22 de abril de 2017
POR: José Lima Santana
Fonte: José Lima Santana
Em: 21/04/2017 às 20h20

UMA CANÇÃO DESESPERADA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: arquivo pessoal)

Jota Pinto de Felismina de Chico Caroço andava amorrinhado. Assim de repente. Andava mais do que jururu. Cabisbaixo. Até parecia um rolete de cana chupado no meio da feira. Ruinzinho, ruinzinho. Dava dó. Quem foi Jota Pinto! Num tava sendo nem uma sombra distante do que ele tinha sido até pouco tempo. Tornara-se assim de uns dias para cá. Até meio remelento ele andava. Os olhos andavam mosquitentos. Um horror! Mais dia, menos dia, haveria de bater a caçoleta. Logo, logo seria envelopado num pijama de madeira. A cidade de pés juntos o aguardava para breve. À vista de todos, assim de repente, ele era um homem sem salvação.


Viúvo há pouco, não tinha decorrido nem um ano que Dona Julinha tinha se transferido para o jardim de folhas mortas, onde o silêncio reinava absoluto. Tadinha! Sofreu muito mais do que sovaco de aleijado, quando a feira era longe, como no passado se dizia. Uma doença infeliz a devorou em poucos meses. Naquele tempo, especulava-se que era “nó nas tripas”. Hoje, se diz câncer no intestino. Bicho fatal.


Os filhos e as filhas, noras e genros de Jota Pinto o cercavam com mesuras, aflitos com o seu estado de falta de ânimo. Pouco comia, pouco dormia. Até o netinho mais novo, Filipinho, que era o xodó do avô, olhava-o desconfiado. A vizinhança maldava isto e aquilo. E tinha quem maldava demais. Teria ele a mesma doença da finada? Ou a morte da velha, meses depois, o teria deixado em continuado desconsolo? Ora, bem casados eles foram. Casaram-se ainda muito jovens, envelheceram juntos sem maiores discordâncias e dissabores. Um exemplo de casal afinado por aquelas bandas, a merecer os maiores encômios do Monsenhor Cláudio Fontes, pároco por mais de trinta anos da localidade.


Alguma coisa muito séria Jota Pinto tinha. Não era um bagaço de homem. Longe disso. Aos setenta anos, ainda era um tronco de baraúna. Ao menos parecia ser, não fosse, naquele momento, aquele aparente estado lastimável. O homem definhava como os galhos de um pé de pau sapecado pelo fogo. Em poucos dias, começou a andar meio curvado. Porém, indagado pelos parentes, dizia não estar doente. Como não?  Os filhos achavam que ele deveria aconchegar-se numa mulher de meia idade, que lhe respeitasse e lhe aproveitasse no fim da vida. Ele não respondia aos estímulos dos filhos.


Jota Pinto, ou seja, José Mascarenhas de Souza Pinto era dos Souza Pinto do Morro Alto, povoado de boas terras de massapê preto e escorregadio como quiabo nos tempos de bons invernos ou de boas trovoadas, que, aliás, andavam vasqueiras nos últimos três anos. Os homens da família Souza Pinto eram de viver muito tempo. Houve até um deles, Humberto de Zé Grande, que passou dos cem anos. E não foi somente ele, não. Uma aparentada daquele povo, uma tal de Joaninha, viveu mais de cento e dez anos, tomando uma pinga de vez em quando e pitando um cachimbo de bola de barro, o mel do fumo de rolo escorrendo pelo canto da boca. A raça dos Souza Pinto não era de moleza. Mas, naqueles dias, Jota Pinto destoava da parentela, como nunca ocorrera antes.
 
Por aquele tempo, um pouco antes de Jota Pinto andar de crista baixa, tinha chegado um circo na cidade. Era uma diversão de que Jota Pinto gostava. Mesmo amargando a viuvez recente, vestindo luto fechado, como convinha naquele tempo, ele levou os dois netos mais taludos para assistirem ao espetáculo, que tinha bons palhaços, bons trapezistas, bom mágico, boas rumbeiras, que faziam os homens irem ao delírio, especialmente os mais jovens, um globo da morte e o indefectível drama, ao final do espetáculo, que, às vezes, arrancava lágrimas das mulheres. Os netos de Jota Pinto deram boas gargalhadas com as peripécias dos palhaços Pinga Fogo e Chulapa.


