23 de abril de 2016
POR: José Lima Santana - jlsantana@bol.com.br
Fonte: José Lima Santana

O primeiro caso de impeachment no Brasil ocorreu em Sergipe :: Por José Lima Santana


José Lima Santana(*)  jlsantana@bol.com.br


José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

José Lima Santana (Foto: Arquivo pessoal)

Nem Collor, nem Dilma. Houve quem dissesse que o primeiro caso de impeachment do Brasil ocorreu em Sergipe, em 1898, quando o vice-presidente do estado, José Joaquim Pereira Lobo, teve o mandato cassado, na forma prevista pela Constituição estadual de 1892, por conta de supostas irregularidades, no lapso temporal de quatro meses em que o mesmo substituiu o presidente Martinho Garcez. Isso, porém, não vem ao caso. Não ao caso de hoje.
O que interessa é o caso do prefeito Alípio de Zé de Torroinho, dado e passado em fevereiro de 1966. Alguém denunciou o prefeito na CGI – Comissão Geral de Investigações, braço estadual do famigerado SNI. A denúncia prendia-se a supostas compras de medicamentos e combustíveis demais da conta. Era, segundo, o vereador Roberto de Zeca Pinto, o Robertinho da Capivara, povoado chinfrim na beira do rio Sergipe, “um escândalo do cabrunco”. Robertinho xingava o prefeito dia e noite.
Uma equipe de militares chegou à cidade numa terça-feira logo cedo. Dirigiu-se à Prefeitura Municipal, onde encontrou tão somente a porteira Natalina, uma velha donzela, que quase deu um chilique quando viu os fardados de verde-oliva, os coturnos batendo firmes no assoalho de madeira fornida, como se quisessem acabar com o mundo. Os milicos mandaram chamar o prefeito a toque de caixa e repique de sino. E lá se foi Natalina, guiando um capitão, à casa do prefeito, que, logo, foi trazido à presença do major. O povaréu deu de entender que o prefeito estava sendo preso. Os correligionários entraram em pânico. Os adversários exultaram. E um deles, Luiz Latoeiro, soltou meia dúzia de foguetes de resposta do fabrico do sempre louvado mestre Euclides.
Em pouco tempo, todos os funcionários, que, a bem da verdade, não eram muitos, estavam no pé do serviço. A milicada era formada por um major, um capitão, um sargento e dois recrutas. Marizete de Júlio Pau D´água, chegada que era a um homem de farda, arrastou asas para o capitão, que ela achou um pão. Suspirou. Gemeu. O capitão, compenetrado em analisar pilhas de documentos, não se fez de rogado.
Retomo, com a permissão dos leitores, o momento exato em que o prefeito adentrou na Prefeitura. Foi recebido pelo major, que, polidamente, lhe deu notícia do porque daquela visita. “O senhor, disse ele ao prefeito, foi denunciado por corrupção. O senhor, segundo consta da denúncia, comprou medicamentos muito além das necessidades da população. E, ainda, vem adquirindo combustível que daria para abastecer uma frota numerosa, mas a Prefeitura só tem um veículo. Estamos aqui, em nome da Gloriosa, para apurar tudo. A Revolução de 64 não tolera corrupção. Os corruptos deverão ir para a cadeia. E depressa”.
O prefeito respondeu que nada tinha a esconder nem a temer. Mandou trazer toda a documentação da despesa, desde a sua posse. Zé Carlinhos de João de Juca, o tesoureiro, ele próprio, encarregou-se de trazer caixas e mais caixas de documentos. Notas de empenho, faturas, notas fiscais, recibos.
No bar de Pedro Lemos, adversário feroz do prefeito, ex-vereador que não logrou ser reeleito na última eleição municipal, o ex-prefeito Josias Preá pagou uma rodada de cinzano com guaiamu para os presentes, que não eram poucos. Ali, seria a trincheira da oposição até que o prefeito fosse metido na viatura dos militares e recambiado ao quartel, no Aracaju. Ora, para os adversários, a prisão de Alípio eram favas contadas. “Um ladrão safado!”, gritou Mário Costeleta, concunhado do prefeito, que não ganhou um cargo na Prefeitura e, a bem dizer, não passava de um descarado, manhoso, que já tinha tirado cana por falsificar uísque, em passado recente. Disso eu e o mundo inteiro sabemos. Algum leitor ou alguma leitora não sabe disso? Ah, não? Pois deve se informar melhor dos fatos, viu? É preciso estar-se antenado com a vida. De hoje e de ontem.
O major, num determinado momento, precisou ir ao banheiro, que ficava no fundo do velho sobrado. Demorou-se quase uma hora. Quando Maria Gorda foi fazer a limpeza do banheiro, encontrou o vaso todo cagado. O major estava com uma disenteria da moléstia. “Major mais seboso”, diria Maria Gorda, bem depois. Quanto ao capitão, ao perceber o enxerimento de Marizete de Júlio Pau D’água, que lhe oferecia descabidas gentilezas, deu-lhe um carão desgraçado: “A senhora está muito assanhada. Ponha-se no seu lugar e deixe-me trabalhar!”. Ela quase morreu. Trancou-se numa saleta perto do banheiro e chorou pelo resto da manhã.
Três dias ficaram os militares na cidade, analisando documentos. Hospedaram-se na pensão de Valdemar Freitas. Aliás, todos os hóspedes foram convidados a se retirar da pensão, para que os milicos não fossem incomodados. Alguém chiou? Não se ouviu um pio sequer. Tempos brabos aqueles da ditadura! Aliás, qualquer ditadura é uma peste. Porém, alguns imbecis não se dão conta disso.
O prefeito Alípio de Zé de Torroinho era o primeiro mandatário municipal, naquela cidade, a cuidar do povo, no tocante a questões de saúde. Não faltavam remédios, e o único carro da Prefeitura não parava, levando doentes para a capital. Daí, a alta soma gasta com medicamentos e com gasolina. Nada demais da conta, como, enfim, acabariam constatando os milicos, arvorados em peritos contábeis e em salvadores da pátria. Pobres diabos!
Bem. Ao cabo de três dias, foram-se os milicos. Nada constava que desabonasse a conduta administrativa do prefeito Alípio. Os adversários, que já programavam a festa para celebrar a prisão do prefeito, murcharam as orelhas. Os foguetes comprados aguardariam outra oportunidade para subir aos ares. O vereador denunciante, Robertinho da Capivara, não se daria por satisfeito. E, claro, continuaria a xingar o prefeito e a dar-lhe trabalho na Câmara Municipal. Os amigos de Alípio, contudo, fizeram festa. Merecida. O povo pobre continuaria a ser atendido.
Por fim, e livre de qualquer embaraço, Alípio de Zé de Torroinho postou um telegrama a um deputado federal, em Brasília, seu compadre e amigo: “Compadre vg militares não encontraram nada pt Não fui preso nem empixado”.
Diferente de outros processos de impeachment, o “empixe” do prefeito Alípio, como alardeava o vereador Robertinho da Capivara, deu em nada. Simples assim.


 


(*) Advogado, professor da UFS, membro da ASL e do IHGSE


Publicado no Jornal da Cidade, edição de 24 de abril de 2016. Publicação neste site autorizada pelo autor.


Confira AQUI mais artigos do José Lima Santana


Confira AQUI mais artigos da autoria de José Lima Santana publicados no ClicSergipe antigo

Matérias em destaque

Click Sergipe - O mundo num só Click

Apresentação