11 de junho de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 09/06/2018 às 22h58

FRANCISQUINHA AMARGOSA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Proferida a oração após a comunhão, o padre Zequinha Limoeiro indagou se tinha algum aniversariante presente. Silêncio por uns vinte segundos. Depois, uma senhora levantou a mão direita e disse: “Eu!”. O padre a convidou para achegar-se à frente do presbitério. A senhora caminhou com extrema desenvoltura, toda serelepe. “Quantos anos?”, perguntou o padre. E ela, para espanto dos fiéis: “Noventa e um, padre!”. O padre Limoeiro arregalou os olhos: “O quê?”. Pois então. A “veinha” tinha noventa e um anos, embora a aparência não lhe desse mais de setenta e uns. Aí, o padre, que era brincalhão, soltou essa: “Estão vendo, vocês ‘veinhas’, que têm setenta, setenta e alguns anos? Mirem-se no exemplo desta aqui. Vejam se ela parece ter noventa e um anos! Mas, vocês, estão descachimbadas com sessenta e tantos, setenta e alguns etc.”. Muitas gargalhadas. 


Muito bem. Aquela senhora de noventa e um anos, que, olhe lá, aparentava uns setenta e tantos anos, se muito, era Francisquinha Amargosa. Amargosa era o seu sobrenome de papel passado em cartório. Nome de família. Ela descendia de Pedro Fonseca do Pinho Amargosa, antigo mestre de reisado, que por muito tempo pisoteou o chão de Sergipe com seus folguedos. 


Aquela “veinha” nonagenária era viúva. Viúva de Aristides Porto, seu primeiro marido. De Bernardo Peixoto, aparentado das antigas de um certo padre Peixoto, metido em cantorias de música igrejeira. De Marcolino Borborema. E de Juvêncio Antonelli, neto de italianos, que aportaram no estado na década de 1930. 


Como se vê, a “veinha” era fogo na canjica. Quatro casamentos. Quatro defuntos. Quatro estados de viuvez. O primeiro marido, Aristides, comerciante de calçados, morreu dez anos e meio após o casamento, sem deixar filhos. Fora atropelado por uma lambreta numa boquinha de noite. Francisquinha Amargosa amargou a primeira viuvez. Não se passaram dois anos, e eis que ela foi desposada por Bernardo Peixoto, sitiante de Itabaiana, vendedor no atacado de cebolas e outros aparentados. Este, coitado, não durou um ano. Bateu a caçoleta uns dez meses depois de casado. Uma cobra venenosa lhe tirou a vida. 


Àquela altura, Francisquinha já estava bem arranchada de bens. Os dois maridos lhe deixaram um bom pé de meia. Continuava viúva sem filhos. Francisquinha era devota de Santo Antônio. Apegadíssima ao santo casamenteiro, não colocou a sua imagem de cabeça para baixo numa bacia ou pote d’água. Não o fizera antes e não o faria depois da segunda viuvez. Parecia sossegada. Mas, um dia, doze anos se passavam da última viuvez, lhe apareceu Marcolino, paraibano das bandas da Serra da Borborema. Oficial da Marinha de Guerra. A duplamente viúva não resistiu aos encantos da farda branca, nem ao hino do marinheiro, o Cisne Branco. E qual cisne branco em noite de lua, Marcolino, digo, o tenente Marcolino levou, pela terceira vez, Francisquinha ao altar. Todo o agrupamento da Capitania dos Portos compareceu em traje de galã. Uma belezura de casamento. E que festa para os convidados! Foram três anos de amor infinito. E infinito foi enquanto durou. Uma tempestade numa noite assombrosa de trovões e relâmpagos, de mar encrespado, fez naufragar a corveta Almirante Barão do Bom Retiro e foi-se para as águas profundas o oficial Marcolino Borborema. Terceira viuvez. 


