26 de junho de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 23/06/2017 às 00h00

GULOSEIMAS DE SÃO JOÃO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Zuleica de Timóteo Meia Garrafa era uma doceira afamada em toda a região do Brejão de Cima ao Catolé de Dentro, uma extensão de doze léguas ou mais. Ela dava feira em três cidades, no sábado, no domingo e na segunda-feira. Além disso, vendia guloseimas no dia a dia, em casa. Na janela de largo batente cimentado, vários frascos: cocada branca e preta, pés de moleque, bolinhos de ovos, saquarema (bolachinha de goma), manauê de milho, de arroz e de macaxeira. Os pedaços destes últimos, todos cortados na mesma régua. Iguaiszinhos. Que talho perfeito tinha Zuleica!


O marido, Timóteo Meia Garrafa, era, por assim dizer, o gerente da doceria. Sujeito miúdo, que se esqueceu de crescer, daí o apelido de Meia Garrafa. Porém, meio azougado. Meio? Azougado todo, ele era. Nunca se registrava que Meia Garrafa tivesse puxado um bate-boca, uma briga, um furdunço. Não! Sujeito de paz, que, todavia, virava uma cascavel choca se lhe pisassem nos calos. Então, quem não se lembrava do labafero no qual ele se meteu contra uns cabras do Capim do Boi, na feira do Sapé? Era por volta do meio dia, quando chegaram à banca da doceira Zuleica três rapazes, querendo comprar manauê de milho. As duas formas rasas e largas de alumínio já tinham ido embora. Assim mesmo eram os doces de Zuleica. Não demoravam na banca. Freguesias certas, encomendas entregues logo cedo. 


Aqueles três rapazes eram primos, filhos de Zeca Braço Forte e Tonico Bafo de Onça, dois sujeitos encrenqueiros, que criaram os filhos no mesmo ritmo. Homem da raça dos Oliveira Bastos não levava desaforo para casa. Desde pequenos, os meninos eram orientados a nunca apanhar na rua e a jamais chorar. Se apanhassem na rua, apanhariam em casa. Se chorassem, cairiam no cipó caboclo. Pois bem. Os três rapazes não costumavam se contentar com um “não”. Ao ouvirem Zuleica dizer que já tinha acabado o manauê de milho, que eles procuravam, um deles começou a bater a mão com certa violência na tábua da mesa de cedro fornido. Outro deles, aos berros, ameaçou derrubar a cobertura da banca, feita de matéria plástica, como se dizia. O terceiro apenas gargalhava diante da cara de susto de Zuleica. 


Os transeuntes passavam, tirando o corpo de banda. Quem queria se meter, sequer se deter para olhar e ouvir o furdunço ali criado? Passado o susto momentâneo, Zuleica deu garra de uma faca luminosa com boas polegadas de lâmina e gritou: “Bando de moleques, vocês pensam que eu sou dessas que a sua laia bota pra correr? Eu vou cortar os seus possuídos!”. Naquele instante, Timóteo Meia Garrafa, que tinha ido desbeber no fétido banheiro do mercado, acabava de chegar à banca. “O que é isso, Zuleica?”. Nem tempo houve para a resposta da doceira. Um dos rapazes, Pedro Beiço Caído, que tinha lábio leporino, tentou dizer um gracejo. Não teve tempo. Zuleica, que já tinha saído de detrás da banca, agarrou os compadres lá do Beiço Caído e disse: “Seu fio da gota serena, vou cortar seus documentos e dar pro gato comer”. 


A faca luminosa fez réstia no rosto do sujeito, que conseguiu se desvencilhar. Assustado. E não era para menos. Foi quando Meia Garrafa, subindo no tamborete no qual Zuleica tomava assento, acertou uma caçarola nas fuças de um dos três. O sangue desceu. Tingiu a camisa branca. Meia Garrafa tinha-lhe partido as ventas. O atingido era primo dos outros dois, que eram irmãos. Um dos irmãos disse ao outro: “Vá chamar papai!”. Não foi, não. Ao tentar sair, foi alcançado por Timóteo Meia Garrafa, que lhe deu uma caçarolada no baixo ventre. E, dando um pinote, alcançou o terceiro na boca do estômago. Em suma, Meia Garrafa deu nos três. Aí, sim, juntou gente. Meia Garrafa foi aplaudido. E ainda ouviu o seu apelido gritado por várias bocas.  


