27 de fevereiro de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 24/02/2018 às 15h04

GABRIEL DE ZÉ REIMUNDO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Raimundo de Azevedo era o maior amansador de burros e cavalos brabos dos costados da Serra da Marcação aos brejos do Alagadiço dos Marmeleiros. E não era pouca extensão de terras por onde a fama de José Raimundo era cantada e decantada. Na boca do povo, Raimundo virava Reimundo. Era Zé Reimundo. Gabriel era o filho mais novo e herdeiro na arte de amansar burros e cavalos brabos. Um meninote. Não tinha completado quinze anos de idade e já era quase igual ao pai no pinotear sobre o lombo de burros e cavalos carentes de rédea curta e de passadas em apropriada marcha a depender do tipo de animal e de sua pretendida serventia. De corpo e tino, Gabriel era um homem. Moreno trigueiro, sisudo, começando a formar um pezinho de meia. Tinha até algum estudo. Fraco, mas tinha. Era capaz de ler e escrever uma carta. 


Gabriel de Zé Reimundo foi adjutorar o pai lá pras bandas do Xique-xique, lugarejo acanhado de pouco mais de quinze casas que mal e mal se conservavam de pé. Uma chuva mais pesada daquelas de invernos copiosos haveria de botar tudo abaixo. Casebres do tipo testa de bode, de duas águas, frente e fundo triangulares, eram o que, na verdade, eram aquelas pobres casas. Meninos lombriguentos, sujos, pareciam guarnecer a entrada do pequeno e disforme arruado. Pernas finas como canelas de sabiá, mal sustentando as salientes barrigas cheias de vermes. Olhinhos remelentos, rodeados por mosquitos. 


Zé Reimundo e Gabriel entraram no arruado miserável, cheios de espanto. Nunca tinham se botado para aquelas paragens. Um tal de Peixotão de Brotas, fora em busca dos prestimosos serviços do pai e do filho, para amansar um magote de cavalos xucros, segundo ele adquiridos nas Porteirinhas, cidade distante umas seis ou sete léguas. Peixotão deixou nas mãos de Zé Reimundo uma parte do dinheiro combinado, como garantia de sua presença no dia aprazado. E ali estavam pai e filho, prontos para o serviço.


No batente de um casebre estava um velho magro, descamisado, de barbas longas e brancas. “Deus lhe dê bons dias, meu amo”, saudou Zé Reimundo. “Nosso Sinhô lhe dê o mesmo, meu fio”. O velho atirou no terreiro uma cusparada, grossa, escura, sinal de que ele mascava fumo de rolo, e que uma galinha pedrês tratou logo de aproveitar como repasto. “O meu amo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão?”, indagou Zé Reimundo. “Aqui todo mundo sabe onde fica a fazenda de ‘seu’ Peixotão de Felismino. Descendo aquela ladeira acolá, num tem errada. Vosmecê vai de trote por meia légua. Na bifurcação do riacho é só quebrar à direita e logo está lá. Fazendão, meu fio. Fazendão, que dá serviço e sustento a essa gente toda daqui”, explanou o velho. 


O amansador de animais de montaria agradeceu ao velho e jogou em sua direção um bom pedaço de tabaco, que ele aparou com a mão direita em pleno ar. “Deus lhe pague e lhe favoreça!”, gritou o velho. Zé Reimundo e Gabriel tocaram os animais, dois bons cavalos de passada, um alazão e um castanho escuro, ao rumo indicado. Era tempo de terra engolindo poças d’água. Fim de inverno. Ao alcance da vista, em qualquer direção, tudo estava verde. Matos, roças e capinzais. Nos roçados, mulheres e meninos. Homens, nenhuns. O velho mascador de tabaco estaria certo: os homens provavelmente trabalhavam para o tal Peixotão de Felismino. 


