08 de março de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 03/03/2017 às 00h00

O PADRE E A VIÚVA :: Por José Lima Santana


José Lima Santana* - jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

José Lima Santana (Imagem: Arquivo Pessoal)

Padre Ariosto. Ariosto da Silveira Nunes. Menino do interior, cuja vocação foi despertada nas aulas de catecismo ministradas por Dona Tina de Zé Geraldo, antiga colaboradora da Igreja Matriz, aliás, igrejinha carente de reforma e ampliação. Os padres que por ali passavam, reclamavam, reclamavam, mas, não tomavam a si a empreitada de movimentar o povo para fazer as obras tão necessárias. O único padre que fez alguma coisa foi o padre Valdomiro Leite, que deu uma mão de tinta nas paredes internas e externas. Afora isso, nada. A Paróquia pouco rendia. Coleta de muitas moedas e poucas cédulas. Dízimo chinfrim. Espórtulas fraquinhas. Os padres viviam da caridade, muito mais da caridade de alguns fiéis, de algumas beatas de mãos mais ou menos abertas, do que de qualquer outra coisa. O senhor bispo sempre era instado a dar um jeito de arranjar uma Paróquia melhor para cada padre que por ali passava. E o bispo, o bispo sempre paciente, dizia e repetia: “Tenha calma, meu filho. Lembre-se que Jesus não tinha onde repousar a cabeça”. E, assim, o tempo passava. 


O padre Ariosto tinha chegado há pouco mais de um mês, no início de fevereiro. Mal e mal conhecia os fregueses, como, no passado, eram chamados os paroquianos. Fregueses era a expressão usada no tempo em que a Paróquia se chamava Freguesia. Tempo do Império. Como sempre, umas poucas beatas apresentavam-se prontas para colaborar. E, dentre elas, uma que se sentia a “dona” da Igreja Matriz, a que tinha a chave, a que dava ordens ao sacristão, a que queria ter o controle do padre. Naquele tempo, esse tipo de beata mandona era muito comum nas Paróquias. 


Há pouco ordenado, com não mais de vinte e cinco anos de idade, fazendo o tipo físico de mauricinho de subúrbio, o novo pároco lançou-se ao trabalho para reformar e ampliar a Igreja Matriz. Fez bingo, quermesse e leilão. Passou “livro de ouro” entre comerciantes e fazendeiros. Estes deram menos do que aqueles, embora fossem bem mais aquinhoados. O velho e terrível apego ao dinheiro. “Ninguém pode servir a Deus e ao dinheiro”, disse Jesus. Ora, muita gente que se dizia cristã não ligava para as palavras do Divino Mestre. O jovem padre começou a dar nova vida à Paróquia. Fundou um grupo de jovens, realizou encontro de “Casais com Cristo”, consertou o velho carro, deixando-o quase novinho em folha. Deu um incremento nas aulas de catecismo, no círculo bíblico e muito mais. Promoveu um verdadeiro rebuliço. 


A Paróquia que pouco rendia passou a garantir a manutenção do padre. Não dava muito, porém, o padre não morreria de fome, nem precisaria mais andar almoçando hoje aqui e amanhã acolá. Aos poucos, as coisas foram se ajeitando. O senhor bispo estava satisfeito com o jovem padre que tinha pinta de mauricinho suburbano e era trabalhador, além de ser zeloso com os misteres da sua vocação. Um padre com futuro garantido junto à Cúria Metropolitana. 


No caminho de um cristão pode muito bem haver percalços. No caminho do padre Ariosto, uma pedra lhe aparecera. Pedra instigante. Pedra a ser removida antes que o mundo desandasse. A tal pedra tinha nome. Tinha grana. Tinha posição. Maristela Pinto da Mota. Viúva. No ardor dos anos. Loba. Com quase quarenta anos. Soltando faíscas. 


Maristela aproximou-se do padre Ariosto na festa da Padroeira, em novembro. Fazia parte da comissão geral da festa. Andou daqui, andou dali, ela começou a ajudar em tudo que a Igreja precisasse. Convidou o padre para almoçar em sua casa. Era uma mulher sem filhos. Casara com um homem bem mais velho do que ela, viúvo, ela com 22 anos, na época do casamento, e ele com 66 anos. Casamento com comunhão de bens, que o velho precisava desesperadamente de aconchego, após a morte da primeira esposa. Dos cinco filhos, apenas o mais velho opinou contra o casamento do pai. Os demais pegaram os seus bons quinhões da herança da mãe e deixaram o pai em paz. Maristela não teve filhos. Conviveu por 16 anos com o rico fazendeiro até que ele bateu a caçoleta aos 82 anos. Uma febre interminável deu cabo do velho em cinco semanas. A viúva, que sempre respeitara o marido via-se, agora, carente de aconchego, do frescor que ela não teve. 


Domingo. Véspera do Ano Novo. Pela quinta vez, o padre Ariosto fora convidado para almoçar na casa de Maristela. Eram lautos almoços. A cozinheira, Mariazinha, fazia tudo do bom e do melhor. No domingo, ela cozinhava logo cedo e por volta das dez horas era dispensada. O padre comeu como um abade. Salada, galinha a molho pardo, lombo de frigideira, fritada de caranguejo, arroz à grega, farofa de banana, doce de caju em calda e pudim de leite. Tudo de que o padre gostava menos a fritada que ele apenas beliscou, sob a insistência da viúva. Depois do almoço, Maristela fez questão de, pela primeira vez, mostrar toda a casa ao padre. Todavia, a sua intenção era a de mostrar apenas a alcova. Quarto arrumado, perfumado, pétalas de rosa espalhadas sobre a cama. Maristela sentou-se na cama e disse: “Padre, fique à vontade!”. Voz sussurrante. Loba no cio. Tentação à vista. O padre Ariosto lembrou o que lhe dissera o seu formador, o Mons. Vasconcelos: “Você pode ser mil vezes tentado, mas deve resistir às tentações”. Como resistir àquilo, àquela maçã, igualzinha à que Eva ofereceu a Adão, no paraíso? O jovem padre suou frio. Ficou parado. Não sabia o que dizer, nem o que fazer. Passaram-se trinta segundos, um minuto, ou mais? Sabia-se lá. O verão estava de tinir. Há dias, um mormaço fazia da cidade uma bolha prestes a explodir. De repente, naquele instante de agonia, um estrondo se fez ouvir. Mais um. Outro mais. E muitos outros. A trovoada chegara.


O padre Ariosto correu para casa debaixo do maior toró. Mesmo molhado, deixou-se prostrar diante do Santíssimo, na capela que ele mantinha anexa ao quarto. Orou sem cessar. Tentação vencida. Voto de castidade preservado.


Nunca mais o padre saboreou a boa comida de Mariazinha, a cozinheira da viúva Maristela. Porém, a viúva continuou com os seus préstimos junto à Igreja, como se nada tivesse acontecido.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE

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