01 de janeiro de 2017
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana
Em: 30/12/2016 às 21h41

O jegue de Zé Mochila :: Por José Lima Santana


José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

José Lima Santana (Foto: ClickSergipe)

Eu não sei se alguém que me lê já ouviu falar em Zé Mochila. Já? Bem. É provável que não. Afinal, Zé Mochila, vulgo de José Pinheiro da Mota, ou, ainda, Zé de Francisquinho da Gameleira, sendo este o marido de Dona Catarina de Sá Vicença do finado Toinho de Tonhão do Brejo, era do povoado Baixa da Raposa e morreu faz um lote de tempo. Os leitores do Jornal da Cidade não conhecem aquelas bandas. Disto eu tenho quase certeza. A não ser que algum leitor tenha parentesco por aqueles lados e por lá tenha andado até os anos 1960, pois de lá para cá o povoado minguou e, hoje, não resta a não ser duas ou três casas, caem, mas não caem, que ainda se mantêm de pé, sabe Deus como. O povoado, antes contando com cerca de vinte e tantas casas, dorme quase completamente na poeira dos tempos.
    
Zé Mochila era um sujeito bem aquinhoado na vida. Dono de boas pastagens de bom massapê na beira do riacho do Marmeleiro, capim sempre-verde deitando com o vento soprado da Serra do Capitão. E de gado de corte mestiço de dar gosto de ver. Gadão viçoso, gordo de tinir nos tempos de boas chuvaradas. Sem dúvida, um sujeito bem de vida. Andava, porém, como um pedinte. Roupa esfarrapada, um roló velho, caindo o solado, mal e mal protegendo os pés. Diziam as más línguas que em sua casa se passava fome. Não dou testemunho disso. O que eu bem sei é que, segundo lembro, ele, a mulher e os filhos eram mais secos do que caniços bamboleando ao vento. Racinha de gente magricela da moléstia!
    
O jegue de Zé Mochila adoeceu. Era um jegue pai d’égua, bem botado de pernas e corpo, que ele alugava a quem precisasse fazer cruzamentos com jumentas e éguas. Dele, havia espalhados pelo sertão um magote de filhos, jumentos e burros. Zé Mochila bem que poderia, no seu tempo, ter implantado um banco de sêmen do jegue Esperto. Este era o nome do jumento. Esperto. Nome acertado.
    
José Pinheiro da Mota, ou seja, Zé Mochila era ateu. Ele era motivo de escândalo para a família, toda ela igrejeira. Menos ele. Praguejava contra Deus e o mundo. Parecia um bicho. Aliás, corria à boca miúda que ele virava bicho mesmo. Um bicho mais poderoso do que os lobisomens que corriam na Chapada do Nêgo Catunda, um antigo escravo dos tempos idos, que era tido como feiticeiro. Por lá corriam lobisomens. Um até andejou de carreiras para as bandas da Baixa da Raposa, numas noites de lua cheia, há um bocado de tempo. Dizia-se que o tal lobisomem era um bisneto do Catunda, que andou de namoro com uma filha de Joquinha Barriga Mole. O pai da moça recusou dar a filha em casamento ao sujeito que virava bicho e este se botou para cima do velho numa noite de sexta-feira, quando Joquinha voltava da casa do irmão. O lobisomem queria dar cabo do pretenso futuro sogro, mas acabou se dando mal. Joquinha, prevenido, andava com uma espingarda calibre 12, carregada com duas balas de prata. Despejou chumbo, digo, prata pra riba do bicho e, segundo se dizia na bodega do meu tio-avô Evangelino Soares Santana, onde, quando eu era menino de calças curtas, ouvia a conversa dos homens, que bebericavam umas e outras, Joquinha ouviu o berro do animal, que saiu em disparada, sangrando. Dizia-se até que onde o sangue do lobisomem pingou não restou vida. Ervas, arbustos e árvores salpicados pelo sangue murcharam para não mais enverdecer. Sangue maldito!
    
Zé Mochila, pelo que dele diziam, não poderia ser abatido por balas de prata. Era um tipo de bicho mais forte do que os lobisomens. Ele teria uma capa de aço como proteção. Era, no dizer do povo, um “maçone”. E quem espalhou a história sobre os “maçones” foi um antigo beato de nome Tito Cearense, que andou benzendo as pessoas, rezando novenas e construindo pequenas capelas naquelas redondezas. Ele disse que os “maçones” eram inimigos de Deus desde os tempos dos faraós do Egito. E nisso o povo se apegou. Tito Cearense não era padre, não era frade, não era nada. Era apenas um homem do mundo. Um beato andarilho, que deixou rastros e seguidores.
    
E o jegue de Zé Mochila? Dele, eu quase ia me esquecendo. Por pouco, não o deixei de fora do enredo. Cabeça mais tonta essa minha.
    
Adoeceu. O jegue de Zé Mochila apanhou uma doença danada. Emagreceu. Os cascos caíram. O pelo do animal se foi. Parecia que uma sarna braba lhe comia o lombo. Ficou morre-não-morre. Não teve remédio. De garrafadas de Zefa Macambira a remédios vindos da capital, receitados por um veterinário, que de lá foi chamado a peso de ouro, nada deu valimento ao jegue. Pela primeira vez na vida, Zé Mochila meteu a mão no bolso sem dó nem piedade. Porém, sem resultado.
    
O pobre jegue botou o beiço no chão. Fechou os olhos lacrimejantes e cheios de moscas. Apenas arquejava devagarzinho. Não duraria meio-dia, talvez umas poucas horas. Eis que, naquela manhã de desesperança para Zé Mochila, passava pela estrada bem em frente à fazenda Baraúnas o padre Abílio Ferradura, velho sacerdote com fama de milagreiro, que vinha atender ao chamado do seu colega, o padre Fonsequinha, para pregar na Festa da Padroeira, dali a dois dias. O padre Abílio montava uma mula preta com sete palmos de altura, coisa linda de se ver. E, ainda melhor, de montar. Filha de quem? Do jegue de Zé Mochila, que o padre Abílio comprou a Maneca Pedroso dos Araçás, cuja égua Mimosa cruzara com Esperto um lote de vezes.
    
O vaqueiro de Zé Mochila houve por bem de pedir ao padre Abílio uma reza para o animal, que lhe pudesse salvar a vida. Cansado da viagem, que não era uma coisinha à toa, o velho padre de batina surrada acudiu o vaqueiro. Enquanto o padre fazia lá as suas orações, eis que chegou Zé Mochila, que se encontrava nos baixios, cuidando de uma vaca parida de novo. Assustou-se com a presença do padre, que ele não conhecia. Não disse nada, além de cuspir longe. Com desdém. Concluídas as orações, e após beber um caneco de água, o padre Ferradura montou na mula e foi-se. Antes de partir, disse que em sete dias o jegue estaria curado.
    
Lá para de tardinha, o jegue de Zé Mochila espertou-se. Fez jus ao nome. Abriu os olhos. Tirou o beiço do chão. Bom sinal. Zé Mochila animou-se. Anoiteceu. De hora em hora, Zé Mochila, de candeeiro na mão, ia espiar o jegue, que parecia cobrar ânimo, mais e mais. Pela manhã, já queria o jegue levantar-se, mas estava muito fraco e não tinha cascos. Foi melhorando aos poucos. Os cascos foram reapontando. O pelo voltou os poucos. Em sete dias, o jumento estava curado, como o padre bem o disse.
    
Dona Elvirinha, mulher de Zé Mochila, quis mandar um adjutório para as obras de reforma da Matriz, como retribuição pela recuperação do jegue. Zé Mochila impediu. Não gastaria dinheiro para encher o bolso do padre Fonsequinha. Afinal, se a reza deu valimento, foi outro padre quem rezou. E, na sua cabeça, não foi nada de reza. Foi coisa do tempo mesmo. “Tou cuspindo e escarrando pra reza”, disse ele, desdenhoso.
    
O jegue de Zé Mochila voltou aos velhos tempos, cruzando com jumentas e éguas. Enchendo o bolso do dono. De novo. Ele, então, passou a cobrar mais caro pelos cruzamentos. Não havia no mundo jegue como o seu. Podia-se dizer que venceu até a morte. Valia um dinheirão.
    
Tarde de sábado. 7 de outubro. Zé Mochila estava sentado no velho banco de mulungu, no alpendre da casa da fazenda, ouvindo o jegue Esperto relinchar, como se fosse um rei. Relincho grosso, demorado. Sete meses se passaram desde a cura do animal. De repente, sem que nem pra que, o tempo fechou, o mundo escureceu. Um trovão forte ribombou. O fogo desceu do céu. E um raio fulminou o melhor jegue do mundo.


*PADRE. ADVOGADO. PROFESSOR DA UFS. MEMBRO DA ASL DA ASLJ E DO IHGSE
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