03 de abril de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 01/04/2017 às 00h00

OVO DE GALO :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Do Matão de Dentro, povoado escondido por trás da Serra Azul, um maciço onde, no passado, negros escravos se refugiaram, formando um quilombo, saiu o galo que botaria um ovo. Dito galo saiu da casa de Dona Tininha de Mané Fuxico. Dona Tininha era filha de Maria D’Angola, uma negra forra que para ali se mudara tão logo o seu amo, o Capitão Batista Flores lhe dera a carta de alforria, dois anos antes da Abolição. Ela fora em busca de encontrar o negro João Makuleke, escravo de um fazendeiro vizinho de terras do Capitão Batista, por quem a preta forra se derretia qual manteiga ao sol. Ajuntaram-se e tiveram dezoito filhos, dos quais cinco morreram em tenra idade. 


Maria D’Angola era sabida nos encantamentos da religião dos seus antepassados, da religião de pura raiz africana sem mistura com os torés dos nossos índios. Na casa de Maria D’Angola aquela mistura não existia. Nem sincretismo com os santos católicos. Era religião das terras africanas. Sem mistura. Não somente na Serra Azul, no Matão de Dentro, mas em redor de umas doze ou quinze léguas, era voz corrente que Maria D’Angola se envultava, isto é, desaparecia das vistas de todos em plena luz do dia. Trabalhos para o bem ela os realizava. Não trabalhava para o mal, às esquerdas. Maria D’Angola morreria aos cento e tantos anos. Nos dias antes de morrer, ainda comia uma boa feijoada ou um sarapatel apimentado. Nunca lhe doeu um dente sequer. Negra fornida e sadia, até a velhice. A filha caçula, Tininha, herdara um pouco dos saberes da mãe. Mantinha o barracão de Maria D’Angola com todos os seus apetrechos, atabaques e tudo o mais. Porém, quem conheceu a mãe, dizia que a filha não lhe chegava aos pés, nos misteres dos encantamentos. De qualquer forma, ela também tinha certa fama. 


Marcinho de Juarez do Barro Alto fez, numa cachaçada na bodega de Alípio de Zé Mourinho, uma aposta com Maneco de Sá Lurdinha do finado Antônio Martins. Ele dizia que tinha um galo que punha ovos. Apostaram uma novilha contra outra novilha. Dizia o dono do galo que o dito estava na casa de sua sogra, no Matão de Dentro, distante dali, cerca de cinco léguas ou um pouco mais. Ali no alto sertão tudo era distante mesmo. Os povoados, mais das vezes, distavam léguas e léguas. Ficou o primeiro apostador de buscar o galo dali a duas semanas. Foi um alvoroço danado na bodega de Alípio. Todo mundo queria ver o galo que punha ovos. “Um galo que bota ovo, não é galo. É galinha disfarçada. Assim como tem gente que faz de conta que é uma coisa, mas num é, também tem bicho deformado”, disse o velho Saturnino Capador, o mais afamado castrador de animais de toda a região. Bicho capado por Saturnino não morria de sangramento. Outras apostas paralelas foram feitas. Uns confiavam no taco de Marcinho de Juarez, enquanto outros ficavam do lado de Maneco. Assim por alto, as apostas em dinheiro somavam para mais de dois contos de réis. Afora apostas em bens, como bichos de criação e outras tralhas como selas, cangalhas e carroças. Povinho apostador danado era aquele dali. 


