22 de junho de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 22/06/2017 às 00h00

O PAGADOR DE PROMESSA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

O que um casamento não fazia? Essa indagação não saía da cabeça de César Ramalho, jovem advogado, casado com a irmã de Jorge Rivera. Nada a ver com a esposa. Nem pensar. O penar de César tinha outro nome. Ele se sentia o verdadeiro pagador de promessa. Entrava ano, saía ano, e ele no mesmo sufoco. Um desmantelo de vida. Madeiro pesado para carregar. Mas, pensando bem, ninguém contraía núpcias com um madeiro, com um tronco fornido de baraúna ou árvore que o valha. Ah, não? Quem disse que não? Haveria de indagar o próprio César. 


Cunhado não era parente? Alguns diriam que sim, outros diriam que não. O advogado César Ramalho diria coisa pior. No caso do seu cunhado, o tal Jorge Rivera, cunhado era um motivo de consumição. Uma constante dor de cabeça. Uma enxaqueca. E das brabas. Um cunhado daquele não era parente nem aderente. Era uma tragédia, como diria um político interiorano. Sujeito aporrinhador. Um cisco grande no olho. Um sabia-se lá o quê! Enfim, um madeiro infeliz. Por isso, o advogado César Ramalho sentia-se um pagador de promessa. Promessa que nunca terminava de ser paga. 


Vésperas de São João. A cidade e, porque não dizer, o estado inteiro estava em acentuada animação. O dia de Santo Antônio já se fora. O santo casamenteiro era festejado em várias cidades e povoados, que o tinham como padroeiro. Porém, os festejos populares mais vigorosos ficavam para os dias de São João e São Pedro, naquele mais do que neste. O santo do carneirinho era popular em demasia. Festa de arromba era dedicada ao seu dia, ou melhor, à véspera. Festa de tinir. Em todo o estado? Qual nada! Em todo o Nordeste. “Festança, môfio!”, como haveria de dizer Antero do Gavião. E era mesmo. Era e ainda é. E haverá de o ser enquanto o mundo for mundo, enquanto o apocalipse não vier arrasador. Aliás, diante do destrambelhamento do mundo, aí incluído o cunhado Rivera, o advogado César Ramalho acreditava que o fim dos tempos estava próximo. Só podia ser. Vôte! 


Naquelas vésperas do dia do santo mais festejado dentre os três santos juninos, o cunhado do advogado César Ramalho riscou na porta deste. Metido na política, necessitava, segundo suas próprias palavras, de um adjutório para a compra de fogos de artifício, para meninos e homens. Uma tranqueira! A soma em dinheiro que ele solicitou ao cunhado advogado, não era baixa. A quantidade de fogos dava para encher um caminhão. Bem. Não se diz que era um caminhão, literalmente, mas que dava para abarrotar uma caminhonete, isso lá dava, sim. 


O advogado perdeu as estribeiras diante do pedido estapafúrdio do cunhado metido na política, lá nos confins de Judas. Ele passara dos limites. “Os tempos estão bicudos, Jorge. Você sabe muito bem disso. Aliás, você é o melhor retrato de que as coisas não andam bem para ninguém”, disse César. O cunhado não se fez de rogado: “Você acha pouco o que eu tenho feito por você? Quantas causas boas de grana eu lhe consegui? Uma ruma danada! Quanto você não ganhou às minhas custas?”, devolveu o cunhado Raspa de Tacho. Esclareça-se, por oportuno, que Raspa de Tacho era o apelido do cunhado do advogado. Apelido que lhe fora impingido pela gentalha da cidade interiorana onde ele morava e dava-se ao luxo de perder eleições. Candidatara-se a quase tudo. Ele era um verdadeiro sorvedouro de dinheiro. Ainda bem que por lá não tinha nenhuma JBS. 


Por falar em eleições, na última que Jorge Rivera disputou, deu-se um caso interessante. Uma pobre mulher, moradora num casebre do povoado Jenipapo, pobre como Jó, aquele sujeito do Livro Santo, que era rico e feliz e tudo perdeu sem renunciar a sua fé em Deus, recebeu, sem que o tivesse pedido, a oferta de uma casinha nova. Promessa feita por ninguém menos do que Jorge Rivera. “Assim que terminar a eleição, ganhando ou perdendo, eu farei a sua casinha, dona Florzinha”. Pobre mulher, viúva com uma récua de filhos de cobrir com um cesto, todos pequeninos e raquíticos de dar pena. O marido tinha morrido pisoteado por um boi, vaqueiro que ele era. O patrão não lhe dera nenhum valimento. A pensãozinha pouco dava para o sustento dela e dos meninos, sem falar na situação de sua saúde. Precaríssima. Uma doença braba, que nem o nome o povo dali gostava de pronunciar, preferindo chamá-la de “essa coisa” corroia-lhe as entranhas. Mais dia, menos dia, ela haveria de bater a caçoleta, deixando sobre a terra os oito filhos, todos eles menores de idade. O mais velho tinha nove anos. Diga-se de passagem, uma menina. Uma quase mocinha, que cuidava da mãe e dos irmãos. 


Casa? A pobre mulher jamais haveria de ver. Não construída pelo político Raspa Tacho. É preciso esclarecer o porquê do apelido. Jorge Rivera costumava raspar o último centavo de alguém de quem ele se aproximasse e, por ventura, lhe facilitasse o bolso ou a bolsa. Ele sugava até o último vintém. Era sempre emprestado. Só que ele nunca pagava. Raspava o tacho e pronto. Até o dia que ninguém mais confiou nele. 


Voltando à casa da pobre mãe de oito filhos, um dia, após mais uma eleição, Jorge Rivera deu de cara com um capeta, na encruzilhada do Matozinho, lugar esquisito lá para as brenhas do Terreiro do Diabo. O capeta tinha a forma, segundo o próprio Jorge narraria, de uma bola de fogo com uma cara de bode de olhos esbugalhados. O fogo ardia e o bode berrava de forma assombrosa: “Cadê a casa, Jorge? Cadê a casa Jorge?”. A bola de fogo rolava na estrada e não dava passagem. Ao tentar retroceder e sair em desabalada carreira, a bola lhe barrou o caminho, no outro lado. E foi assim que ele prometeu construir a casinha para a pobre mulher, viúva do vaqueiro pisoteado. Dessa vez, cumpriu. Claro que não era nenhum capeta em forma de bola de fogo. Era, sim, o fogo da consciência pesada de Jorge, ardendo e cozinhando os miolos.


Naquelas vésperas de São João, o advogado César Ramalho perderia mesmo a estribeira, como se disse, diante do cunhado que teve a falsa visão do capeta com cara de bode, ardendo na bola de fogo. “Jorge, se depender de mim, você vai ficar sem fogos de artifício para dar a quem você pretende. Fazer festa com o chapéu alheio é muito bom. A partir de hoje, você não vai ter de mim nenhum adjutório, como você diz. E se você insistir, eu me viro num capeta de fogo”. 


Jorge Ramalho se foi. Praguejando. Faiscando. Mas, no Natal ele voltaria, com certeza. Precisaria comprar panetones para dar aos seus eleitores. O cunhado advogado, então, deveria invocar o fictício bode da encruzilhada do Matozinho. Ao invés de bacalhau, peru ou leitão, haveria de ser o Natal do bode. 


Bem, contanto que não fosse o Natal do Friboi.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE


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