30 de outubro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 29/10/2017 às 00h00

"HOJE, EU TÔ AZEDO" :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Veludo ladrou uma, duas, três vezes. E outras tantas. Era, sem dúvida, um cão de atenta vigilância a despeito de ser um reles vira-lata, um cachorro gué do rabo fino. Fora apanhado na rua, num dia de muita chuva. Naquela quarta-feira, um dilúvio caiu sobre a cidade. Valetas transformadas em riachos. Leonardo Pançudo do finado João de Maria Gaguinha apanhara-o. Era um filhote desnutrido, magrinho de dar dó. Comido por vermes. Uma bactéria devorava-lhe os pelos. Um cãozinho em verdadeira petição de miséria. Medicado, alimentado, curado, Veludo recebeu este nome por causa da cor negra sem mancha. Tornar-se-ia o xodó da casa de Leonardo Pançudo. Até a velha Domitila Coceirinha, avó de Leonardo que morava com a família do neto, e que era muito mais rabugenta do que Veludo, passou a gostar muito do cão que conquistara a família dos Pançudos. Aliás, ser Pançudo era a marca da família do finado João Guedes de Menezes, o João de Maria Gaguinha, sua generosa mãe. 


Pois Veludo ainda ladrou algumas vezes. No interior da casa, todos ficaram de prontidão. Alguém ou alguma coisa Veludo teria visto ou farejado. Era Paulinho Marreco, dos Marrecos do Costado Alto, pra lá das Bananeiras do finado Felismino. Bananeiras era uma fazenda de muitas terras, de muitas pedras e de muitas cobras cascavéis. 


Paulinho Marreco, de batismo Paulo José, e, de certidão civil, Paulo José Loureiro Matoso Guedes, era filho de Matias Marreco e neto de Aristides Marreco. Marreco era, claro, apelido bicentenário da família Loureiro Matoso Guedes, gente dos tempos do Império, aparentada com o Barão da Patioba. 


O que haveria de querer Paulinho Marreco, àquela hora, na boquinha da noite, hora do café noturno, que nas casas dos grã-finos se dizia jantar? Logo se saberia. Veludo fora acalmado por um dos meninos de Leonardo Pançudo, Tibôco Pançudinho, que era o seu apelido. O menino abriu o portão fechado a cadeado. Paulinho Marreco perguntou: “Seu pai taí, meu fio?”. Estava sim. O visitante entrou e dirigiu-se à casa. Ao entrar, sem meias palavras, foi logo dizendo: “Leonardo Pançudo, hoje, eu tô azedo!”. Sem muito entender, indagou Leonardo: “E que bicho lhe mordeu, home de Deus?”. Marreco respondeu: “Pior que não é bicho. É um cabra safado, um fio de uma ronca e fuça, um fio do demo”. 


E foi então que Leonardo Pançudo ficou a par da aflição de Paulinho Marreco. Uma senhora das Bananeiras andou de fuxico com a vizinhança, dizendo que ele, Marreco, andava de cabeça pensa para um lado com o peso dos chifres. Nem casar ele tinha casado e já era corno. Assanhou-se. Azedou-se. E a senhora, uma velhota desdentada, viúva que não tinha o que fazer a não ser lorotar e levantar aleive para desassossegar um cristão, que vivia da sua casa para o seu trabalho. Ora, mas, o que tinha Leonardo Pançudo ou a sua família com os chifres de Paulinho Marreco? É o que os leitores, que, eu bem sei, não estão, nem um tiquinho, curiosos, vão saber. Querendo ou não, vão saber. 


Antes, porém, de revelar esse negócio dos chifres do Marreco, eis que é preciso esclarecer o seguinte: Paulinho Marreco estava de namoro com uma filha de Aloísio Mão de Pilão, do Catolé de Baixo, sujeito afamado pelo murro certo e demolidor, no tempo em que morou em São Paulo e lutou boxe amador. Só não fez carreira porque o pai morreu e ele teve que voltar ao sertão, para cuidar da mãe e dos irmãos menores, que eram apenas doze, todos de cobrir com um cesto. Era uma fileira de buchudinhos. Ocorre que ele, Paulinho Marreco, era um cabra de seus quase trinta anos, e a menina com quem ele namorava, com o consentimento de Mão de Pilão não passava dos treze anos. Casamento, na versão dura do pai da menina, somente quando ela tivesse idade para casar no civil, que filha dele, Aloísio do finado Martônio Pereira Lemos, outro aparentado do Barão, não sairia de casa sem documento passado na Igreja e no cartório. 


