13 de fevereiro de 2018
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 10/02/2018 às 14h00

A beata Maria Benta e o bode rasga saia :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Foi-se o tempo em que as pessoas criavam aninais domésticos soltos nas ruas de Timbira do Alto, cidadezinha pachorrenta, plantada quase na beira do riacho Moleque Saci, que, quando batiam bons invernos, botava cheia desmedida, cobrindo os pés de paus ao redor e em largura de vinte braças de cada lado de suas margens minguadas nos tempos de estio. Criavam de um tudo: porcos, galinhas, patos, galinhas de angola também chamadas de guinés e, na boca dos meninos, chamadas de “tô fraco”. Além disso, carneiros e bodes com suas respectivas fêmeas. Jegues, cavalos e até vacas de leite passeavam morosamente pelas ruas sem calçamento, na poeira ou no lamaçal.


Não era raro uma vaca parida de novo investir contra as pessoas. Nesses casos, normalmente, o delegado era acionado. E a multa era aplicada contra o dono do animal, além de o dito cujo ser retirado da via pública e levado para a coima, que era chamado de “queima”. Era uma cidade de todos e de tudo, a sonolenta Timbira.


Em Timbira do Alto, o padre Américo Vaz de Timbaúba talvez fosse o mais sonolento dos seus habitantes. O velho pároco já passava dos oitenta anos, com quase sessenta de vida sacerdotal e, destes, mais de trinta ali em Timbira. Muitas vezes, enquanto eram lidas as leituras, na missa dominical, o coroinha Toninho Beiço Caído via-se na obrigação de acordar o celebrante, que chegava a roncar em altos brados. Parecia que tinham instalado uma motosserra em seus bofes, que resfolegavam para danar. E o padre era um gozador de mão cheia. Gostava de tirar lérias com as pessoas, fossem quais fossem. Era do tipo que perdia o amigo, mas, não perdia a piada.


Da casa paroquial, uma casa pobre de quatro águas que, quando chovia, brotavam goteiras aos montes, e, por mais que as consertassem, mais os gatos em seus namoros noturnos deslocavam as telhas, gerando novas goteiras, quem cuidava era a beata Maria Benta, donzela casadoira, quehá mais de trinta anos esperava um príncipe encantado. Ora, ora... Naquelas brenhas da boca do sertão não haveria de aparecer nem um barão de título comprado, quanto mais um príncipe encantado ou desencantado. Pobre Maria Benta, que suspirava todas as tardes na janela da varanda, pintada de verde, o verde da esperança que ela não se cansava de esperar! Orações, ladainhas e promessas a Santo Antônio não faltavam. Até a imagem do santo casamenteiro ela já tinha mergulhado de cabeça para baixo no pote d’água, uma ruma de vezes. Sem efeito. Não havia jeito para Maria Benta desencalhar. As irmãs já eram avós. E eram seis. As primas, também. De toda a família Guedes


Rocha só Maria Benta ficara para titia. Ao menos até aquela data em que o padre Américo quase bateu a caçoleta.


Foi numa tarde de quarta-feira. Após o almoço, o padre, como de costume, estendera-se na rede do alpendre, no fundo da casa. A fresca do prenúncio do inverno logo o fizera botar para funcionar a motosserra dos bofes resfolegantes. No telhado da casa, o carpinteiro Rosalvo Mochila fazia consertos, prevenindo a casa paroquial em face do inverno que não tardaria. Era o mês de maio. Comecinho de maio. E o inverno já tinha perdido o primeiro bonde. De repente, o carpinteiro foi alertado pelo ajudante de que o padre estava com algum problema. E estava mesmo. Parecia engasgado. Pálido como uma folha de papel. Suava mais do que pano de cuscuz. Rosalvo e o ajudante Bibi Canela Seca acudiram o velho padre. Gritaram por socorro. Geraldinho Cabeça de Cabaça, o farmacêutico, que tinha a farmácia ao lado da casa paroquial, logo chegou para prestar o devido socorro. Ajeitaram o padre Américo na rede. Foram feitas massagens no coração. Geraldinho colocou sob a língua do padre um comprimido miudinho. Aos poucos, o padre foi dando cor de si. Melhorou.