Pai e filho chegaram à bifurcação do riacho, logo depois de descerem a ladeira. O riacho estava com água à altura do vazio dos animais. Água cristalina, murmurante, descendo ligeira como se tivesse pressa para chegar ao destino final, um rio, que a levaria, misturada, ao mar. Adiante, via-se, num pequeno elevado, uma sede de fazenda de arromba. A casa grande ao centro, um curral há poucos metros, coberto, com dois troncos para os bois, quatro casas menores, que deveriam ser para a moradia de capatazes ou vaqueiros. Um pomar ao fundo da casa grande. Outro curral sem cobertura em forma circular, como se fosse uma arena. Ao lado das três casas menores, uma construção que parecia ser uma serraria ou algo do tipo. Pastos de capim viçoso. Muitos. Bois que pareciam centenas de manchas brancas contrastando com o verde viçoso do capim. Bois por todos os lados. Num pasto separado, alguns cavalos. Uns vinte, pouco mais ou menos. Deveriam ser os xucros. Trabalho não faltaria para Zé Reimundo e Gabriel. 


Apeando do cavalo, Zé Reimundo dirigiu-se a um sujeitinho metido numa camisa encardida que cabia dois dele. “Bons dias, amigo. ‘Seu’ Peixotão se acha?”. O sujeitinho respondeu: “Quem procura pelo patrão?”. O amansador levantou um pouco o chapéu e disse: “É Zé Reimundo, o amansador de cavalos. Sou contratado dele”. O sujeitinho demandou em direção à casa grande. Mais do que logo, ali estava Peixotão de Felismino. Sujeito espaduado, alto, de barba cerrada, cara fechada, que, logo, se abriu num sorriso de cabra bonachão. “Salve, ‘seu’ Zé Reimundo. O dia aprazado por nós é hoje. Homem de trato é do que eu gosto. Seja bem-vindo ao meu pobre rancho!”. Pobre rancho...! Além de bonachão, era gozador. Deram-se as mãos. “Pelo visto, temos trabalho pela frente, ‘seu’ Peixotão. Mas, tamos prontos”, disse Zé Reimundo.


Gabriel também apeou. Cumprimentou Peixotão com um tímido “Bom dia”. Ao cumprimentá-lo, eis que assomou à porta da casa grande uma menina, mais ou menos de sua idade. Uma formosura. Na cabeça parecia carregar um pedaço da noite. Cabelos muito negros, lisos e compridos até a cintura. Mas, os olhos pareciam duas esmeraldas. Ela veio até o pai, que a apresentou aos dois amansadores. “Minha filha, Regina Celi. Minha única filha. É quem me dá ordens”, informou sorrindo. “Prazer. Brincadeira do pai. Vocês vieram amansar os cavalos, não foi? Tão vendo aquele preto, grandão, de crinas compridas? É o Furacão. É meu. Eu quero que ele seja o primeiro a ser domado”. 


Gabriel, calado, olhou para o lado do curral onde estavam os cavalos. Olhou para a mocinha. “Deixe, dona, que eu mesmo vou amansar ele pra senhora. Vou amansar do jeito que uma moça como a senhora possa montar sem perigo”. Ela sorriu. Ele também. Dois sorrisos que falavam sem dizer palavra. Foi um dia de trabalho intenso para pai e filho. À noite, diferente do almoço, que foi servido numa casinhola asseada, à beira do curral, onde ficariam alojados, jantaram na casa grande. Grande mesmo. Olhares se cruzaram por sobre a mesa grande e farta. Cruzaram-se um sem-número de vezes. A esposa de Peixotão, Dona Clotildes, incitava os convidados a comerem mais. Comida abundante e gostosa. 


Na noite enluarada e fresca, as estrelas pareciam se enturmar no céu. Enquanto Zé Reimundo e Peixotão fumavam e conversavam na varanda, Gabriel sentou-se nos degraus que davam acesso à casa. Ficou olhando o céu. Logo, Regina Celi, sorrateira, acercou-se dele. O coraçãozinho do moço, pequeno matuto amansador de cavalos e burros brabos, destemido desde cedo, deu um pinote, mais outro e muitos outros mais. Parecia Furação pulando e querendo derrubá-lo. O cavalo de Regina Celi, o Furacão grande e negro, ele estava conseguindo domar. Mas, o coraçãozinho de matuto parecia querer saltar da caixa dos peitos. Sem controle. A mocinha disse: “Por que você está tão só?”. Ao dizer aquilo, sentou-se ao lado dele. Se Gabriel não estivesse ficando louco, ele seria capaz de jurar que ouviu o coraçãozinho dela bater também, descompassado como o dele. Noite de estrelas no céu. Noite de estrelas na terra.


PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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