Retornando ao assunto dos chifres de Paulinho Marreco, a velha Deolinda do falecido Cassiano Ferreira, funileiro dos melhores que o sertão já vira, e não somente o sertão, mas, quem o sabia, o mundo inteiro, andara de bocarra aberta, e ainda mais aberta porque não tinha lá de seu um só dente, alardeando que a menina Creuzinha, na inocência dos seus treze anos, enfeitava a testa do Marreco. Santo Deus! O aleive chegara ao umbral da janela do oitão da casa da família dos Marrecos. Dona Crisolina, a mãe dos Marrecos, sabedora por um vento que lhe tinha soprado aos ouvidos, chamou o filho às falas: “Andam dizendo por aí, meu fio, que a sua pretendida tem lhe enfeitado a testa”. Paulinho deu um pinote: “O que é isso, minha santa mãezinha?”. A mãe respondeu: “Cheias estão as estradas dessa conversa desaforada. Dizem que a menina tá de xodó com um boneco qualquer”. 


Paulinho Marreco danou-se. Tiraria aquela conversa a limpo. Seria capaz de fazer uma besteira. Levar chifres de uma meninota? E, ainda por cima, com um boneco? Boneco, no sertão daqueles tempos, era como se chamava um sujeito grã-fino, fatiotado, sujeito dengoso e criado com mimos de avó. A velha Deolinda dissera que a mulher de Leonardo Pançudo era a alcoviteira da menina Creuzinha naquela história com o boneco. Daí foi que Paulinho Marreco bateu à porta dos Pançudos. Queria tirar aquela história a limpo. 


Dona Risoleta, a mulher de Leonardo, ao ouvir a lenga-lenga do Marreco, adiantou-se: “É bem verdade que Creuzinha está doidinha pelo boneco. E também é bem verdade que fui eu quem lhe apresentei ao tal”. Paulinho Marreco amarelou. Depois, afogueou-se. Ficou abrasado. Um fogaréu ardeu dentro de si. Procurou chão e não encontrou. Pensou besteiras. Ali mesmo, ele seria capaz de um desatino. Pensou logo em João Pedro de Robertão do Baixio Largo, primo de Dona Risoleta, menino mimado, cheio da grana, metido a conquistador de mocinhas, cuja avó materna, Dona Elvirinha Mecenas, antiga proprietária do engenho Porteiras, o cobria de mimos e dinheiro, coisa que não lhe faltava. Paulinho Marreco quis dizer alguma coisa, mas não teve voz. Um nó na garganta o sufocava. Uma morte, duas mortes... Sabia-se lá! 


Diante do quadro vexatório pelo qual passava Paulinho Marreco, Dona Risoleta perguntou: “Ô, meu filho, você já viu o boneco que eu dei a Creuzinha? Você sabe qual foi o nome que ela lhe deu? Você vive pelo mundo, tangendo tropas de burros, para cima e para baixo. Quantas vezes por semana você vê sua namorada? Tome tento, homem de Deus! Ao boneco de pano do tamanho de um menino recém-nascido, que eu fiz para Creuzinha, ela botou o seu nome. É Paulinho. Como você vive pelo mundo e se esquece de ver a menina com quem você, um dia, pretende casar, as pessoas vivem dizendo de brincadeira que ela arranjou outro Paulinho. É só isso. Se Dona Deolinda, que tem a boca maior do que a boca da noite, vive por aí dizendo lorotas, o problema é dela”. 


Paulinho Marreco viu-se constrangido ao ter que limpar duas lágrimas, que lhe caíam dos olhos. Melhor prosa ele não poderia ouvir naquela boquinha de noite. Então, era aquilo? Ele não era um chifrudo? Creuzinha sentia a sua falta a ponto de buscar um substituto, um boneco de pano? E ainda por cima, dando o seu próprio nome? Aquilo de Creuzinha só podia ser bem-querer. Amizade sem fim. Ou, como diziam por lá, amor. 


Ele beijou a mão de Dona Risoleta. Pediu desculpas à família dos Pançudos. E foi direto à casa de Aloísio Mão de Pilão, pai de Creuzinha, sua namorada. Naquela mesma noite, Paulinho Marreco e Creuzinha noivaram. 


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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