O tempo foi passando. Francisquinha não tinha filhos. Nenhum dos três maridos lhe dera um filho. Ela estava, então, quando da terceira viuvez, beirando os quarenta anos de idade. Ainda pronta para esquentar um leito. E foi então que lhe apareceu o “italiano” Juvêncio Antonelli. Um construtor. Um olho no olho numa recepção no Palácio do Governo. Francisquinha era amiga da primeira-dama, sua antiga vizinha nos tempos de moças. Triscou. Faísca, fumaça e fogo. O quarto casamento. O “italiano” Antonelli meteu-se a construir bangalôs na capital. Ganhou um dinheirão. Andava lá pela casa dos cinquenta anos. Num inverno friorento e chuvoso, ele apanhou uma gripe. Mal curada, virou uma broncopneumonia. E bateu as botas. Foi-se lá para a morada de pés juntos. Francisquinha viúva pela quarta vez. A partir dali, os homens afastaram-se dela. “Essa muié tem dentro dela uma maldição. Os maridos vêm e vão. Num aguentam o rojão dela”, dizia o sacristão Benvindo Mendonça. Igrejeira, devota de Santo Antônio, viúva cada vez mais aquinhoada. Cada marido deixou-lhe uma boa soma de dinheiro e de bens imóveis. Passou-se a dizer que ela era a viúva mais endinheirada da capital. E por que não dizer, do estado. Um partidão. Porém, ninguém mais se atreveu a arrastar asas para Francisquinha Amargosa. “Fique ela lá com toda a amargura do mundo!”, disse, um dia, Margarida, mãe do sacristão Benvindo. Aliás, uma faladeira da desgraça, que tecia e bordava na língua a vida alheia. 


Naquela tarde de quinta-feira, o padre Zezinho Limoeiro, após a bênção final, brincou, ainda uma vez, com as “veinhas” da Matriz: “Veja lá se uma de vocês arranja um marido para Francisquinha. Ela não pode morrer sozinha”. Ana Pereira, ministra da Sagrada Comunhão, adiantou-se: “Só se for ‘seu’ Maneca Gordo. Ele tá viúvo de novo e doidinho pra casar”. Gargalhada geral. 


Um belo dia, passadas umas três semanas desde aquela Missa, naquela quinta-feira, Francisquinha apareceu na igreja de braço dado com o tal Maneca Gordo. Pois não era que estavam de namoro? Os amigos dele lhe davam conselhos para cair fora das garras de Francisquinha Amargosa, viúva pela quarta vez: “Tu, home de Deus, num caia na desgraça de casar com essa muié. Ela já deu conta de quatro maridos. E tu vai ser o quinto. Ela é capaz de te mandar pros quintos dos infernos”. Maneca Gordo tinha oitenta e nove anos, dois a menos que Francisquinha. Estava firme, tanto quanto ela aparentava. Viúvo, pai de cinco filhos, avô de treze netos e bisavô de duas bisnetinhas. Aposentado do fisco estadual. Ganhava bem. E bem vivia. Casaram-se. A prolongada viuvez de Francisquinha foi-se pro beleléu. 


Domingo. Tinham se passado dois anos desde que Maneca Gordo e Francsiquinha Amargosa tinham se dado em matrimônio. Ela acordou cedo, como sempre. Ainda estava senhora de si. A empregada Julieta, que morava com ela há mais de trinta anos, já tinha preparado o café. Francsiquinha voltou ao quarto para chamar Maneca. Iriam à Missa. Chamou-o. Nada. Tornou a chamar. Nada. Ela mexeu no braço dele, que estava todo coberto. Nada. Então, puxou o lençol do rosto. Ele estava de olhos esbugalhados e boca aberta. Morto. Ela deu um grito. Logo, acudiu-lhe Julieta. Foi quando Maneca Gordo soltou uma estrepitosa gargalhada e disse: “Tu pensou, minha nêga, que eu tinha embarcado? E eu sou lá frouxo como os teus maridos anteriores? Eu me chamo Manuel Ventura de Azevedo Pinto. Não vou com uma nem duas”. O desgraçado estava vivo e feliz como pinto no lixo. 


O certo foi que eles viveram ainda muito tempo juntos, uns cinco ou seis anos. Todavia, Maneca Gordo foi primeiro do que ela. E Francisquinha Amargosa dobraria a casa dos cem anos.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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