um moço bem composto fez pousada. Queria conhecer a terra de seu pai, que, a bem da verdade, ele não conhecia. Quem sabe, encontrá-lo, ou descobrir parentes. Tudo o que ele sabia era que a mãe tinha engravidado de um rapaz daquela cidade, que ela o conheceu numa festa na cidade vizinha, terra de usinas de açúcar. Grávida de um estranho, a moça foi mandada para São Paulo, para a casa de uma irmã, a fim de encobrir a vergonha da família desonrada. Logo, o moço não tinha nenhuma referência do pai ou de sua família. Sabia apenas, por confissão da mãe, que ele, o pai, era daquela cidade. Nome? Ela só sabia que era Antônio.


Na última noite do Setenário, pois os festejos da Padroeira duravam sete noites, representando as sete espadas de dores que trespassaram o coração da Mãe de Jesus, Margarida encantou a todos os presentes na celebração, entoando um solo da Ave-Maria de Charles Gounod. Bela como as morenas de Sião, vestida de branco, vestido com detalhes bordados à mão pela avó. Um laço de fita azul nos cabelos, a cor de Nossa Senhora. A voz parecia descer dos céus. Uma princesa. Uma santa? Parecida. Sem dúvida.
Os fiéis encantaram-se. Lágrimas foram vertidas. E não forma poucas. 


Na saída da igreja, o moço hospedado na Pensão Comercial aproximou-se de Margarida e de sua avó. Cumprimentou-as. Disse da emoção que a mocinha lhe causou. E do encanto por tão sublime voz. Moço fino, educado, bem apessoado, avaliou Sá Josefa. Adalberto, o moço, e Margarida trocaram ligeiros olhares. Discretos sorrisos. O convite para um café na tarde seguinte foi de pronto aceito pelo moço. 


Adalberto tinha 23 anos. Acabou de formar-se em Direito. Estava no escritório de advocacia de um de seus professores da USP. Solteiríssimo. Começo de namoro. Margarida só tinha 16 anos. Sá Josefa ponderou que um moço distinto de São Paulo devia ter muitas pretendentes. A sua neta não passava de uma menina, de um botão de flor em pleno ato de desabrochar. Adalberto comprometeu-se em vir à cidade a cada seis meses até que chegasse o momento de casar. Margarida e moço paulista apaixonaram-se. Amor à primeira vista como diziam as alcoviteiras do passado. 


O namoro transcorreu por meio de cartas, que iam e vinham todas as semanas. Seis meses depois, Adalberto voltou. Ainda mais apessoado. E Margarida ainda mais bela. Inveja inocente das amiguinhas dela. O casal de pombinhos parecia verdadeiramente apaixonado. Mas, o jovem advogado também ansiava por notícias da família de seu pai. Andou fuçando daqui e dali. A cozinheira da Pensão Comercial soube do caso do moço. Aproximou-se. O rapaz lhe dera pistas. Ela era da cidade da mãe de Adalberto, ali vizinha. Conheceu a mãe dele. Foram amigas na infância. Lembrava muito bem do rapaz que namorou com Cecília, a mãe do moço, naquela festa de 2 de fevereiro. Daí a gravidez. O pai de Adalberto contraiu matrimônio com uma moça que morreu após o parto. Depois, Antônio Ambrósio, tocador de violão, foi para São Paulo. A mulher nada mais disse. 


Adalberto estava feliz. Noite de lua cheia. Brisa fresca soprando. Ao chegar à casa da namorada, o jovem advogado estava saltitante. Ansioso para dar a notícia de que tinha pistas seguras de quem era o seu pai. “Ele se chama Antônio Ambrósio, um violonista”, disse ele em conversa com a namorada e sua avó. As duas se entreolharam. “Você tem certeza, disso?”, indagou Sá Josefa. Antônio Ambrósio era o pai de Margarida, que se mudou para São Paulo tão logo a mãe dela faleceu. Adalberto e Margarida eram meio irmãos. Em princípio, pranto, desolação. Mas, lágrimas que rolam, secam, escorrendo pelo rosto. 


Meses depois, Adalberto localizou o pai em São Paulo. Músico famoso. Continuava sem família. No Natal de 1966, Adalberto e Antônio Ambrósio bateram à porta de Sá Josefa Gorda e Margarida. Esta perdeu o namorado, mas ganhou irmão e pai.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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