Alguém chamou a polícia. O quartel era bem próximo. Chegaram o sargento Lauro Cicatriz e dois soldados. O primeiro atingido por Meia Garrafa estava sentado no chão, com a tinta vermelha descendo das ventas. Os outros dois contorciam-se. Meia Garrafa não tinha 1,60 m de altura, mas tinha braços fortes, mais parecendo com duas mãos de pilão de pé, daqueles que naquele tempo se usava para pilar café, torrado em casa. O melhor café! Concomitante com a polícia chegou o pai dos dois irmãos e tio do outro, do ensanguentado. A polícia já o conhecia. Conhecia a laia toda. Zuleica adiantou-se e explicou tudo ao sargento. Os três rapazes foram levados para o quartel. Meia Garrafa e Zuleica, também. O pai dos irmãos e tio do outro, esbravejando, seguiu o cortejo. Falou em vingança. O sargento ouviu. E o colocou junto com os filhos e o sobrinho. Estava comprovado o crime de ameaça da parte deste. O que se sabia mesmo era que foi um rebuliço das seiscentas naquele sábado, dia de feira no Sapé. Meia Garrafa e Zuleica saíram do quartel cerca de meia hora depois. Os quatro sujeitos do Capim do Boi ficaram detidos. 


Véspera de São João. No último dia da novena na casa de “seu” Vangelo, a fogueira com quatro metros de altura ardia, desde o início da noite. A novena acabou por volta das oito horas. Iria começar o arrasta-pé, que nunca faltava. Um meninote do Currupio, povoadozinho de pouca gente, tinha os dedos afiados. Em suas mãos, o fole velho gemia como se fora em mãos do Gonzagão. O menino tocava demais. E cantava de menos. Mas, valia o chiado ligeiro do fole. 


Zuleica e Meia Garrafa estavam a poucos metros da fogueira. A banca com guloseimas juninas atraía muita gente. Dois caldeirões gigantes de mungunzá. Duas travessas com pamonha. Vários pratos de canjica com canela. Pés de moleque de puba. Manauês de todo tipo que se podia fazer. Broas. Milho assado e cozido. Com Zuleica e Meia Garrafa, estavam as duas filhas, no adjutório. Outras duas bancas de guloseimas estavam postadas por ali. Nestas, pouca freguesia. Doceira mesmo era Zuleica. Afamada com razão. 


Quatro anos tinham se passado desde aquele entrevero na feira do Sapé, com os rapazes do Capim do Boi. Vingança não houve como apregoada pelo pai dos dois irmãos, dentre os três que apanharam de Meia Garrafa. Dizia-se que ao tomar ciência do ocorrido, como tudo se dera, o pai dos dois e tio do outro, desceu o cinturão nos três, quando o sargento os liberou, ali mesmo na frente do quartel. Bem feito. 


Enquanto Zuleica, Meia Garrafa e as duas filhas se desdobravam para atender os fregueses, um sujeito, bêbado, afirmou com voz empastelada: “Esse mungunzá tem baba de velha. Essa velha deixa a baba cair quando está cozinhando o mungunzá. Diz ela que é pra engrossar o caldo”. Apesar de embriagado, falou em alto e bom som. “Baba no mungunzá? Seu fio duma égua manca!”. O bêbado media uns dois metros e pouco. Era um homenzarrão. Corpulento. Na mão direita, um rebenque de couro cru. Na cintura, por cima da camisa, um revólver. Aquela faca luminosa, usada por Zuleica, na feira do Sapé, ou outra igual, facheou na mão de Meia Garrafa. O bêbado fez menção de sacar a arma. Não sacou. Eronildes de Jucundino do finado Vavá de Maria Zélia meteu um tição, tirado da fogueira, na mão do sujeito. Revólver no chão. Uns dez homens caíram em cima do cabra. Deram nele até deixá-lo moído. Botaram-no para correr. Sem a arma, que seria entregue ao delegado de polícia, ainda naquela noite. 


Onde já se viu alguém dizer que a baba de Zuleica engrossava o caldo do mungunzá? Um despropósito. Nem babar, Zuleica babava. Oxente!


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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