Apostas feitas, todas apalavradas, que todos se conheciam e confiavam uns nos outros, sem necessidade de casar os bens apostados, Marcinho de Juarez tratou de arranjar um galo que botasse ovos. Aliás, um ovo só que fosse. A aposta era que o galo botaria um ovo. No povoado e nas redondezas, o sujeito mais ladino, mais esperto em criar situações inusitadas era o Índio. Este se tratava de João Pataxó, que se dizia filho de uma índia da Bahia com um sargento da Força Baiana. A sugestão do índio era arranjar uma “galinha machiada, ou seja, metida a galo e fazer-lhe uma adaptação, costurando nela uma crista de galo, esporões e penas de galo no traseiro”. Foi o que ele sugeriu. Para isso, ele precisaria de uns dois meses, até as operações sararem e se verificar se tudo correria bem. Ora, ora! A aposta estava limitada, no cumprimento do apostado, ao tempo de duas semanas. Nada mais. “Peça uma mêxa”, ponderou o índio. Pedir uma mêxa era pedir uma prorrogação. A quem? Ao Maneco de Sá Lourdinha? Nem pensar. Tava ali um sujeito encrenqueiro, gosmento, engrangujado. E todas aquelas operações numa galinha para que pudesse passar por galo, não haveria de dar certo. Outra solução teria que ser pensada. E foi aí que o próprio Marcinho de Juarez intuiu de procurar os préstimos de Dona Tininha de Mané Fuxico, filha de Maria D’Angola e vizinha de sua sogra, lá no Matão de Dentro. Se fosse a própria Maria D’Angola, Marcinho de Juarez sabia que a sua aposta estaria salva. A preta velha, sabida por demais nos encantamentos, seria capaz de lhe dar um galo que botasse ovos. Um ovo que fosse. Mas, já a filha... Marcinho de Juarez desconfiava, porém, era o que lhe restava. 


E foi assim que no dia seguinte à conversa com João Pataxó, Marcinho de Juarez bateu-se para a casa de Dona Tininha, no Matão de Dentro, lugarejo escondido por trás da Serra Azul, como já se disse. Tendo saído ainda madrugadinha com o orvalho salpicando a copa do chapéu de couro, em dantes passou na casa da sogra para tomar um bom café com cuscuz de milho ralado, coberto com ovos estrelados e manteiga da boa, da bem amarelinha, e carne de sol assada na brasa. Feito isso, botou-se para a casa de Dona Tininha. Contou-lhe sobre a aposta. Ela mediu Marcinho de Juarez de cima a baixo, olhou para o chão de terra batido e tornou a encarar o apostador. Disse umas palavras numa língua estranha. E, afinal, emendou: “O senhor tá mais enrolado do que pé de fava em pé de milho seco. Onde já se viu galo botar ovo, mizifi?”.  Marcinho de Juarez maneou a cabeça. Dona Tininha, porém, deu-lhe um consolo: “Vou ver o que posso fazer, pra lhe tirar desse embeleco. Fique aqui!”. Ela saiu. Marcinho de Juarez coçou a cabeça. Tinha lá com ele uma alegria nas pernas. 


Dona Tininha entrou no quarto que servia de peji, o altar dos orixás. Lá, ela permaneceu por uns vinte minutos e de lá voltou com um galo vermelho de olhos esbugalhados, malamanhado. Era o galo de Exu. Ela assim o disse. “Este galo vai botar um ovo, quando você soprar no ouvido dele e disser: galo de encruzilhada / galo de crista e esporão / tu que ‘vem’ da Gamboa encantada / ‘bote’ um ovo na minha mão”. Disse mais: “Solte o galo imediatamente ou coisa feia pode acontecer. Quanto ao ovo, você traz pra mim, sem demora”. 


Marcinho de Juarez voltou confiante. No dia aprazado, na hora ajustada, eis que ele, diante de uma ruma de gente, cochichou no ouvido do galo como Dona Tininha tinha lhe ensinado. E, para espanto de Maneco, o outro apostador, e de todos que ali estavam o galo de olhos esbugalhados pôs um ovo na mão de Marcinho de Juarez. Um ovo taludo, bem avermelhado. Marcinho, feliz da vida, apertou o galo debaixo do sovaco. Não o soltou imediatamente, como fora recomendado por Dona Tininha. Naquilo, o galo escapou do sovaco de Marcinho, pulou do chão para um galho e explodiu, antes, porém, fazendo ecoar uma gargalhada infernal. O cheiro de enxofre cobriu o povoado. E passou muitas semanas recendendo no ar. Foi no que deu o ovo do galo de Exu. As apostas foram pagas. Ninguém chiou. E o ovo vermelho, Marcinho de Juarez o levou para Dona Tininha, como haviam combinado. Coube ao padre Fonsequinha celebrar uma Missa para afastar do povoado o cheiro de enxofre.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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