04 de setembro de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 02/09/2017 às 00h00

O PREFEITO POPÓ TOMATE :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


O prefeito Porfírio Canuto de Medeiros e Silva, vulgo Popó Tomate, cabra avermelhado tal e qual um tomate maduro, conseguira, com um deputado federal, uma “máquina de abrir estrada”, como ele dizia. Ora, não era pouca coisa, na década de 1960. E para um município de não mais do que cinco mil habitantes, era um estrondo. Municípios muito maiores, ao redor de léguas, não tinham uma bichona daquela. Uma geringonça danada de grande e barulhenta. O deputado Chico Queixada era compadre de Popó Tomate. E, antes, o prefeito fora seu capataz na fazenda “Flor de Alecrim”, um mundaréu de terras de perder de vista, lá pras bandas do sertão das Aguilhadas. 


Popó Tomate tinha também seus bons beiços de terra. Vereador em cinco legislaturas, vice-prefeito e prefeito. Em breve, sairia para deputado estadual com o apoio do compadre e ex-patrão. Contava aí uns sessenta e poucos anos de estrada. Tortuosa estrada para uma vida não menos tortuosa. Tempo houve em que Popó Tomate foi homem de pistola e punhal, como seu pai, Terêncio de Medeiros e Silva, Terencinho de Tibúrcio, e seu avô, Tibúrcio de Medeiros e Silva, que atendia pela alcunha de Tibúrcio Morte Certa. Tempo passado. Tempo das tocaias, dos ajustes de contas, da mão forte e endiabrada, ditando leis à base do pau de cuspir fogo. Tempo em que os trabucos incendiaram o sertão. Tempo distante. Para alguns, tempo esquecido.


Popó Tomate, a muito custo, tornou-se um homem civilizado. Até missa ele assistia todos os domingos. Regenerado. E era com fervor que ele dobrava os joelhos diante do Santíssimo Sacramento. Com fervor e arrependimento. Os padres podiam contar com ele, nas precisões da Matriz. Era um sujeito dado a servir ao povo, aos mais pequeninos, aos judiados pela vida. Naquilo, naquela serventia popular, ninguém poderia lhe pôr um olhar de soslaio em desaprovação. E não servia apenas com o dinheiro dos cofres públicos, não. Quando era preciso, metia a mão no bolso, onde não se escondia nenhuma cascavel, como era o caso do seu opositor, Fabrício Guedes, que era mão de figa. Dona Senhorinha, a primeira-dama, reclamava que o marido haveria de morrer sem eira nem beira. Exagero. Ele tinha bens de sobra, como remediado, para deixar em inventário e confusão. 


O prefeito de Cipó de Miroró não cabia em si de tão contente. Uma máquina! O compadre deputado federal, antigo patrão, dera-lhe um adjutório de fazer inveja aos prefeitos de Lagoa Seca e Pastos Novos, Valdemar Nanico e Melquíades do Boqueirão. Cidades grandes. Ainda assim, ele, Popó Tomate, botou-os no chinelo. A patrol chegaria dentro de uma semana. Bichona taluda. Parecia um esqueleto de alguma coisa braba, fornida no ferro. O deputado mandara um folheto com a cara da bichona estampada. O folheto correu os bares e as ruas. Passou de mão em mão entre os feirantes. Um sucesso. Haveria de ser um papouco danado. Festa. Festança. A banda de pífan
os de Maneca Zureinha já estava contratada. Melhor não havia nas redondezas. Foguetório. Haveria muitos foguetes espoucando nos ares. Foguetes de três tiros e uma resposta, que era o tiro mais forte, o derradeiro. Um ribombar de estremecer o céu.


O equipamento a ser recebido merecia festa. O compadre deputado merecia festa. A cidade merecia festa. No sertão inteiro não havia uma bichona daquela. Somente em Cipó de Miroró. Haveria um acompanhamento com os poucos carros, jipes e rurais, existentes na cidade, menos o de Fabrício Guedes, opositor do prefeito, e três outros de seus lambe-botas. Cavaleiros à vontade. Bicicletas, muitas. Um furdunço, um furdunço! As ruas estavam enfeitadas com bandeirolas como se fosse São João. 


E eis que, no dia aprazado, a “máquina de abrir estrada” chegou. Amarelona. Grandona. Bufando mais do que a serra da serraria de Marcelo Palito. Muito, muito mais. Ao volante, o próprio Popó Tomate, que tomara lições na capital, na revendedora da Caterpillar. Lâmina levantada, lá vinha a patrol de Popó Tomate. Ele vivia o dia mais feliz de sua vida como prefeito. O deputado Francisco Rodrigues de Melo Prado, o Chico Queixada, não pudera comparecer à festa. Brasília pegava fogo e ele precisava estar por lá. O presidente da República tinha sido botado para correr do país. Uma lástima! Os militares tomaram o poder de assalto. A panela fervia. O mundo da política estaria incerto, mas Popó Tomate estava alheio a tudo aquilo. A sua imensa alegria contagiava a cidade. O vereador Robertinho Beiço Mole torceu a cara, assim que Popó Tomate e seu séquito passaram em frente ao seu bar. Robertinho era o líder da oposição na Câmara Municipal, embora fosse concunhado do prefeito. Um familiar desviado. 


Passando em frente à casa de Maria Benta do finado Brício Matoso, a velha gritou a plenos pulmões: “Ô Popó, meu fio, tu tá mais alegre do pinto no lixo!”. A fala da velha, fiel eleitora do prefeito, soou como um tiro de escopeta que nunca fora disparado. Naquele instante, Popó Tomate tombou sobre o volante da bichona. A patrol desgovernou-se, fez um zigue-zague, andou uns poucos metros, deu uns “tuncos” e parou. Popó Tomate estava morto. O coração não aguentou o rojão de tamanha alegria.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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