O farmacêutico aconselhou o padre a procurar o Dr. Milton, a dez léguas dali. Um médico das antigas, cujos diagnósticos eram infalíveis. Sem exames, a não ser o toque do dedão no corpo do paciente, além do aparelho de auscultar. Aparelho nos ouvidos e nas várias partes do corpo do paciente. Era pau, casca. Pois bem. Onde ficou a beata Maria Benta, nesse chamego da quase subida aos céus do padre Américo Vaz?


Ah, Maria Benta entraria também nesse chamego do padre! Carmita de Chico Fuxico, assim que soube do “morre-não-morre” do padre Américo, botou-se para a casa de Maria Benta. E alarmou: “Corre, Maria Benta, que o padre está morrendo!”. A beata saiu de casa como estava, vestida numa saia surrada, anágua caseira e blusa de malha rasgada no sovaco direito. Correu no sentido literal. A sandália de salto baixo ajudou-a no desembesto. No Beco do Cocô, estava pastando o bode Rasga Saia, caprino inteiro, verdadeiro pai de chiqueiro, useiro e vezeiro em botar as pessoas em espevitada carreira. O bode levantou o focinho, cheirando o ar, como se estivesse farejando a beata.


Após levantar as orelhas, Rasga Saia disparou ao encontro de Maria Benta. A beata, pernas para que as quero. Voltou por onde estava vindo. E o bode atrás, pega-não-pega. Encostado na cerca de Paulo Sujeirinha, havia um pé de pau. Os chifres do bode quase roçavam a saia de Maria Benta. Esta, de um salto, agarrou-se num galho da árvore e ficou pendurada, mas, a pouca altura. Com os chifres, o bode conseguiu alcançar a saia de Maria Benta. Arrancou-lhe um tampo da saia e da anágua. Uma figura hilária se formou: Maria Beata pendurada no galho do pé de pau com um tampo da saia e da anágua nos chifres do bode Rasga Saia. A pobre mulher gritava a plenos pulmões por socorro, e dizia: “Tirem este belzebu daqui!”. Ao longo do Beco do Cocô, uma meninada e também alguns marmanjos gritavam: “O bode quer casar com Maria Benta!”. Ela praguejou. A molecada aproximou-se em grande alarido. O bode espantou-se. Correu atrás de uns meninos. Estes, com garranchos nas mãos, espantavam Rasga Saia. Criou-se um furdunço danado. Naquele instante, o galho quebrou e Maria Benta foi ao chão. A cambada urrava numa algazarra de acordar defunto de mais de século.


Passava da hora da Ave Maria quando Maria Benta, enfim, chegou à casa do padre Américo, que estava bem restabelecido. A beata desculpou-se por não ter chegado a tempo de emprestar os seus préstimos ao sacerdote e contou-lhe o ocorrido com o bode Rasga Saia. Ao ouvir o relato, o padre soltou esta pérola: “Minha querida filha Maria Benta, finalmente você encontrou o seu príncipe encantado. Beijar um bode pode ser melhor do que beijar um sapo”. As poucas pessoas em visita ao padre riram muito. Maria Beata embocou casa adentro.


O que o padre Américo não sabia era que Tião de Onofre Pingo D’Água tinha visto a saia e a anágua de Maria Benta, rasgadas. E pôde ver por debaixo dos panos farto material. Novato na cidade, onde os pais moravam há um lote de anos, e recém- chegado de São Paulo, Tião fez proposta de namoro a Maria Benta, uns cinco dias depois do alvoroço do bode. Proposta aceita. Casamento marcado três meses depois. Foi o último casamento que o padre Américo assistiu. Morreu logo depois. O coração do velho padre pifou de vez. Ena boca do populacho impiedoso o marido de Maria Bentapassou a ser Tião Remenda Saia.


PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE
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