Jota Pinto, discretamente, pareceu ter gostado de uma bela rumbeira de pernas bem fornidas. Ao passar o lenço vermelho no seu pescoço, como era de costume, na tentativa de conseguir algum dinheiro, ela recebeu a nota mais graúda então existente. Dinheiro enrolado na mão direita dele, diretamente para a mão direita dela. Um neto de Jota Pinto, o mais taludo, Chiquinho, notou um leve sorriso na boca do avô. A rumbeira, que se chamava Florbela, bem que valia a nota graúda e o sorriso de Jota Pinto. Como deveras mereceu de outros homens. Lenço no pescoço, dinheiro na mão. O único homem que não meteu a mão no bolso para agraciar a rumbeira Florbela, nem nenhuma outra, foi Waldeck Felizola, o homem mais rico da cidade. Arrancar um tostão furado daquele ali era trabalho impossível, mesmo para a rumberia bonitona e de pernas fornidas.


O circo agradou em cheio ao povo da cidade. Dos povoados e das cidades circunvizinhas, todas elas bem menores, as pessoas acorriam para os espetáculos dos fins de semana. Casa cheia aos sábados e domingos. E, assim, o circo foi ficando. Jota Pinto foi ao circo duas outras vezes seguidas. O lenço vermelho e perfumado de Florbela não deixou de ser lançado no pescoço do viúvo, como no de tantos outros. Era o costume.
Na terceira semana, Jota Pinto não foi mais ao circo. Foi quando começou a amolecer. Os netos insistiram, mas ele não cedeu. E foi amolecendo cada vez mais.


Um dia, Cirilo de Maria Chica, compadre de Jota Pinto, indagou, em ligeira visita: “Compadre, tu num tá assim macambúzio, assim jururu, num seria a falta de sustança pra garantir dengo a uma mulher? Num será isso, não? Esse tipo de coisa é que deixa um homem nesse estado, compadre, remoendo pelos cantos, sem poder acender o pavio do candeeiro”. Jota Pinto apenas maneou a cabeça em sinal de negação. Não era aquilo que o compadre Cirilo maldava, não. Era não. Até que sustança ele ainda tinha. Tava tinindo como um bode pai de chiqueiro. Até o padre lhe recomendou casar.


Os dias se passaram e Jota Pinto foi envergando o corpo, derreando os ombros, parecendo um bem-te-vi com sono. Nada lhe doía no corpo surrado de tanto pelejar desde menino. Corpo até bem pouco tempo rijo como uma pedra. Ir ao médico, Jota Pinto se recusava. Fazer o quê, se dor nenhuma ele sentia? A família dele não sabia o que fazer, nem o que dizer. Todos se preparavam para o pior. A prosseguir naquele estado, Dona Julinha não demoraria a vir buscar o marido. Dizia-se.


O circo de Zé Bezerra ainda estava na cidade. Já tinham se passado dois meses e dias. No domingo próximo seria o último espetáculo. Aliás, dois espetáculos. À tardezinha e à noite. Com certeza, casa mais do que cheia. Um velho Cadillac rabo de peixe com duas bocas de alto-falante apregoava os dois espetáculos. Jota Pinto chamou os netos para irem ao circo. Enfim, animou-se, embora emborcado feito um anzol.


O espetáculo da noite foi um delírio para o público. No da tarde não deveria ter sido diferente. A rumbeira Florbela estava mais bonita do que nunca. Porém, somente um cavalheiro teve o seu lenço vermelho e perfumado roçando-lhe o pescoço. Foi Salustiano, dono da mais sortida loja de tecidos da cidade, outro viúvo, mais novo e muito, muito mais endinheirado do que Jota Pinto. Desde a terceira semana que o circo estava na cidade, a rumbeira Florbela só lançava o lenço vermelho e perfumado no pescoço do lojista. Os comentários na cidade davam conta de um caso amoroso entre Salustiano e a rumbeira Florbela.


Naquela noite de despedida do circo, os olhos do velho Jota Pinto derramaram duas lágrimas muito longas. E no seu íntimo, ele entoou uma canção desesperada.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

Confira AQUI mais artigos do José Lima Santana
Confira AQUI mais artigos da autoria de José Lima Santana publicados no ClicSergipe antigo

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação