12 de abril de 2015
POR: (*) José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

Torrado no Pau Que Chora :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br

Seringueira - Foto: Divulgação

Seringueira - Foto: Divulgação

Sim, é isso mesmo. Pau Que Chora. Quem não é de Nossa Senhora das Dores não sabe o que é isso. Pois é um antigo lugarejo, hoje progressista bairro, que se esparrama no cruzamento da saída da cidade com direções a Capela e Nossa Senhora da Glória, ali onde tem um posto de gasolina, e adjacências. E por que Pau Que Chora? Ora, ali, como nos tempos idos, se situavam algumas casas de lenocínio, coletivas ou individuais, muita gente pensava que o “pau que chora” era outra coisa. Não era não. Dizem os moradores mais antigos que um sujeito aboletou-se para as bandas da Amazônia, no início do século XX, nos tempos do ciclo da borracha e por lá andejou por um magote de tempo, vencendo malárias e outros males. Voltou depauperado, mas trouxe uma lembrança dos dias amargos que por lá viveu: uma muda de seringueira. A árvore cresceu e o povo espantava-se porque a dita cuja “chorava”, quando lhe davam um talho. E ficou desse modo: Pau Que Chora. Simples assim.
Tempo houve em que o Pau Que Chora era mal afamado. Quer por conta das casas de lenocínio, sendo o “Inferno Colorido” a mais famosa dentre elas, quer por causa das constantes cachaçadas, que, muitas vezes, geravam brigas e uma ou outra morte. Mistura explosiva: mulher de vida livre e cachaça. Barril de pólvora. É só riscar um “fofe”, que é como o povaréu pronuncia fósforo. Eh, linguajar arretado do raio da silibrina! Pois bem. Ali morava Maria Lindete, viúva do finado José dos Santos Malaquias, vulgo Zé Caxico, antigo pedreiro de mão torta e olho vesgo. Era porque as casas por ele levantadas – e ele as levantava numa rapidez nunca vista em lugar nenhum – dentro de poucas horas começavam a entortar. Com ele não tinha parede que entrasse no prumo. Era um diabo. Maria Lindete era conhecida por Lili, para os mais chegados, ou Sá Lili, para os mais distantes. Pessoinha pacata, vivendo da sua casa para a feira, e vez ou outra, quando um cego perdia um vintém, ela ia à Igreja, se a saúde lhe permitisse, pois era sempre atacada por um reumatismo danado, que lhe entrevava por dias e dias, especialmente no inverno. A friagem de junho a agosto às vezes lhe botava prostrada no catre. Um sofrimento, coitada! Sozinha, a única filha morava no Aracaju e pouca ligança lhe dava. Na janela da casa tinha quase sempre um frasco grande com uma cocadinha amorenada, que era de lamber os beiços. Daquilo mais ou menos ela vivia, tirava o sustento, ou parte dele.
Ali também morava Gilson de Felismina de Tonico, antigo morador do Risca Faca, outro lugarejo nosso. Adoro os nomes dos nossos lugarejos: Acoita Manhoso, Galo Assanhado, Sarongongo, Cachorrinhas (hoje, Cachoeirinha), Penca da Orelha (hoje, Pega na Orelha) e tantos outros. Não sei por que mudam os nomes dos lugarejos e das ruas. Um absurdo! Tradição é tradição. Porém, “ortoridade” é sempre autoridade. Tire com um gancho. E Gilson? Eu vou deixar de lado, é? Que mania esquisita essa minha de começar a falar sobre alguém ou alguma coisa e, de repente, dar para torar de banda, torcer de lado, tirar o corpo fora, enrolando os meus pacientes leitores, mas que, com certeza, me lascam, ao menos alguns de bofes mais quentes. Não ligo não. Eu gosto de instigar as pessoas. É um defeito (?) que carrego desde os tempos de menino franzino, batedor de pernas nas bodegas do João Ventura, meu subúrbio, quando ouvia as lorotas dos homens que costumavam molhar a goela ao pé dos balcões. E eu anotava tudinho em velhos cadernos, alguns até hoje guardados. Dizem, contudo, alguns amigos, que certos causos eu os invento. E daí, se for verdade? Mas, sinceramente, invento não. O povo é que inventa. Eu só registro. Hum, já fugi demais do assunto que eu trouxe hoje. Mãos à obra, pois. Embora no meu tempo de menino, já ficando frangote, “mãos à obra” era outra coisa. Deixe pra lá. Voltemos ao Pau Que Chora, a Lili e Gilson. Vou logo esclarecendo que os dois não tinham nem nunca tiveram nenhum xodó. Isso não. A coisa é bem outra. Sabem os leitores como são as coisas no interior: uma conversinha daqui, outra conversinha dali e as coisas vão acontecendo, amiudando ou se avolumando, conforme sejam. Igualzinho às minhas enrolações nesses escritos domingueiros. Definitivamente, agora chega.
Algum dos leitores por “um se acauso”, como dizia meu avô Jonas, já tomou uma narigada de torrado, também dito rapé? Já? Ah, mas alguém, se é que tomou mesmo, experimentou o torrado de Mané Grande, pai de Juca Grande da Maria do Ó? Com certeza não experimentou. O torrado da tabaqueira de Mané Grande era, dizia-se nas Dores, um torrado de lascar o cano. Matéria de primeira qualidade. Um ou outro velhinho loroteiro dizia até que o produto era afrodisíaco. Vai ver que era mesmo. O que tinha de velhinho sibite naqueles tempos...!
Já estou enrolando de novo. É uma mania desgraçada. Do começo ao finalmente é uma viagem de nunca mais acabar. Mas, prometo que agora eu chegarei ao fim. Gilson de Felismina gostava de atormentar as pessoas com ditos, apelidos e mangações. Toda vez que ele passava em frente à casa de Sá Lili, gritava: “Lili, tem torrado aí?”. A frase era a primeira estrofe de uma musiquinha ligeira do Rei do Baião, o velho Lua, que não é muito conhecida, mas é uma belezura de forrozinho agoniado, intitulada “O torrado da Lili”. A viúva Lili se atrepava nos tamancos, praguejando a não mais poder. “Seu fio duma égua, vá procurar o torrado de sua mãe”, bradava ela em resposta à gritaria dele. Não poderia haver cristã, por mais devota que fosse que aguentasse aquela chateação. Aliás, a letra da musiquinha, composta por Miguel Lima e Helena Gonzaga é assim: “Lili, tem torrado aí? / Me dê uma narigada / Que eu quero dormir (bis) // Eu tenho / Mas, porém não dou / Meu torrado é bom / Mas é de meu amor (bis) // O seu torradinho é bom / E o seu cheirinho / Logo se destaca / O mais difícil / É arrumar o fumo / Fumo de rolo de Arapiraca”. O difícil era, pois, arrumar o fumo de rolo de Arapiraca. Mané Grande arrumava. E do bom.
Um dia, quando Gilson perguntou se Lili tinha torrado, ela tangeu nele um pinico de mijo, que lhe banhou cabeça e tronco, escorrendo pelas calças de brim Coringa. Surpreso e sem ação, ficou Gilson mijado no meio da rua de chão batido, a vizinhança rindo em altas e compridas gargalhadas. A inhaca mijenta entrando de ventas adentro, se é que não entrou também na boca porca. E o pacote de pães comprados na bodega de João de Aurelino, que ele ia comer no café da manhã com a família? Pão com mijo? E, ainda por cima, mijo de viúva, dormido, ou seja, mijo da noite anterior, guardado debaixo da cama até o sol abrir o olho. Sá Lili preveniu-se, deixou a vasilha infame à mão e ficou postada na porta, à espera do gracejo diário do vizinho chegado a bolodórios. E tome-lhe mijo nas fuças.
Passado o susto, Gilson quis dar de cipó caboclo na pobre senhora, já que ele não se apartava de um cipó de bom valimento. Mas, aí, ele se estrompou. A vizinhança, que dele riu à larga, tomou as dores de Sá Lili e um ajuntamento de homens e mulheres o botou pra correr. Mijado e desmoralizado, nunca mais ele tomou subacada com Sá Lili, nunca mais ele perguntou se ela tinha torrado. Imaginem os leitores, uma viúva de respeito, dar-se ao desfrute de fazer uso de torrado de fumo de rolo de Arapiraca! Não convinha.


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 12 e 13 de abril de 2015. Publicação neste site autorizada pelo autor.


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