20 de março de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 18/03/2017 às 00h00

O PADRE E OS BODES :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo Pessoal)

Tempos de seca. O céu amanhecia azulão e assim mesmo via-se o sol se pôr. Nenhuma nuvem, nem pra remédio, como dizia Sá Maria de Vicentinho da Feira Nova. Ali, acolá e mais adiante, o sertanejo lutava para manter de pé algumas poucas rezes, mais magras do que lâmina de barbear. A maioria dos rebanhos, grandes ou pequenos, já se tinha ido. Ossadas espalhadas nos caminhos e nos pastos ainda faziam a festa dos urubus. Providências por parte dos governos? Nenhuma. Os filhos de Sá Maria se aboletaram para o sul. Milhões de nordestinos tomaram o rumo de São Paulo ou Paraná. Para trás, deixavam o seu beiço de terra, o seu torrão natal. Os caminhões ditos paus-de-arara não paravam. Iam e vinham. Tornavam a ir, cada vez mais carregados. Seria o destino dos sertanejos viverem como aves de arribação? 


Nos confins do sertão, ali estava o povoado Feira Nova, pouco distante do povoado Feira Velha, sendo este um povoado mais taludo, mas, igualzinho ao outro em termos de fluxo migratório. O sertão acabaria deserto sem viva alma, não fosse a teimosia e o destemor de alguns, que não batiam o pé pra fora do seu lugar. “Aqui eu nasci, aqui eu hei de morrer!”, gritava Zeca Bode Velho, com o seu cavanhaque duro como o de um pai de chiqueiro. Ainda lhe restavam uns bichos de criação, umas cabras, um bode de duas ovelhas. O gadinho bovino já se fora. Os bicos dos urubus fizeram o devido proveito. Também os seus quatro filhos, a filha e o genro com todos os netos fizeram estrada no pau-de-arara de Manelito do FNM. O velho caminhão de fabricação nacional aguentava o tranco nas idas e vindas, de Sergipe para São Paulo e de São Paulo para Sergipe. 


A seca espalhava sede, fome e morte. Os ares empreteciam. A terra empretecia. Urubus por todo lado. O flagelo da seca só não era maior do que o flagelo em que se constituíam os políticos, os mandatários do povo. Era assim desde os tempos do Império. Na capital do estado e na capital federal, no Rio de Janeiro, políticos e burocratas discutiam, discursavam e nada resolviam. Viviam, por assim dizer, cuspindo no sofrimento alheio. Providências? Umas migalhas... Não haveria no país homens sérios o bastante para minorar o sofrimento do nordestino? Parecia que não. Aves agourentas e aves carniceiras não havia apenas no sertão. Elas estavam em todos os lugares. Nas veredas tortuosas, nos becos e nos palácios. Elas infestavam tudo. 


Enfim, depois de três anos de estiagens com uns pingos de água tendo caído aqui ou ali, mas, sem dar sequer para apagar a poeira, eis que numa sexta-feira o padre Almiro fez uma procissão, clamando aos céus chuva para o sertão. A procissão saiu da capela de São José para a Igreja Matriz, três quilômetros adiante. Há dois ou três dias, o céu já vinha dando sinais de nuvens se amontoando. Timidamente. A procissão do padre Almiro começou com o sol a pino, por volta das três da tarde. O calor era intenso. Mormaço danado. O suor corria em bicas nos rostos dos fiéis. À frente, o padre, recentemente ordenado e mandado para aquelas lonjuras, como uma penitência. 


A procissão de acanhado acompanhamento, pois muita gente já tinha metido o pé na estrada nos paus-de-arara, vinha se arrastando pelo chão, a passos vagarosos. Já estava na curva de Pedro Miolo Mole quando, de repente, o tempo fechou. Nuvens muito negras se ajuntaram. Um ribombo de trovão. Um mundão de estalos. O céu estava em festa. Um corisco riscou no ar uma serpente de fogo. As torneiras se abriram. Chuva grossa. Pingos de água de encher caneco. O bafo da terra, preso há muitos meses, desprendeu-se. A cidade foi varrida por uma enxurrada como antes nunca se vira. Nos povoados Feira Nova e Feira Velha, em todos os povoados, em todas as cidades do sertão, as chuvas caíram por dias a fio. A terra vomitava água. Trovoadas como nunca caíram no sertão. Nas grotas, as águas cantavam e devastavam. Tanques e barragens cheios até a tampa. Muitos arrombados pela fúria das águas. Na cidade de Glória de Deus até defuntos quiseram acordar do sono perpétuo. Algumas covas rasas foram esburacadas pelas águas e os caixões com sua carga de ossos vieram à flor da terra. Um espanto! 


Cessadas as chuvas, ou amainadas, o verde tomou conta do sertão. A marmelada cobria pastos e beiras de estradas. A terra fértil, porém, carente de água, que a fizesse produzir riquezas, expunha a sua força. Zeca Bode Velho tinha feito uma promessa. Se chovesse até o dia de São José, daria duas cabras para o leilão que o padre Almiro realizaria em prol da festa de Nossa Senhora das Graças, em novembro. Pois o primeiro aguaceiro, naquela tarde da procissão, veio exatamente no dia 19 de março. Dia de São José. As duas cabras foram entregues no domingo, dia da feirinha semanal da cidade. 


Foi assim que o padre Almiro, de pastor de almas, passou a ser também pastor de bodes, como o povo dizia. Todos os dias, após o café da manhã, o padre saía com as duas cabras, que já lhe foram entregues prenhes, para as bandas do açude municipal, a fim de as ditas cujas comerem à vontade o capim sempre verde que ali viçava. Logo, as cabras dariam crias. O padre Almiro se afeiçoou aos bichos. Já tinha um pequeno rebanho. Veio a festa da padroeira, porém, o padre não leiloou os animais. O ano dobrou e novas crias vieram ao mundo. Mais crias. E mais crias. O padre já tinha um rebanho considerável. E mais ainda considerável por ser ele um padre. Duplamente pastor. Na visita episcopal, o senhor bispo refestelou-se com um borrego assado no capricho, que Mimita de Dona Crisálida era fina em preparar um bode assado. O padre Almiro ofereceu uma cabra ao bispo. Contudo, o bispo recusou: “Padre Almiro, para onde eu vou com uma cabra, se eu já tenho no meu clero alguns bodes para cuidar?”. 


Os anos se passaram, e o padre Almiro continuou cuidando de bodes e cabras. Tornou-se famoso por tantos caprinos que possuía. E folclóricos tornaram-se os seus passeios matinais, tangendo o seu magote de bodes e cabras pelas ruas da cidade e em direção às cercanias do açude. Após aquela seca danada, seguiram-se muitos anos de fartura. E as cabras do padre Almiro botavam no mundo muito mais bodes.


Corria o ano de 1970. O padre Almiro, madurão, continuava na mesma Paróquia. E ainda criando bodes. Numa manhãzinha de domingo, Tininha de Dona Rosa de Pedrinho Macambira, que fazia a limpeza da casa paroquial, cuja chave da porta da frente ela a possuía em cópia, encontrou o padre caído no quintal. Estava morto. O coração lhe traíra. Ao redor do corpo sem vida, cabras e bodes em respeitoso silêncio.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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